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Juarez Paes: Descascando abacaxi - Pensamentos e conjecturas

Por Redação |
| Tempo de leitura: 4 min
Descascar o abacaxi tem, além do próprio ato de retirar a casca da fruta para consumi-la, outra conotação para a frase que se refere a ter um enorme problema nas mãos para resolver. Agora há pouco, enquanto desnudava a referida fruta para bater um suco desta com hortelã, meu pensamento navegava e conjecturava sobre problemas e soluções, ideias e aplicações, tarefas, obrigações, observações e constatações do dia a dia, ato normal para a maioria das pessoas enquanto entretidas com alguma atividade solitária, naqueles momentos em que não há outras distrações e o único som ambiente é o do instrumento e o material envolvido na tarefa. Quem cozinha, faz artesanato, desenha, pinta, faz montagem, arrumação, enfim, qualquer coisa que nos deixe absortos e prontos para navegar em silêncio quase absoluto, sabe que a nossa porção “observador atento” se aguça e se torna “ato contínuo” criar um liame qualquer com o que se passa em nossas cabeças naquele momento. Conjecturava eu, então, sobre alguns cortes no orçamento familiar com o objetivo de viabilizar a construção de um modesto imóvel rural, onde pretendo residir longe do tumulto e das agruras do ambiente urbano, quando ao retirar toda a casca do abacaxi atentei para quantidade de polpa da fruta que fui obrigado a desperdiçar, já que aqueles “olhinhos” teriam que ser retirados para evitar que se dissolvessem no suco, provocando aquela sensação de coceira na garganta durante a ingestão. Ao dar o arremate final com a retirada dos “olhinhos” remanescentes no corpo da fruta, me dei conta de que, literalmente, tive que “cortar na carne” para que obtivesse uma polpa íntegra e consequentemente um suco que ainda deixaria mais um pouco de conteúdo na peneira, mas, que seria agradável ao degustar, sem incômodos ao ser tragado. Imediatamente, liguei o processo de preparo do suco ao corte no orçamento, o que foi preponderante para eu entender e decidir que não haveria espaço para dó, ou amolecimentos de minha parte, se quisesse chegar ao objetivo traçado com total sucesso. Viagens, saídas, festas ou qualquer outro formato de diversão que implicasse em gastos supérfluos, até a conclusão da obra estariam vetados, ficando para o orçamento mensal gastos apenas o estritamente necessário como, comida, vestuário, escola (incluindo material, uniforme, etc.), combustível, limpeza e higiene. Assim procedeu o meu pensamento, porém, independentemente do rigor necessário com as finanças, eu não poderia esquecer que não estaria sozinho nessa, como estava no momento em que descascava o abacaxi, e portanto, ainda precisaria consultar e ouvir as outras partes envolvidas no processo. Por hora, servi apenas o suco, que aliás, ficou delicioso e foi aprovado pelas outras partes envolvidas, porém, quanto ao aperto no cinto e cortes, preferi deixar para outra oportunidade, afinal, outros abacaxis ainda deverei descascar até que tudo esteja pronto para a largada. A ideia de desenvolver o texto de hoje contando o que se passou na minha cabeça enquanto eu descascava o abacaxi, não tem como objetivo principal falar sobre a construção da casinha modesta na beira do rio, mas sim de convidá-los para uma reflexão mais profunda sobre tudo o que realmente importa, as atitudes que terão relevância para as nossas vidas, daqueles a quem amamos e todos que orbitam nossa esfera familiar, social e profissional. Da mesma forma que a maioria, como eu, prefere descascar o abacaxi aprofundando o corte para que a casca seja retirada juntamente com a maior parte dos “olhinhos”, existe uma outra parcela que opta por cortar a casca rente à polpa da fruta e depois, com a ponta fina da faca, retirar “olhinho” por “olhinho”. Esta pequena parcela é composta pelas pessoas mais pacientes, mais econômicas, mais reflexivas, mas, que não aceitam cortar na carne por ser mais prático e sim procurar uma forma, mesmo que mais demorada, de encontrar um caminho, mesmo que seja mais longo, de achar uma saída, mesmo que seja por uma pequena janela, porque sabem que para todo problema existe mais de uma solução. Decisões e atitudes podem ser pensadas, refletidas, impulsivas, precipitadas, equivocadas, impensadas, tomadas sob forte emoção, com raiva, tristeza, euforia e no churrasco depois de uma caixa de cerveja na cabeça. Cada uma delas equivale a uma forma de descascar abacaxi e levam a resultados diferentes, situados entre o desastroso e o maravilhoso. Então, galera, quando estiverem diante de um grande problema ou de uma decisão difícil, antes de qualquer atitude, vá ao supermercado, sacolão ou frutaria, adquira uma ou mais unidades de abacaxi, leve para casa e descasque sem pressa ou hora para acabar!

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