23 de outubro de 2026
INVESTIGAÇÃO

'Menos três votos', teria dito PM em caso de camisetas do PT

Por Da Redação |
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Mãe de adolescente denuncia suposta imposição de camisetas do PT a três suspeitos durante abordagem policial em Piracicaba. O caso motivou pedido de investigação eleitoral.

A mãe de um adolescente de 17 anos que acusa policiais militares de obrigarem três suspeitos a vestir camisetas relacionadas à campanha do Partido dos Trabalhadores (PT), em Piracicaba, afirmou que um dos agentes riu dela e fez um comentário sobre o número de votos que o partido poderia perder. O caso ocorreu durante uma abordagem policial que terminou com a apreensão do adolescente e a prisão de dois homens, de 21 e 24 anos, por suspeita de tráfico de drogas.

Em depoimento sobre o episódio, Edna Souza Barbosa afirmou que o filho não usava a camiseta do PT antes da abordagem. Segundo ela, o adolescente vestia uma regata azul, e os três suspeitos apareceram posteriormente com roupas semelhantes às utilizadas por integrantes da campanha eleitoral.

Ao questionar um dos policiais sobre o motivo de os envolvidos estarem vestidos de maneira igual, a mulher afirma que recebeu uma resposta em tom de deboche.

“Meu filho não estava com a camiseta. Meu filho estava com a camiseta azul, regata. Estavam [suspeitos] os três com essa blusa [do PT]. Daí eu perguntei para o policial: ‘por que eles estão com a blusa tudo igual?’. O policial simplesmente olhou para a minha cara e começou a dar risada. Falou assim: ‘são menos três votos para domingo’”, relatou.

A mãe também negou que a família tenha ligação com a campanha política ou que possuísse camisetas do partido em casa. Ela afirmou que o filho não participava de atividades eleitorais e contestou a suspeita de tráfico atribuída a ele, dizendo que o adolescente seria usuário de drogas.

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RELATOS DE AGRESSÃO DURANTE A ABORDAGEM

Além da denúncia envolvendo as camisetas, Edna relatou supostas agressões durante a ação policial. Segundo a mulher, o filho teria sido retirado do imóvel de maneira violenta e derrubado pelos agentes. “Na hora que eles desceram, um policial desceu com meu filho, jogando meu filho para a escada abaixo”, afirmou.

Ela também disse que a filha, de 14 anos, tentou se aproximar para abraçar o irmão e pedir que ele não fosse levado. De acordo com o relato, um policial teria dado um soco no peito da adolescente e a empurrado para perto de um bueiro.

A mãe afirmou ainda que os policiais entraram na residência e que teria recebido orientações para não procurar as autoridades sobre o ocorrido. As declarações integram as denúncias apresentadas sobre a abordagem e dependem de apuração para que as circunstâncias sejam esclarecidas.

CAMISETAS SERIAM UNIFORMES DE CAMPANHA

Duas mulheres contratadas para trabalhar na campanha do PT e que moram na comunidade onde ocorreu a abordagem também afirmaram que os policiais teriam tomado os uniformes que elas utilizavam e vestido as camisetas nos suspeitos.

Segundo a deputada estadual Professora Bebel (PT), que denunciou o caso, as peças eram uniformes distribuídos exclusivamente às pessoas contratadas para atuar na campanha, servindo como identificação dos trabalhadores.

Bebel informou que apresentou uma representação à Corregedoria da Polícia Militar para que a conduta dos agentes seja investigada. O episódio também motivou um pedido do PT para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) encaminhe o caso ao Ministério Público Eleitoral (MPE), a fim de apurar possíveis irregularidades relacionadas ao contexto eleitoral.

A denúncia ganhou repercussão após imagens da chegada dos três detidos à delegacia serem gravadas e divulgadas nas redes sociais pelo senador eleito Guilherme Derrite (PP).

Em nota, Derrite afirmou que o objetivo da publicação foi chamar a atenção para o aliciamento de jovens pelo tráfico de drogas. Segundo sua assessoria, ele não fez referência às camisetas utilizadas pelos suspeitos. Sobre as acusações apresentadas posteriormente, a manifestação defendeu que os fatos sejam apurados pelos órgãos competentes.

DEFESA DE POLICIAL NEGA IRREGULARIDADES

A advogada Joice Vanessa dos Santos, integrante da defesa de um dos policiais militares envolvidos, contestou as acusações. Segundo ela, os relatos apresentados não retratam adequadamente o contexto da ocorrência nem a atuação dos agentes.

A defesa afirmou que é necessário esclarecer as circunstâncias da abordagem, os elementos que motivaram a intervenção policial e a sequência completa dos acontecimentos. Também declarou que os esclarecimentos e os elementos considerados pertinentes serão apresentados às autoridades responsáveis pela apuração.

Até as informações divulgadas sobre o caso, as versões apresentadas pelas testemunhas e pela defesa eram divergentes. A investigação deverá esclarecer, entre outros pontos, como as camisetas foram parar com os suspeitos e se houve irregularidade na conduta dos policiais.

SITUAÇÃO DOS TRÊS DETIDOS

Após a ocorrência, os três suspeitos foram apresentados à delegacia. Na quinta-feira (22), o adolescente de 17 anos foi encaminhado à Fundação Casa.

O jovem de 21 anos obteve liberdade provisória por decisão judicial, mediante o cumprimento de medidas cautelares. Entre as determinações estão o comparecimento bimestral em juízo para informar e justificar suas atividades, a proibição de frequentar bares, adegas e estabelecimentos semelhantes e a restrição de deixar a comarca por mais de oito dias sem autorização judicial.

Ele também deverá comparecer aos atos do inquérito e de eventual processo quando for intimado, além de manter atualizados seu endereço e telefone junto à Justiça.

Já o homem de 24 anos permaneceu preso após a decisão judicial.

DEFENSORIA ACOMPANHOU AUDIÊNCIAS

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo informou que participou das audiências de custódia dos dois adultos envolvidos no caso. Segundo o órgão, os relatos apresentados durante os procedimentos foram considerados pelo Poder Judiciário para análise e adoção das providências cabíveis.

Em manifestação, a instituição reafirmou o compromisso com a garantia dos direitos e esclareceu que suas manifestações sobre casos criminais são realizadas exclusivamente nos autos dos respectivos processos.

O episódio reúne denúncias de possível abuso durante uma abordagem policial e suspeitas de interferência de natureza político-eleitoral. A representação apresentada pelo PT solicita a apuração do caso pelo Ministério Público Eleitoral, enquanto as acusações contra os agentes também exigem esclarecimento pelas instâncias competentes.

As denúncias ainda precisam ser apuradas, e a existência de suspeitas não representa, por si só, a comprovação de irregularidades por parte dos policiais envolvidos.