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Uma ameaça real - Por Ayne Salviano

Por Redação |
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Em 1992, um dramaturgo sérvio-americano chamado Steve Tesich escreveu um artigo acadêmico onde apresentava um novo comportamento dos norte-americanos diante de notícias ruins como o escândalo de Watergate, que derrubou o presidente Nixon, e a Guerra do Vietnã.

Segundo o autor, informar a verdade naquele período passou a significar o mesmo que trazer más notícias. Então, o público preferia uma “realidade alternativa”, uma “verdade parcial”, comportamento muito parecido com o que a ciência cognitiva chama de viés da confirmação.

Trata-se de uma tendência do ser humano de confirmar a própria visão de mundo. Ele ignora as informações que contrariam aquilo que acredita ao mesmo tempo em que aumenta a importância das informações que confirmam suas crenças.

Em tempos de fake news é muito importante perceber como o perigo da alienação aumenta. Ao compartilhar apenas informações que reforçam as próprias ideias, independentemente da confiabilidade da fonte e da razoabilidade do conteúdo, as pessoas fazem crescer o número de matérias fraudulentas especialmente nas redes sociais e nos aplicativos de mensagem.

Ainda que todos sejam alertados do mal das propagações inverídicas e o quanto isso pode prejudicar o debate público e atingir injustamente pessoas e instituições de maneira irreparável, eles continuam com o comportamento absurdo de curtir e compartilhar textos sobre os quais não têm certeza. Filósofos como Descartes, Bacon e Popper, que superaram os equívocos da filosofia do período medieval por meio da ciência, teriam colapsos ao ouvirem que a Terra é plana, o nazismo é de esquerda, não há aquecimento global ou a vacinação faz mal. Vivemos um momento em que todo o conhecimento científico conquistado ao longo dos tempos está sendo desconsiderado simplesmente porque a verdade dói e não somos capazes de suportar que nossas verdades sejam desmentidas pela ciência. Sentimo-nos frustrados e ofendidos como se a verdade fosse algo pessoal. Não é. A ameaça da ignorância existe. Lutemos pelo conhecimento.

Ayne Salviano é jornalista

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