28 de outubro de 2026
EM ESTUDO

Spray nasal com composto psicodélico é testado contra depressão

Por Da Redação |
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução
Estudo clínico avaliou spray nasal com composto psicodélico e identificou redução dos sintomas de depressão em pacientes. Os resultados ainda precisam ser confirmados em novas etapas de pesquisa.

Um spray nasal à base de mebufotenina, substância psicodélica também conhecida como 5-MeO-DMT, apresentou resultados promissores na redução dos sintomas de depressão resistente ao tratamento. Os resultados foram publicados em 26 de outubro de 2026 na revista científica JAMA, após um ensaio clínico de fase 2b com 193 adultos.

A substância é associada ao veneno do sapo-do-rio-Colorado (Incilius alvarius), espécie encontrada em regiões do México e dos Estados Unidos. No estudo, porém, os pesquisadores utilizaram uma formulação sintética de mebufotenina benzoato, administrada por spray nasal em ambiente clínico controlado, e não o veneno extraído diretamente do animal.

O ensaio avaliou os efeitos de uma única administração do composto em pessoas com depressão resistente ao tratamento, condição caracterizada pela ausência de resposta adequada a diferentes tentativas de tratamento com antidepressivos. Os resultados indicaram redução dos sintomas já no primeiro dia após a aplicação, com benefícios observados durante o acompanhamento de até oito semanas.

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Como foi realizado o estudo

A pesquisa incluiu 193 participantes adultos com depressão resistente ao tratamento, recrutados em 38 centros na Austrália, na Europa e nos Estados Unidos. Os participantes foram distribuídos em grupos que receberam doses de 8 miligramas ou 12 miligramas de mebufotenina benzoato, além de um grupo de comparação que recebeu uma dose baixa de 0,3 miligrama.

A administração ocorreu em uma única aplicação em uma das narinas, realizada por um profissional de saúde treinado. O procedimento foi acompanhado por suporte psicológico e monitoramento clínico, com observação dos participantes após a dose.

Os pesquisadores avaliaram a intensidade dos sintomas por meio de uma escala clínica utilizada para medir a gravidade da depressão. A principal comparação considerou a mudança dos resultados entre o início do estudo e o 29º dia após a aplicação.

Resultados apontam redução dos sintomas

Após 29 dias, os participantes que receberam a dose de 12 miligramas apresentaram uma redução média de 11,1 pontos na escala de avaliação da depressão. No grupo de comparação, que recebeu 0,3 miligrama, a redução média foi de 5,5 pontos.

Na dose de 8 miligramas, a redução média foi de 12,5 pontos no mesmo período. Os pesquisadores identificaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos que receberam as doses terapêuticas e o grupo de comparação.

A proporção de participantes que apresentou resposta ao tratamento no 29º dia foi de aproximadamente 35% no grupo de 8 miligramas e 34% no grupo de 12 miligramas, contra 12% no grupo de comparação. A remissão dos sintomas, por sua vez, foi registrada em 26%, 18% e 8% dos participantes, respectivamente.

Os benefícios observados também foram identificados nas avaliações realizadas até o 57º dia após a administração, embora os pesquisadores ressaltem a necessidade de estudos adicionais para confirmar a duração dos efeitos.

Efeitos adversos e acompanhamento médico

O estudo também avaliou a segurança da substância. Eventos adversos foram relatados por 76% dos participantes que receberam 8 miligramas, 85% daqueles que receberam 12 miligramas e 73% do grupo de comparação. Segundo os pesquisadores, 99,7% dos eventos registrados foram classificados como leves ou moderados.

Entre os efeitos observados, houve aumentos transitórios da frequência cardíaca e da pressão arterial, que retornaram à faixa de referência em até uma hora após a administração. Os participantes permaneceram sob observação clínica, e a aplicação foi acompanhada por profissionais capacitados.

A pesquisa também apresenta limitações. Entre elas estão o número de participantes, o período de acompanhamento e a necessidade de avaliar os resultados em estudos maiores. Além disso, o protocolo exigiu que participantes que utilizavam antidepressivos interrompessem a medicação sob supervisão antes do procedimento, o que pode limitar a aplicação dos resultados a outros contextos clínicos.

Tratamento ainda precisa de novas etapas de avaliação

Os resultados indicam potencial para o desenvolvimento de uma nova abordagem para pessoas que não respondem adequadamente aos tratamentos convencionais. Uma das características investigadas é a duração relativamente curta dos efeitos psicodélicos agudos, que pode permitir um período de observação clínica menor do que o exigido por algumas outras terapias psicodélicas.

Apesar dos resultados, o spray não deve ser considerado uma opção de uso livre ou um tratamento já estabelecido para a depressão. A eficácia e a segurança ainda precisam ser confirmadas em estudos de fase 3, com amostras maiores e acompanhamento adicional.

A administração estudada ocorreu em ambiente clínico, com doses controladas e suporte profissional. Portanto, os resultados não justificam o uso caseiro de substâncias extraídas de sapos ou de produtos psicodélicos sem orientação médica.