20 de outubro de 2026
SAÚDE

Vacina contra HPV reduz lesões pré-cancerígenas em adolescentes

Por Da Redação |
| Tempo de leitura: 5 min
Agência Brasil
Estudo aponta queda de quase 78% nas consultas por lesões pré-cancerígenas do colo do útero entre adolescentes após a vacinação contra o HPV pelo SUS.

As consultas por lesões pré-cancerígenas de alto grau no colo do útero entre adolescentes de 15 a 19 anos caíram quase 78% após a implementação da vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) no Sistema Único de Saúde (SUS). Os dados são de uma pesquisa publicada na revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics e reforçam o impacto da imunização na prevenção de doenças que podem evoluir para câncer.

O estudo identificou uma redução expressiva nos atendimentos relacionados às chamadas neoplasias intraepiteliais cervicais de alto grau, alterações nas células do colo do útero que podem progredir para um tumor maligno quando não são identificadas e tratadas adequadamente.

O HPV é um vírus transmitido principalmente por contato sexual e representa o principal fator causador do câncer do colo do útero. A vacinação protege contra os tipos do vírus responsáveis pela maior parte dos casos da doença e, dessa forma, contribui para evitar o desenvolvimento de lesões pré-cancerígenas.

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Número de consultas caiu nos últimos anos

Os dados analisados mostram uma mudança significativa no número de atendimentos registrados no SUS. Em 2011, foram contabilizadas 474 primeiras consultas de adolescentes de 15 a 19 anos por lesões pré-cancerígenas do colo do útero. Em 2015, pouco depois do início da vacinação, o número chegou a 603.

Nos anos seguintes, porém, os registros apresentaram uma queda expressiva. Em 2019, foram contabilizadas 299 consultas, enquanto, em 2023, o total caiu para 136.

A redução também foi observada quando os pesquisadores consideraram o tamanho da população adolescente, utilizando a taxa de consultas a cada 100 mil pessoas. O indicador passou de 7,1 em 2015 para 1,8 em 2023, demonstrando que a diminuição não se explica apenas por possíveis mudanças no número de adolescentes no país.

Segundo os pesquisadores, a faixa etária de 15 a 19 anos foi a que apresentou as reduções mais expressivas, resultado que coincide com a população beneficiada pela vacinação contra o HPV oferecida pelo SUS.

Vacinação começou em 2014

A vacinação contra o HPV foi incorporada ao SUS em 2014, inicialmente para meninas. Em 2017, a estratégia foi ampliada para incluir também os meninos.

Atualmente, a vacinação de rotina é destinada a crianças e adolescentes de 9 a 14 anos. A imunização nessa fase busca proteger antes da possível exposição ao vírus, aumentando a eficácia da estratégia preventiva.

Além de reduzir o risco de câncer do colo do útero, a vacina ajuda a prevenir outros tumores associados ao HPV, como os que atingem o ânus, o pênis, a vagina e a região da orofaringe.

O vírus é bastante comum na população. Estima-se que cerca de 80% das pessoas sexualmente ativas tenham contato com o HPV em algum momento da vida. Entretanto, existem diferentes tipos do vírus, e apenas parte deles apresenta potencial para provocar câncer.

Estudo estima milhares de lesões evitadas

A pesquisa também calculou quantas primeiras consultas por lesões pré-cancerígenas poderiam ter ocorrido caso a vacinação não tivesse sido implementada.

Entre 2011 e 2019, foram registradas 2.620 primeiras consultas relacionadas a essas lesões entre adolescentes. Considerando a tendência observada antes da vacinação, os pesquisadores estimaram que o número poderia ter chegado a 7.688 atendimentos sem a oferta do imunizante pelo SUS.

A diferença representa aproximadamente 5 mil consultas potencialmente evitadas no período analisado.

Os dados utilizados foram obtidos do Sistema de Informações Ambulatoriais de Saúde. A análise considerou primeiras consultas registradas com códigos específicos de diagnóstico para lesões pré-cancerígenas, acompanhadas de pelo menos um procedimento relacionado.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores ligados à farmacêutica MSD e aponta uma associação entre a ampliação da vacinação e a redução dos atendimentos. Os resultados são considerados um indicador promissor do impacto precoce da imunização, embora os dados de consultas não representem, isoladamente, uma contagem direta de todos os casos da doença na população.

Aumento de consultas por outras infecções

Os pesquisadores também analisaram os registros de primeiras consultas relacionadas a outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) entre adolescentes de 15 a 19 anos.

Nesse grupo, o movimento foi diferente: a taxa de procura por atendimento passou de 1,7 em 2015 para 10,8 em 2023.

A comparação foi utilizada para avaliar se a queda nos atendimentos por lesões pré-cancerígenas poderia estar relacionada a mudanças gerais no comportamento sexual dos adolescentes ou na procura por serviços de saúde.

“Esse resultado reforça que a redução dos casos de lesões de alto grau entre as adolescentes provavelmente não é consequência de mudanças seculares na saúde sexual ou na utilização dos serviços de saúde”, avaliaram os pesquisadores.

Prevenção exige vacinação e exames

O câncer do colo do útero continua sendo um importante problema de saúde pública no Brasil. A doença está entre os tipos de câncer mais frequentes entre as mulheres e provoca milhares de mortes todos os anos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a eliminação desse câncer como problema de saúde pública é possível, desde que os países ampliem a cobertura vacinal, garantam o rastreamento adequado e ofereçam tratamento oportuno às pessoas diagnosticadas com lesões precursoras.

Além da vacinação, os exames preventivos são fundamentais para identificar alterações antes que evoluam para um câncer. O rastreamento deve seguir as recomendações de saúde para cada faixa etária, e os resultados alterados precisam de avaliação e acompanhamento profissional.

A vacinação, por sua vez, continua sendo a principal estratégia para prevenir a infecção pelos tipos de HPV contemplados pelo imunizante.

Ministério da Saúde mantém ações de resgate

Para ampliar a proteção, o Ministério da Saúde realiza ações de resgate destinadas a pessoas que não receberam a vacina na idade recomendada. A oferta também contempla determinados grupos com condições específicas, conforme os critérios definidos pelo programa nacional de imunização.

Entre os públicos que podem ter indicação de vacinação estão pessoas que já tiveram lesões pré-cancerígenas, vítimas de violência sexual e usuários de profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV, respeitando as faixas etárias e as recomendações vigentes para cada grupo.

Os pesquisadores destacam que a manutenção dos resultados depende da continuidade de altas coberturas vacinais e da busca por adolescentes e jovens que ainda não foram imunizados.

A combinação entre vacinação, rastreamento e tratamento adequado é considerada essencial para reduzir a ocorrência de lesões precursoras e, a longo prazo, diminuir os casos e as mortes provocados pelo câncer associado ao HPV.