Não foi por falta de aviso.
Mesmo com todas as reportagens (regionais e nacionais) sobre a proliferação desenfreada de microalgas que havia dado uma cor esverdeada ao Rio Tietê, formando uma camada verde por culpa da poluição e do despejo de fertilizantes, Nicolly Emanuelly enfiou na cabeça que queria aproveitar a prainha de Araçatuba.
"É sábado, sol bombando, vou ficar enfiada em casa vendo Caldeirão do Huck? Tá bom!" Douglas, seu noivo, até tentou segurá-la. "Véi, cê tá loca? A água tá verde! Tem peixe boiando, proibiro a pescaria, interditaro a praia, o pessoal tá pto". Nicolly Emanuelly nem deu confiança, vestindo um biquíni. "Meu corpo, minhas regras". E como quem dominava o relacionamento era ela, foi logo avisando. "Ah, e é você que vai me levar, bonitão. Mete uma sunga aí e liga essa moto. Sol do meio-dia torra as mamona". Pouco antes das dez horas, o casal estava lá. Logo na chegada, deram de cara com vários avisos colados pela Prefeitura: "ATENÇÃO! Água temporariamente imprópria devido à presença de algas. EVITE: beber ou ter qualquer contato com a água, consumir os peixes retirados do rio nesse período". Douglas apontou o indicador direito para um dos avisos. Nicolly Emanuelly deu de ombros. "É alga, trouxão! Já usei uns creme de alga SHOW! Faz é bem pra pele, vou ficar maravilhosa". E completou: "Tá com medo, não entra. Bebe sua Lokal aí que eu já volto". Mesmo sem querer, Nicolly acabou engolindo a água esverdeada do rio. E entre um mergulho e outro, mais água entrou por suas narinas. A araçatubense sentiu algo estranho e, em instantes, começou a se transformar. Seus olhos amarelaram, seus dentes rangiram de raiva e seu corpo ficou tão grande, forte e verde que o biquíni estourou em milhares de pedaços. PLAU! Quando Nicolly saiu da água, Douglas deu um grito. "MANO, É A GRACYANNE!" E ele até tentou sair correndo, mas foi levantado por dois dedos de sua noiva, agora cem vezes mais alta e mil vezes mais forte.
Gracyanne é o caral*o, meu nome é Mulher-Hulka!"
Espumando de raiva, a Mulher-Hulka pensou em ir para São Paulo. "Gastaram mais de 8 bilhões de reais para despoluir o Tietê, vou destruir o Alckmin!" Percebendo que seu alvo estava muito longe, mesmo para seus passos agora incrivelmente largos, a heroína mudou de ideia e, em questão de segundos, estava de volta a Araçatuba.
Antes mesmo da chegada daquele monstro gigante, a população já estava apavorada. Cada pisada era um tremor de terra. BUM! Dona Neide, uma senhora que estava pendurando roupas no varal, caiu em desespero. "Jesus, Maria, José! Já não chega calor e dengue, agora nóis tem terremoto também?"
Quando viram a Mulher-Hulka, a cidade inteira gritou ao mesmo tempo. AAAH! Quem estava em casa trancou tudo. Quem estava na rua se escondeu.
Como a nova heroína não sabia de quem era a culpa pelo estrago no Tietê (afinal, muita gente estava arrasada e até sem trabalho por causa da camada verde), Mulher-Hulka aproveitou sua força sobrenatural para destruir aquilo que a incomodava na cidade.
"Esse monte de buraco que nunca consertam, agora quero ver consertarem esse", dando uma pisada tão forte que abriu uma cratera lunar no Bairro Dona Amélia. "Essa vala super perigosa no meio da João Arruda Brasil que tá sem proteção desde que nasci", chutando toda a vala até que ela virasse pó, desviando das palmeiras imperiais. "Sou bruta, mas não sou burra".
Até Douglas conseguir chegar à cidade, a Mulher-Hulka já havia feito um estrago enorme. E enquanto ela detonava Araçatuba, seu noivo foi dar um google em "qual o ponto fraco do Hulk?"
A heroína continuava espalhando sua fúria. "Esse estacionamento pago que só aparece gente quando é pra multar!" BUM! "Essa falta de sinalização no trânsito". PLAFT! "Esse precipício eterno na Pompeu". PLOFT! "Essas quadras poliesportivas apodrecendo". CRASH! "Esse aterro sanitário nojento". POW!
Quando a Mulher-Hulka estava prestes a pisar na rodoviária, ouviu uma buzina vindo do chão. PI-PI! Era um caminhão. Na caçamba, uma piscina plástica lotada de açaí. Douglas havia se lembrando que o Hulk voltava ao normal quando era acalmado e Nicolly era viciada em açaí.
A heroína se agachou e, logo após levar algumas dedadas no alimento, foi diminuindo, diminuindo, até voltar ao tamanho de Nicolly.
As imagens tomaram o mundo, a maioria duvidou da monstra ("Photoshop malfeito"), mas Araçatuba estava em pedaços para quem quisesse ver.
O governo tratou de dar um jeito na cor do rio e e em todas as mazelas da cidade.
Já Nicolly Emanuelly ficou bem quietinha. Afinal, não conseguiram encontrar a verdadeira identidade da tal monstra gigante. "Antes Caldeirão do Huck do que mulher do Hulk. Tô com os pé todo f*dido".
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com
Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.