A história de Alvinho, menino de 10 anos da Maré, mostra como identificar altas habilidades e quando a escola pode considerar a aceleração escolar.
Aos 7 anos, Álvaro de Melo, conhecido como Alvinho, já transformava ideias em projetos de programação. Durante um curso on-line da Universidade Harvard, ele desenvolveu uma animação inspirada em sua trajetória como morador do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. O trabalho mistura experiências pessoais, imaginação e um trecho interativo em formato de jogo. Nele, aparece também o Super Alvinho, personagem que o menino criou aos 5 anos para um livro escrito por ele.
Hoje, aos 10 anos, Alvinho já aprendeu inglês pela internet, desenvolveu outros projetos tecnológicos e foi identificado como uma criança com altas habilidades/superdotação (AH/SD). Em uma avaliação, alcançou 148 pontos de QI. A facilidade para aprender começou cedo: aos 4 anos, ele aprendeu a ler com a ajuda de um aplicativo. Depois, passou a se interessar por xadrez, robótica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e programação.
Segundo o menino, a percepção de que aprendia mais rapidamente do que os colegas surgiu ainda na infância. Sua trajetória levanta questões importantes para pais e educadores: como reconhecer uma criança com altas habilidades? É necessário fazer um teste de inteligência? E o que a escola pode oferecer quando o conteúdo da série já não representa um desafio para o estudante?
A discussão sobre o atendimento a crianças com altas habilidades ganhou um novo marco em junho, com a entrada em vigor da Lei federal 15.436/2026. A norma instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação e criou o Cadastro Nacional desse público.
Entre as medidas previstas estão o atendimento educacional especializado (AEE), o planejamento individualizado e alternativas para adequar o ensino às necessidades de cada aluno. As possibilidades incluem aprofundamento dos conteúdos, enriquecimento curricular e aceleração parcial ou integral dos estudos.
No Rio de Janeiro, o Projeto de Lei 2.799/2023, conhecido como Lei Alvinho, também está em discussão. A proposta, prevista para análise da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) na terça-feira (29), estabelece diretrizes para políticas públicas destinadas a estudantes com AH/SD da rede estadual. O texto prevê atendimento conforme as características e os interesses dos alunos, além de formação de professores.
Apesar das iniciativas, a identificação ainda alcança um número limitado de estudantes. De acordo com a Secretaria de Estado de Educação, 832 alunos estão identificados com altas habilidades ou superdotação na rede estadual fluminense. Na rede municipal do Rio, são 1.113 estudantes acompanhados pelo Instituto Helena Antipoff.
A Secretaria Municipal de Educação informa que professores das salas de recursos recebem capacitação e que 28 escolas-polo oferecem atividades de desenvolvimento no contraturno escolar.
Em âmbito nacional, o Censo Escolar de 2025 contabilizou 56.238 estudantes formalmente identificados com AH/SD. O total corresponde aos alunos registrados, mas não necessariamente representa todas as crianças com esse perfil no país.
Ter altas habilidades não significa apenas apresentar notas elevadas ou aprender o conteúdo escolar antes dos colegas. Segundo Bárbara Calmeto, neuropsicóloga e diretora do Autonomia Instituto, na Tijuca, não existe um padrão único de criança superdotada.
Algumas demonstram facilidade acima da média em matemática, enquanto outras se destacam pela linguagem, criatividade, música, artes ou capacidade de estabelecer relações entre diferentes assuntos. Também podem apresentar curiosidade intensa, memória desenvolvida, aprendizagem rápida e interesse profundo por determinados temas.
A observação deve considerar um conjunto de características ao longo do tempo. Um comportamento isolado não é suficiente para identificar altas habilidades, assim como boas notas não garantem que a criança tenha esse perfil.
Bárbara explica que a identificação exige observar formas de funcionamento e aprendizagem significativamente diferentes das esperadas para a faixa etária, sem estabelecer um modelo único de criança com altas habilidades.
O desempenho escolar também pode esconder potencialidades. Algumas crianças com altas habilidades apresentam resultados abaixo do esperado por falta de estímulo, desmotivação ou dificuldades específicas de aprendizagem. Outras podem ter necessidades diferentes que coexistem com suas habilidades elevadas.
Por isso, especialistas recomendam observar como a criança aprende, quais assuntos despertam seu interesse, como resolve problemas e de que maneira reage aos desafios. A avaliação deve considerar suas características individuais, sem transformar a identificação em uma cobrança por resultados constantes.
VEJA MAIS:
O acesso a livros, cursos, idiomas, museus, olimpíadas científicas e atividades de programação pode criar mais oportunidades para que determinadas habilidades sejam percebidas. Crianças que não dispõem desses recursos, por outro lado, podem ter menos chances de demonstrar aquilo que sabem fazer.
Para Bárbara, essa diferença está relacionada à desigualdade de oportunidades, e não à ausência de potencial entre crianças de comunidades periféricas.
A dificuldade de acesso à informação também motivou Priscila Melo, mãe de Alvinho, a criar o Grupo Mães-Especialistas Maré, no ano passado. Com encontros trimestrais, a iniciativa reúne famílias interessadas em compreender os sinais de altas habilidades, conhecer formas de identificação e encontrar maneiras de estimular o desenvolvimento dos filhos.
As reuniões já ocorreram na Navezinha Carioca Maré e na UFRJ. O próximo encontro está previsto para novembro, mas ainda não tem data nem local definidos.
A iniciativa surgiu após Priscila buscar informações para compreender as características do próprio filho. Atualmente, ela cursa mestrado em Tecnologia Social no Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (Nides), da UFRJ, onde pesquisa famílias de crianças com suspeita de altas habilidades em territórios periféricos.
A mãe conta que começou a procurar informações para entender o desenvolvimento de Alvinho e, durante a pesquisa, percebeu que outras famílias enfrentavam dúvidas semelhantes e tinham dificuldade para encontrar orientações sobre como proceder.
A relação de Priscila com a educação começou antes da identificação de Alvinho. Ela iniciou uma licenciatura em Ciências Biológicas, participou de projetos em escolas públicas e trabalhou com materiais pedagógicos personalizados e acessíveis, além de oficinas de desenho e pintura. Durante a pandemia, também desenvolveu projetos educativos com o filho.
A trajetória de Alvinho inclui desafios que vão além da educação. Ele e a mãe passaram por três abrigos, dois na Zona Norte do Rio — no Grajaú e na Ilha do Governador — e outro em Cabo Frio, onde o menino completou 10 anos, em abril.
Após uma reportagem do jornal O Globo e a mobilização de uma rede de solidariedade, os dois deixaram o abrigo. Atualmente, estão em Cabo Frio, com três meses de aluguel custeados por doações, enquanto Alvinho conclui o ano letivo na Legacy School, onde estuda com bolsa.
Depois desse período, Priscila pretende retornar ao Rio, preferencialmente à Zona Norte, e dar continuidade à pesquisa sobre altas habilidades em comunidades periféricas.
A avaliação da inteligência costuma gerar dúvidas entre as famílias. Para Cristina Delou, professora, psicóloga e pesquisadora da área de altas habilidades, que atende no Méier, os testes de QI são instrumentos que podem contribuir para a investigação, mas não devem ser tratados como uma definição absoluta da capacidade de uma criança.
Segundo ela, não existe um único resultado que sirva como referência universal para todos os testes. A interpretação depende do instrumento utilizado, de suas normas e da população para a qual foi validado. Por isso, resultados diferentes podem surgir conforme a avaliação realizada.
A pesquisadora ressalta que o QI estimado precisa ser interpretado de acordo com os critérios específicos de cada teste, sem a adoção de um número universal como único parâmetro para identificar a superdotação.
Cristina também chama a atenção para a necessidade de considerar a validade e a atualização dos instrumentos disponíveis. No ambiente escolar, a investigação pode começar pela observação dos professores, pela análise da produção do aluno e pelo estudo de sua trajetória de aprendizagem.
Um teste psicológico pode complementar esse processo, mas não é necessariamente o ponto de partida para que a escola identifique as necessidades educacionais do estudante.
Para famílias sem condições de pagar por uma avaliação particular, o acesso ao diagnóstico pode ser uma dificuldade adicional. Cristina afirma que não há no Sistema Único de Saúde (SUS) um serviço específico de avaliação voltado à identificação de altas habilidades ou superdotação. Como alternativa, ela cita unidades da Associação Pestalozzi que, segundo a pesquisadora, também atendem pessoas com AH/SD, inclusive aquelas com deficiências físicas ou sensoriais.
Reconhecer as altas habilidades é apenas uma etapa. Depois disso, a escola precisa avaliar o que o aluno já domina, quais são seus interesses e quais experiências podem ampliar sua aprendizagem.
Manter uma criança realizando repetidamente atividades que ela já compreende pode provocar desinteresse. Isso não significa, porém, que a solução seja aumentar a quantidade de exercícios.
Bárbara Calmeto destaca que o enriquecimento curricular depende da qualidade e da complexidade das experiências de aprendizagem, e não simplesmente do aumento do volume de tarefas.
Em vez de acrescentar mais contas de matemática, por exemplo, a escola pode propor uma investigação científica, um projeto de programação, uma pesquisa ou um problema que exija a criação de uma solução própria.
O planejamento deve considerar o conhecimento já adquirido, os próximos desafios possíveis e os interesses do estudante. Também precisa levar em conta suas necessidades emocionais e sociais.
Para a neuropsicóloga, o objetivo da identificação deve ser compreender quais recursos, estímulos e estratégias educacionais cada criança necessita, em vez de se concentrar apenas em medir sua inteligência.
A aceleração é uma das possibilidades para estudantes que já dominam conteúdos previstos para determinada etapa escolar. No entanto, a decisão precisa ser fundamentada em uma avaliação pedagógica, e não apenas em um resultado de teste de inteligência.
Cristina Delou explica que o principal critério é verificar se o aluno domina os conteúdos que seriam trabalhados na etapa seguinte e se existem condições para acompanhar o avanço.
A pesquisadora alerta que acelerar um estudante exclusivamente por causa de um resultado elevado de QI pode levar a uma decisão pedagógica inadequada, já que a capacidade de acompanhar conteúdos mais avançados precisa ser avaliada de maneira mais ampla.
O avanço não exige necessariamente que o estudante mude de série. Em alguns casos, ele pode permanecer na mesma turma e avançar em uma disciplina ou área específica, de acordo com seus conhecimentos e as possibilidades oferecidas pela instituição.
A pesquisadora destaca que a falta de formação docente e de estratégias para diferenciar o ensino pode dificultar o atendimento. Situações de bullying tratadas como brincadeira também prejudicam a convivência e o acolhimento de crianças que apresentam interesses ou comportamentos diferentes dos colegas.
Quando o ambiente escolar não oferece desafios compatíveis, o estudante pode sentir tédio e perder o interesse pelas atividades. Nesses casos, a família pode precisar avaliar, junto à escola, quais mudanças são possíveis e se a instituição consegue atender às necessidades da criança.
Iniciativas educacionais procuram ajudar escolas e famílias a organizar percursos de aprendizagem mais adequados a estudantes com altas habilidades. Uma delas é a Coleção Horizontes, desenvolvida pela educadora Bia Agra, moradora de Guadalupe, na Zona Norte do Rio.
O material reúne os conteúdos dos nove anos do ensino fundamental por temas, em vez de organizá-los exclusivamente por série. A proposta permite identificar o que o estudante já domina, compactar conteúdos repetidos e reservar espaço para aprofundamento e atividades mais complexas.
Os cadernos também registram o que foi aprendido, oferecendo informações que podem auxiliar o planejamento pedagógico. A ideia surgiu da experiência de Bia com os próprios filhos, que passaram a utilizar o material em sala de aula quando tinham dificuldade para manter a atenção em conteúdos que já conheciam.
Segundo a educadora, a coleção não pretende substituir a escola, mas oferecer uma ferramenta para ajudar a identificar quais conteúdos podem ser reduzidos, quais precisam ser aprofundados e como avançar para assuntos mais complexos.
Bia também organiza um grupo de famílias de crianças com altas habilidades no Rio. O espaço busca estimular a convivência entre estudantes com experiências semelhantes e diminuir a sensação de isolamento, além de oferecer apoio aos responsáveis.
Outra iniciativa é o Centro de Desenvolvimento de Alunos de Alta Performance (CDAAP), do Elite, em Madureira. O programa reúne estudantes de escolas públicas e privadas em monitorias, tutorias e planos de estudo direcionados a concursos civis e militares, além de oferecer atividades de apoio psicossocial.
O desenvolvimento avançado em uma área não significa que a criança tenha maturidade equivalente em todos os aspectos da vida. Estudantes com altas habilidades continuam precisando de apoio para lidar com frustrações, construir amizades, aceitar erros e desenvolver habilidades sociais.
Bárbara Calmeto ressalta que crianças superdotadas não dominam necessariamente todos os assuntos nem apresentam o mesmo nível de desenvolvimento em todas as áreas. Uma criança pode demonstrar conhecimentos muito acima do esperado em determinado campo e, ao mesmo tempo, precisar de ajuda para lidar com emoções, relacionamentos e situações comuns da infância.
Para a especialista, a história de Alvinho pode contribuir para ampliar o debate sobre o direito à identificação e ao desenvolvimento do potencial de crianças que nem sempre encontram estímulos adequados na escola.
Mais do que reconhecer uma criança com habilidades diferenciadas, o desafio é garantir que ela tenha acompanhamento e oportunidades para continuar aprendendo, independentemente de sua condição social ou do local onde vive.
A identificação, portanto, não deve ser encarada como um ponto final, mas como o início de um planejamento que considere as capacidades, os interesses e as necessidades de cada estudante.