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Marcel adorava uma liquidação

Por Redação |
| Tempo de leitura: 6 min

Janeiro é um ótimo mês para ir às compras. A maioria dos consumidores já gastou o que tinha (e o que não tinha) em presentes de Natal e, se o comércio brasileiro anda devagar, no primeiro mês do ano ele está quase parando. Resultado: as ofertas aumentam, os preços despencam, os comerciantes dão nó em pingo d´água. E Marcel sabia disso melhor do que ninguém.

Avesso ao consumismo, Marcel fazia das tripas coração para "não gastar dinheiro com bobagens". E quando era obrigado a comprar alguma coisa, sempre procurava uma opção mais barata, uma versão genérica ou uma desculpa esfarrapada. "Yakult? Esse leite fermentado litrão de cinco reais é muito mais gostoso!" E realmente era mais gostoso. Para o bolso dele.

Suas filhas viviam reclamando, mas ele sempre tinha uma resposta na ponta da língua. (Juna) - Po*a, pai, catchup D'Ajuda? Não fde!" (Marcel) - É mais docinho. (Vana) - Papai, eu pedi um chocolate melhor. (Marcel) - Ah, eu entendi Arcor!

Até suas cachorrinhas pareciam se revoltar com os produtos que consumiam. A mais velha delas, Dolly, uma poodle sistemática de doze anos, chegava a rejeitar o que Marcel oferecia a ela, como se estivesse de olhos vendados naquele antigo comercial de presunto: "Tá querendo me enganar, é?"

E todo mundo criticava o coitado do Marcel, exceto seu pai, Seu Nelson, que era parecidíssimo com ele. Prestes a viajar com toda a família para as férias de janeiro, a dupla acabou se juntando (e se fortalecendo) quando alguns familiares reclamaram sobre as frustrantes malas de bordo. "Não cabe nada e nem posso levar meus perfumes!", expunha dona Celeide. "São doze dias de viagem, nessa merda só entra umas seis trocas de roupa!", contestava Renan, dando apoio a sua mãe.

Não adiantava. Marcel e Seu Nelson eram imbatíveis. Apavorados com o fato de que teriam que desembolsar cento e vinte reais por mala despachada, passavam óleo de peroba na cara e respondiam com a maior tranquilidade. (Marcel) - Compra perfume de 50ml, mãe. Esses de 100ml ficam tanto tempo parados que acabam estragando. (Seu Nelson) - Doze dias numa praia, né? Um chinelo, um sapato, meia dúzia de camisetas, um ou dois shorts e tá tudo certo.

Casado com Dona Celeide há mais de cinquenta anos, Seu Nelson sabia muito bem o que a incomodava. E adorava atiçá-la. "Cueca e calcinha dá pra usar dos dois lados, muié. Não são doze dias? Então meia dúzia tá perfeito." Para não avançar em cima do marido, Celeide corria fazer suas pinturas. "Pra não matar, eu pinto."

E mesmo depois de terem conseguido convencer a família inteira de que mala de bordo era a melhor opção (na verdade, terem conseguido vencer pelo cansaço), Marcel e Seu Nelson foram mais além. Ao se darem conta de que nem todos tinham uma mala de bordo decente e que, portanto, seriam obrigados a comprar algumas, a dupla comparou as marcas de malas disponíveis no mercado, puxando a sardinha para as mais baratas. (Seu Nelson) - Samsonite é supervalorizada. (Marcel) - Delsey e Lansay? Pura grife.

E mesmo Dona Celeide e Renan tendo desistido de argumentar, os dois continuaram. (Seu Nelson) - Eu gosto muito dessa tal de Estrada. (Marcel) - Realmente muito boa, pai. Ótima escolha.

Misturando duas cores de tinta para criar uma terceira, Celeide revirava os olhos. Já Renan, mais esquentadinho, dizia o que pensava. "Gosta muito porque custa cento e sessenta reais." Sem terem como contestar algo que era fato (a tal Estrada custava metade do preço da concorrente mais barata), a dupla dava uma de Leão da Montanha e inventava uma "saída pela direita". (Seu Nelson) - Já viram como o pessoal do aeroporto joga as malas de qualquer jeito? (Marcel) - Verdade, pai. Tem até vídeo no YouTube.

E mesmo quando Renan rebatia dizendo o óbvio ("Malas de bordo nem são jogadas, são os próprios passageiros que as colocam no lugar"), Marcel ainda era capaz de tirar uma resposta da cartola. Uma resposta mal lavada, mas ainda assim uma resposta. "Falta espaço. Já vi muito comissário tentando espremer mala e danificando tudo."

(Pausa para Celeide, Renan, Juna, Vana e Dolly respirarem).

Há dois finais para esta história, afinal as rédeas financeiras de Marcel e Seu Nelson já haviam salvado a família em épocas de crise e a dupla também tinha coração bom. É que eles davam um banho de razão quando seus familiares estavam sendo totalmente levados pela emoção. E emoção não paga as contas.

Comecemos pelo final mais plausível (e, portanto, menos engraçado): mesmo contrariada, a família acabou viajando com suas novas malas de bordo Estrada e tudo ocorreu conforme o previsto. Ou melhor: quase tudo.
Uma das malas perdeu as rodinhas já no embarque do Aeroporto Dario Guarita. E os carros que Marcel havia alugado deixou todo mundo de cabelo em pé, afinal não é nada fácil fazer ultrapassagens pilotando um carro 1.0, ainda mais quando há vários passageiros e o bagageiro está cheio. Marcel ainda contou vantagem. "Imagina se vocês tivessem trazido malas grandes? Nem caberiam."

A verdade é que os carros previamente escolhidos por Renan possuiam motor 1.5, mas tudo bem. No primeiro final da história, todo mundo voltou para casa contente e pensando na próxima viagem.

Já no segundo final (com trechos extras e comentários do autor), a chegada das malas Estrada havia causado uma revolução em toda a família. Indignada, Dolly armou um plano com as outras cachorrinhas e, orquestradas, as quatro tentavam morder as partes íntimas de Marcel toda vez que ele chegava em casa. "Ai, meu saco! Essas cachorras tomaram vacina? Tô achando que estão com raiva!" Sim, elas estavam com raiva.

(Mas o sentimento, não a doença).

Para darem uma lição ao pai, Juna e Vana se juntaram. Misturando catchup D'Ajuda com chocolate Arcor, criaram uma pasta super escorregadia e a espalharam pela casa, untando o chão bem nos lugares onde Marcel costumava pisar. Ele praticamente não parava mais em pé. "Que isso?" Ploft! "Vocês estão loucas?" Cataploft! "É isso que mereço?" Plau!

Quase entrevado, Marcel se rendeu. Começou a comprar tudo do bom e do melhor para sua família. Marcas e produtos baratos, só para ele. Afinal, Marcel não era de dar o braço a torcer. "Hum, como D'Ajuda é docinho! Melhor ketchup."

Já as tramoias que pai e filho costumavam fazer acabaram levando os dois ao estrelato. Inspirado na lendária dupla sertaneja "Milionário e José Rico", um famoso empresário local criou "Miserávi e Zé Sovina", fazendo com que Marcel e Seu Nelson virassem estrelas locais.

A dupla já está escalada para se apresentar na Expô Araçatuba 2019. No repertório, entre outras canções, os dois maiores sucessos: "Reis da Finança" ("Ai, ai, ai, aaaai / Que mundo consumista / Tudo estaria f*dido / Se nóis num administra…) e "Itens de Fábrica" ("Chega de gastação / Todos querem metê a mão / Pra quê pagá cinco mil no original / Se por novecentos nóis compra um quase igual?").

Se cuida, Luan Santana.

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com

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