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Jenifer Maria nunca havia pulado ondinhas

Por Redação |
| Tempo de leitura: 9 min

Trabalhar na casa de Helena Albuquerque de Alcântara Machado, ao contrário do que muita gente pensa, não é nada fácil. Aquela mulher refinada e esguia que deixa um rastro de Chanel nº5 por onde passa pode até parecer um anjo que caiu do céu para a maioria dos araçatubenses, mesmo porque vive promovendo festas beneficentes e batendo cartão nas missas dominicais da Igreja Matriz, mas a verdade é que ela só parece. E Jenifer Maria sabia muito bem disso.

Helena irá protagonizar vários contos, pois é tanta malevolência numa pessoa só que nem meia página de jornal dá conta. Mas voltemos para nossa história. Que, aliás, aconteceu anteontem, dia vinte e oito de dezembro de dois mil e dezoito.

Os membros da família Albuquerque de Alcântara Machado empanturravam as malas com roupas de frio quando Helena tocou seu sino. E tocou com tanta força que o casarão branco do Jardim Nova Yorque parecia tremer. Triiiiim! Helena não gostava de forçar suas cordas vocais, então havia adotado o hábito de tocar um sino robusto e prateado para chamar as pessoas que trabalhavam em sua residência. Como o número de funcionários era grande (duas cozinheiras, duas arrumadeiras, duas lavadeiras e um motorista), o sino da patroa era tocado de forma específica para cada um deles. Desta vez, ele soou três vezes, o que significava que Helena estava chamando Jenifer Maria, uma de suas arrumadeiras.

No casarão há quinze minutos, Jenifer já trajava seu uniforme, mas ainda não havia terminado o xixi. "Táqueopariu! A gente não tem tempo nem de mijá!" E, notando que o papel higiênico havia acabado, deu uns pulinhos, levantou a calcinha e saiu correndo, subindo as escadas e chegando ao encontro de sua patroa quarenta segundos depois. "Senhora?" Sem nem olhar para os lados, Helena deixou claro que estava possessa. "Viu minhas luvas animal print de esquiar?"

Temendo o que estava por vir, Jenifer soltou um pouquinho do xixi que havia sobrado na bexiga. E gaguejou. "Lu-luva de esquiar? Que lu-luva de…" Helena nem deixou que a funcionária terminasse a frase, debochando do nervosismo dela. "A lu-luva de esquiar que-que estava aqui-qui no meu clo-closet. Não a ver-verde, nem a ro-roxa, mas a an-an-animal print." Como cada arrumadeira era responsável por metade dos cômodos e o closet de Helena não fazia parte da metade atribuída a Jenifer, a arrumadeira nem sabia o que responder. Respirou fundo, conteu o nervosismo para parar de gaguejar e falou a verdade. "Desculpa, dona Helena, mas nem sei do que a senhora tá falando. Essa parte da casa é da Gislaine. Nunca nem vi uma luva de esquiar. E nem sei o que é animal printi."

Helena seguiu olhando reto. "Vocês nunca veem nada. Vai ver a luva usou os próprios dedinhos e saiu andando por aí." Chocada por ter sido chamada de ladra às oito e vinte da manhã, Jenifer não conseguiu dizer nada. E o silêncio constrangedor foi cortado pela própria patroa, que estava prestes a viajar e, portanto, com um humor até razoável. "Ah, deixa isso de lado. O que uma temporada em Aspen não faz com as pessoas, né? Animal print são estampas que remetem a animais. Zebra, leopardo, onça. Essas luvas são de oncinha." E se autoelogiou. "Ai, como estou simpática!"

Helena seguiu a conversa, o que provava que sua disposição emocional realmente estava num bom momento. "Você vai passar o Ano Novo onde?" Jenifer estranhou a pergunta, mas respondeu com sinceridade. "Ah, onde sempre passo, Dona Helena. Na minha casa mesmo." Atônita, Helena finalmente dirigiu os olhos para a funcionária. "EM CA-SA?" Para Jenifer Maria, aquilo era tão normal que ela não entendeu o espanto. "É, em casa."

A patroa seguiu curiosa. "Eu sei que vocês não têm a oportunidade de viajar para fora, mas achei que as pessoas simples deste país virassem o ano pulando ondinhas." Agora era a vez da arrumadeira ficar curiosa. "Ondinhas?" A falta de conhecimento de Jenifer quase fez Helena enxotá-la de seu closet, mas toda aquela irritabilidade desapareceu quando Helena encontrou as tais luvas animal print de esquiar. Estavam dentro do compartimento lateral de uma bolsa. Ou seja: ela mesma havia as colocado lá. E esquecido depois.

Voltando a confiar na funcionária, Helena se animou. "Pular ondinhas, mocinha! Praia, virada do ano, o povão bebendo sidra, furando os pés na areia, jogando porcariadas para Iemanjá e pulando sete ondinhas. Cada pulo é um pedido diferente. E essa gente ainda usa roupas íntimas de determinada cor para atrair aquilo que quer: paz, amor, dinheiro, sei lá mais o que. Tem até simpatia, nunca reparou na capa daquelas revistas baratinhas que ficavam nas gôndolas de fila de caixa de supermercado? Claro que nunca vi alguém pulando ondinha ao vivo, Deus me livre virar o ano neste país horrível, mas vejo sempre nos noticiários."

A ficha de Jenifer Maria havia caído, claro que ela já tinha ouvido falar de todos os rituais de Ano Novo, exceto o lance das ondinhas. "É que eu nunca nem vi o mar, dona Helena."

Aquilo foi a gota. A paciência de Helena Albuquerque de Alcântara Machado havia oficialmente chegado ao fim, motivo pelo qual abriu as mãos e as cachoalhou ao mesmo tempo até que a arrumadeira sumisse da frente dela.

No outro dia (ou seja, ontem, vinte e nove de dezembro), antes do amanhecer, a família de Helena saiu em viagem, o que fez com quase todos os funcionários da casa fossem dispendados por duas semanas. Aproveitando o sábado ensolarado, Jenifer Maria teve duas reações: descontar os desaforos da patroa em seu noivo, Jardelino, e dar um jeito de pular ondinhas, pois tinha pavor de ficar por baixo.

Como não tinha dinheiro para viajar até o litoral mais próximo, Jenifer improvisou: mandou Jardelino pegá-la em casa logo cedo e levá-la até o calçadão. Consultando uma antiga edição da "Ti Ti Ti", Jenifer havia definido quais cores de roupas íntimas ela e o noivo iriam usar, entrando na Pernambucanas e fazendo uma compra bem rápida. "Tó, veste essa Zorba amarela pra vê se você ganha algum dinheiro ano que vem. Já botei minha calcinha azul no provador, preciso é de muita tranquilidade pra aguentar a Dona Helena mais um ano. E agora passa no Rosa Felipe, vou pegar uma sidra."

Jardelino não estava entendendo nada. "Cê tá louca? Cueca amarela? Pra que eu vô usá essa desgraça? E quem disse que eu uso Zorba?" Jenifer era calma e obediente com a patroa, mas não tinha a mínima paciência com Jardelino. "Ai, cala a boca! Faz o que eu tô mandando e agiliza aí." Jardelino ameaçou ficar bravo. "Cê quer que eu troque de cueca no meio da rua?" Jenifer revirou os olhos. "Tamo indo pra Prainha de Buritama, troca lá. E num reclama! Enche o tanque da moto, passa no Rosa Felipe, toca pra Prainha e num me enche o saco!" Jardelino, como sempre, obedeceu.

Pouco tempo depois, lá estavam na Prainha. Como chegaram cedo demais, Jenifer teve espaço e privacidade para fazer tudo o que queria. Ficou só de calcinha (azul), mandou Jardelino vestir a Zorba amarela e parou um senhor que passava pelo local, interrompendo a caminhada matinal dele. "Cê tira umas foto de nóis dois entrando no mar? Depois passa o dedo aqui, bota a seta em "vídeo" e dá uma filmada. É dois palito."

Mesmo estranhando a situação, o senhor achou melhor não questionar. Muito menos explicar que aquela praia era de água doce. Bateu fotos, fez dois vídeos, entregou o celular e saiu andando. Ao ouvir um "brigada!" da moça de calcinha azul, apertou o passo e sumiu no horizonte.

Foi então que Jenifer Maria percebeu: havia esquecido o objeto principal. Como alguns quiosques já estavam abertos, a araçatubense foi até o que vendia milho cozido e pediu a tampa de panela emprestada. "Já trago!" E voltando para perto do noivo, bem na beira da água, explicou o que precisava ser feito. "Com uma mão cê filma, com a outra cê vai empurrando a água pra fazê ondinha. Eu pulo as sete, faço os pedido e tá pronto."
Pensando duas vezes sobre seu noivado, Jardelino obedeceu. E filmou Jenifer pulando as ondinhas que ele mesmo fabricava. Como a arrumadeira desconhecia o rito, foi fazendo seus sete pedidos em alto e bom som: "Quitar minha casa!", "instalar gato da NET", "perder seis quilo", "conhecer o Guarujá", "trocar de celular", "ganhar aumento", "não pegar dengue de novo".

Crente de que estava livre daquele pesadelo, Jardelino desligou a câmera do celular e, ao sair da água, ouviu um grito. "A SIDRA!". Jenifer pediu para ser filmada novamente. Desta vez, comemorando a "virada do ano" e estourando a rolha. A arrumadeira ficou visivelmente frustrada quando a espuma da Cereser não esguichou para cima, já que a bebida estava quente.
Jenifer quebrou a garrafa num banco de cimento e cortou a sola do pé direito com um dos cacos, mandando o noivo tirar uma foto.

Jardelino ficou assustado. "VOU TE INTERNAR!" Jenifer explicou por cima: "Também não entendi, não me pergunta, Dona Helena falou que todo mundo fura o pé, então todo mundo fura o pé." E ordenou: "Pronto, cabô. Veste a roupa e vambora." Antes que partissem, Jenifer ainda ainda deu uma entradinha na água e atirou a embalagem da Zorba amarela, dando explicação para o noivo antes que ele pedisse uma. "Dona Helena falou que jogam porcariada pra Iemanjá."

Os objetivo de Jenifer Maria acabou não sendo alcançado: fazer com que dona Helena a visse pulando ondinhas. Mesmo a patroa nunca tendo aceitado seu convite de amizade nas redes sociais, a arrumadeira era seguida pelas filhas de Helena, o que a fazia acreditar seus posts chegariam até ela. O problema é que eles não chegaram até ninguém, já tanto Facebook como Instagram censuram seios expostos.

Depois de todo aquele trabalho, Jenifer Maria só não virou o ano totalmente frustrada porque havia garantido uma pequena revanche. Após Helena ter a expulsado do quarto, a arrumadeira esperou que a patroa deixasse a bolsa dando sopa, pegou o par de luvas animal print, foi até seu banheiro, terminou de esvaziar a bexiga em cima delas e as colocou na bolsa novamente.

"Animal printi O CARAIO, véia metida da po**a! Vai usar oncinha, vai feder jaulinha."

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com

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