Jesus Cristo é mistério! Na linguagem teológica, o termo mistério indica uma verdade que ultrapassa o entendimento humano. Diante da realidade do mistério, a mente humana experimenta fascinante sensação: ao mesmo tempo que entende o que se enuncia está convencida que há muito mais a conhecer. O que se conhece, paradoxalmente, atiça ainda mais a curiosidade. Quem imagina possuir completa informação sobre Jesus Cristo, corre o sério risco de permanecer na superfície, estacionado em conceitos estereotipados ou mesmo caricaturais.
O risco de focar traços secundários no perfil de Jesus Cristo sempre representou um desafio a ser superado e corrigido. O próprio Filho de Maria percebeu, em seu tempo, o equívoco de estar sendo conhecido de forma ambígua. Quando expôs aos amigos próximos que, na condição de Messias, entregaria sua vida na cruz, o grupo ficou perplexo. Na concepção habitual, libertador não morre. Estava madura, pois, a hora de Jesus expor sua verdadeira identidade. Cuidou, primeiro, de selecionar pequeno grupo e o levou consigo a um alto monte, onde assumiu sensivelmente sua natureza divina. Para não sobrar nenhuma dúvida, uma voz saindo de luminosa nuvem confirmou: Jesus era o Filho amado do Pai Eterno!
O evento no monte Tabor é um claro convite para olhar além das aparências. Diriam os místicos que a hora era de passar o pano nas lentes para enxergar melhor. Nesse processo, a primeira providência é afastar-se dos ruídos do cotidiano. A contemplação exige silêncio, sempre! Na fecunda quietude da contemplação, capta-se que a morte de Jesus na cruz não foi experta armação de seus adversários. Se o próprio Cristo previa o desfecho, é porque aquele fim sangrento integrava o plano da salvação da humanidade. Verdade que fica ainda mais contundente quando se acolhe o testemunho de Jesus afirmando categoricamente que ninguém tiraria dele a vida. Ele a doaria por si mesmo, pois não há amor maior que dar a vida pelos outros. A morte na cruz representa a expressão máxima do amor pela humanidade. A crucifição assinala o gesto mais emblemático na biografia de Jesus. É pregado na cruz que se conhece o verdadeiro Jesus Cristo!
A história, todavia, não termina na cruz! A morte na cruz representa o mais sublime gesto humano de Cristo, mas é apenas o penúltimo ato da sua história. O ato final é a ressurreição, a vitória da vida sobre todas as formas da morte conseguida através da espontânea doação de si! A medida que se alcança esse entendimento, passa-se a corrigir posturas e ajustar atitudes. A mais significativa e expressiva mudança se dá quando se perde o medo de amar! O amor em estado puro é generoso, sem cálculos, sem preocupações com reconhecimentos. O amor é, sempre e simultaneamente, frágil e valente. O amor divino mais ainda!
Sublime mistério é Jesus Cristo! Amor encarnado, amor eterno! Sem oscilações! Sem remorsos!
Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba
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