Brenda Cristina já estava vidrada na internet há cinco horas quando sua mãe, Flávia, chegou dando bronca.
(Flávia) - Hoje é sábado, menina! Vai se divertir!
(Brenda Cristina) - Eu tô me divertindo, ué.
(Flávia) - Tira a fuça desse celular! Encontra suas amigas!
(Brenda Cristina) - Elas tão aqui no Whats comigo!
Revirando os olhos, Flávia foi para a cozinha preparar uma vitamina. Animada, ligou o antigo aparelho de som. Double You começou a repetir "please don't go" às alturas, o que fez Flávia dar umas reboladas.
Brenda Cristina chegou de fininho, sentou-se na mesa do café e ficou rindo da cena. Flávia baixou o volume.
(Flávia) - Que foi, menina? Não posso dançar, não?
(Brenda Cristina) - Pode, sim, mãe. É que eu nunca tinha visto.
(Flávia) - Também fui jovem um dia, viu?
(Brenda Cristina) - Conta pra mim, mãe. Como foi sua juventude?
(Flávia) - Ah, era muito melhor que hoje. Agora, por exemplo, eu estaria com meus amigos na rua. A gente ficava na calçada até de madrugada conversando.
(Brenda Cristina) - VOCÊS FICAVAM NA CALÇADA? E os assaltantes?
(Flávia) - Ah, não tinha isso naquela época, não.
(Brenda Cristina) - E esse povo do crack?
(Flávia) - Também não tinha crack. Tinha lança-perfume. Até a veiarada cheirava. (Risos) De vez em quanto, morria um do coração.
(Brenda Cristina) - E o vô deixava você sair?
(Flávia) - Eu saia escondida. Com quinze anos, já batia ponto na Calypso. (Risos) Chegava de manhã em casa.
(Brenda Cristina) - E vocês bebiam?
(Flávia) - Vixe! Já vomitei horrores naquela piscina do Ivo Tozzi. HAAHAHAHHA
(Brenda Cristina) - Nem tinha Uber, né? Como vocês iam e voltavam?
(Flávia) - A molecada pegava carro desde cedo. Bebia e dirigia. Faziam racha na Avenida Brasília, uma loucura.
(Brenda Cristina) - E tinha shows na cidade?
(Flávia) - E como! Me lembro de um do Barão Vermelho… Os patrocinadores entregaram amostra de maço de cigarros na porta pra gente. HAHAHA Imagina isso hoje?
(Brenda Cristina) - Tô passada, mãe. E criança brincava de que?
(Flávia) - As meninas jogavam elástico. Ai, que delícia!
(Brenda Cristina) - O que é elástico?
(Flávia) - Ah, deixa pra lá. E queimada também. Já os meninos curtiam carrinho de rolimã e jogar bete.
(Brenda Cristina) - Bete?
(Flávia) - Sim. E todo mundo jogava "stop", Detetive…
(Brenda Cristina) - Ah, isso a gente também joga, só que online.
(Flávia) - Que triste.
(Brenda Cristina) - Tô achando bem perigosa essa sua juventude.
(Flávia) - E como! Cêis são tudo leite com pêra. Na minha época, ninguém usava cinto de segurança. E a gente viajava no chiqueirinho do carro. Em Fusca, Brasília, Fiat 147… Sei lá como tô viva. (Risos)
(Brenda Cristina) - E ninguém se machucava?
(Flávia) - Todo mundo. Eu mesmo vivia ralada. E dá-lhe Merthiolate! Merthiolate ardia pra caramba, viu? A vida de vocês é fácil, nem o Merthiolate arde mais.
(Brenda Cristina) - A mãe acha?
(Flávia) - Eu tenho certeza. Muito fácil. Todo mundo tem piscina em casa, a gente ia nos clubes pra poder nadar.
(Brenda Cristina) - Clube? Um monte de gente na mesma piscina?
(Flávia) - É, ué. Piscinas imensas.
(Brenda Cristina) - E não pegava doença?
(Flávia) - Ah, uma frieira aqui e ali, nada que matasse. (Risos)
(Brenda Cristina) - E como vocês encontravam os crush sem internet?
(Flávia) - Quem?
(Brenda Cristina) - Os meninos que vocês estavam a fim.
(Flávia) - Ah, os paqueras. Na rua, ué. Calypso, Avenida Brasília, brincadeira dançante… Dançar lenta era tudo!
(Brenda Cristina) - Dançar lenta? Que brega!
(Flávia) - Cê que pensa. Bem agarradinho… Saudade. Agora vê se faz planos pra hoje à noite. Vai dançar na Calypso!
(Brenda Cristina) - Ah, me animei com tudo isso, mãe. Eu vou mesmo!
(Flávia) - Mas não se esquece das regras, hein? Nada de bebida. Se beber, chama um Uber. Coloca o cinto de segurança. Não deixa ninguém te agarrar. Se te oferecerem cigarro ou lança-perfume, sai de perto! Não chega tarde. E o mais importante: olha para os lados quando for entrar em casa. É um perigo ficar dando bobeira na calçada.
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato:celsodossi@gmail.com
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