A Polícia Civil de São Paulo instaurou um inquérito para investigar mortes de bebês internados no Hospital Salvalus, localizado na Mooca, zona leste da capital paulista. As investigações apuram suspeitas de infecções durante as internações e complicações como sepse e choque séptico.
O 8º Distrito Policial (Brás) investiga seis casos. Ao todo, foram identificadas 16 certidões de óbito relacionadas a crianças que passaram pela unidade. Segundo uma advogada que representa familiares, ela mantém contato com 36 mães que perderam os filhos nos últimos meses no hospital, que integra a rede Hapvida. O número total de mortes ainda não foi confirmado oficialmente.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que os casos, ocorridos em meses anteriores, foram comunicados às autoridades na quarta-feira (21).
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Bebê morreu após complicações durante internação
Um dos casos envolve um bebê de quatro meses que foi levado ao Hospital Salvalus, em abril deste ano, com inflamação na garganta.
Segundo o depoimento da mãe à Polícia Civil, a equipe médica prescreveu amoxicilina e dipirona em gotas, sem solicitar exames naquele primeiro atendimento. No dia seguinte, a criança apresentou queda da temperatura corporal e palidez. Um médico identificou sinais de possível infecção pulmonar e solicitou exames de sangue, que apontaram um processo infeccioso.
Diante do quadro, o bebê foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde precisou receber medicamentos por via intravenosa e ser intubado. Como a equipe teve dificuldade para acessar as veias da criança, a medicação foi administrada no pé.
Dias depois, segundo a mãe, o pé utilizado para a aplicação dos medicamentos apresentou necrose. Um especialista vascular avaliou o membro, mas não conseguiu reverter a condição. A mulher também relatou ressecamento dos olhos do bebê durante a internação, seguido de comprometimento da visão.
Após mais de um mês na UTI, em coma induzido, a criança foi transferida para a enfermaria no fim de maio, ainda inconsciente. A justificativa apresentada pela equipe médica, conforme o relato, foi a alta concentração de bactérias na unidade intensiva.
Preocupada com a condição do filho, a mãe comprou um oxímetro para acompanhar a oxigenação. Ao perceber uma queda na saturação, pediu que o bebê voltasse à UTI.
A criança morreu dois meses depois, aos sete meses de idade. A certidão de óbito registra choque séptico, encefalopatia hipóxico-isquêmica, sepse e pneumonia como causas da morte.
Família relata suspeita envolvendo medicação
Outro caso envolve um recém-nascido de um mês de vida, internado no hospital em março, com histórico de icterícia. Segundo o relato da família, o bebê passou por um procedimento cirúrgico e recebeu medicamentos.
Após a administração dos remédios, a criança começou a apresentar movimentos repetitivos nas pernas, que evoluíram para inchaço corporal. A mãe afirmou ter sido informada de que os sintomas poderiam ser uma reação comum do pós-operatório, mas suspeitou de uma possível infecção bacteriana.
Durante uma troca de fraldas, a mulher percebeu grande quantidade de sangue seco no corpo do filho. Pouco depois, os equipamentos de monitoramento emitiram alarmes, indicando uma parada cardiorrespiratória.
O bebê foi socorrido e intubado. A alimentação foi suspensa diante de uma suspeita de intoxicação, conforme o relato. Durante a internação, que durou aproximadamente um mês, a criança também precisou receber transfusões de sangue e apresentou perda significativa de peso.
No início de maio, o recém-nascido sofreu outra parada cardiorrespiratória e morreu. Segundo o boletim de ocorrência, o pai relatou ter ouvido dois profissionais de enfermagem conversarem sobre a medicação administrada durante o atendimento. Um deles teria dito: “Não era para usar o ambu [bolsa de reanimação manual]”. O outro teria respondido: “Ixi, mas eu já usei”.
Após ser informada da morte, a mãe pegou o bebê no colo para se despedir e percebeu, segundo seu relato, sangramento nos ouvidos, nas narinas e na parte inferior do corpo.
A certidão de óbito apontou choque, coagulação intravascular disseminada e atresia das vias biliares como causas da morte. Os pais registraram o boletim de ocorrência cerca de cinco meses depois. No documento, a mãe afirmou ter conhecimento de relatos envolvendo outras famílias que poderiam ter passado por situações semelhantes.
Criança morreu após infecção no cérebro
Um terceiro caso envolve uma menina que tinha seis meses quando foi internada no Hospital Salvalus, em novembro do ano passado, para a realização de uma gastrostomia, procedimento que cria um acesso entre a parede abdominal e o estômago para permitir a administração de alimentos e medicamentos.
A criança tinha condições clínicas complexas, incluindo síndrome de Dandy-Walker, hidrocefalia e comunicação interventricular, uma cardiopatia congênita. Após o procedimento, foi encaminhada à UTI.
De acordo com o relato da família, durante a internação, a menina sofreu rompimento da sutura cirúrgica, uma parada cardiorrespiratória e edema pulmonar. Cerca de três meses depois de dar entrada no hospital, apresentou uma infecção bacteriana no cérebro. Segundo a mãe, o quadro comprometeu a eficácia do tratamento com antibióticos.
A família suspeita de que tenha ocorrido contaminação cruzada dentro do ambiente hospitalar. A hipótese ainda precisa ser apurada pelas autoridades.
A criança morreu em abril deste ano, aos um ano de idade, depois de aproximadamente seis meses internada. A certidão de óbito registra insuficiência respiratória aguda, ventriculite infecciosa, sepse de foco pulmonar, hidrocefalia e síndrome de Dandy-Walker.
Hospital se manifesta
Em nota, a rede Hapvida afirmou que “os pacientes mencionados apresentaram condições clínicas distintas e de elevada gravidade, tendo cada um deles recebido assistência contínua e multidisciplinar, com suporte de uma estrutura hospitalar de alta complexidade e atuação integrada de profissionais de diversas especialidades”.
A empresa também declarou que “as condutas terapêuticas foram individualizadas, considerando as necessidades de cada paciente e a evolução de seus quadros clínicos”.
A Polícia Civil investiga as circunstâncias das mortes para esclarecer os fatos e eventuais responsabilidades. As suspeitas relatadas pelas famílias ainda não comprovam, por si só, falhas no atendimento ou que as infecções tenham sido adquiridas no hospital.