Uma história que parecia saída de uma lenda urbana provocou medo entre famílias brasileiras no início dos anos 1990. Balas e chicletes vendidos nas proximidades de escolas foram encontrados com vestígios de cocaína, dando início a uma investigação que rapidamente ultrapassou as fronteiras do Rio de Janeiro e chegou a diferentes estados.
O episódio começou em setembro de 1991, quando Maria Alice Natividade Pereira, diretora adjunta do Colégio Coelho de Almeida, na Tijuca, procurou a polícia após alunos apresentarem mal-estar depois de consumir doces comprados de um vendedor ambulante na porta da escola.
Segundo o relato feito à época, uma estudante entregou à direção um pacote de balas que apresentava pequenos furos e sinais de alteração nas embalagens. A suspeita levou o caso à 19ª Delegacia de Polícia, na Tijuca.
A denúncia desencadeou uma operação policial. O ambulante não foi encontrado, mas algumas balas da marca Van Melle foram recolhidas e encaminhadas para análise pericial.
O resultado surpreendeu os investigadores. Os exames não encontraram substâncias como cianeto, arsênio ou estricnina, mas identificaram traços de cocaína em parte dos doces.
A notícia, publicada pelo jornal O GLOBO em 27 de setembro de 1991, rapidamente ganhou repercussão. Nos dias seguintes, surgiram relatos de apreensões e investigações em outras cidades.
São Paulo, Santos e Porto Alegre apareceram entre os locais relacionados às denúncias. Lotes de balas Van Melle também foram recolhidos em municípios como Juiz de Fora, Manaus e Salvador.
O volume das apreensões aumentou a preocupação das famílias. Escolas passaram a retirar produtos considerados suspeitos de suas cantinas, enquanto estabelecimentos comerciais eram orientados a entregar caixas de doces para perícia.
A repercussão também atingiu vendedores ambulantes. Baleiros que trabalhavam próximos às escolas passaram a enfrentar desconfiança de pais e estudantes, mesmo sem evidências de envolvimento com a adulteração.
O caso se transformou rapidamente em uma crise de grandes proporções, alimentada pela sucessão de notícias sobre novas apreensões.
A investigação no Rio trouxe uma descoberta que aumentou ainda mais o impacto da história.
Peritos do Instituto de Criminalística identificaram sinais de que a cocaína havia sido introduzida diretamente nas balas e chicletes. Pequenas perfurações, semelhantes às marcas deixadas por agulhas, foram observadas nos produtos analisados.
A quantidade encontrada, segundo os especialistas citados nas reportagens da época, não seria suficiente para representar risco fatal às crianças.
Mesmo assim, um médico ouvido pelo O GLOBO levantou uma hipótese mais grave: a possibilidade de que a adulteração tivesse como objetivo aproximar crianças do consumo de drogas e criar futuros consumidores.
A interpretação, porém, foi apresentada como uma avaliação médica sobre a possível finalidade da ação, e não como uma conclusão definitiva da investigação sobre a motivação dos responsáveis.
Um dos capítulos mais comentados ocorreu no dia seguinte à divulgação inicial do caso.
A polícia localizou o vendedor ambulante que havia comercializado doces para estudantes da escola da Tijuca. Ele tinha 63 anos, nove filhos e sete netos e afirmou que trabalhava havia duas décadas com a venda de balas.
À imprensa, o homem negou saber que os produtos estavam adulterados e afirmou que jamais imaginou que poderia ser acusado de envolvimento com tráfico de drogas.
Ele chegou a ser indiciado, mas foi liberado posteriormente. Segundo as informações divulgadas na época, o vendedor indicou aos policiais onde havia comprado os produtos que revendia.
A investigação, portanto, passou a tentar descobrir em que ponto da cadeia de distribuição os doces haviam sido modificados.
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Com relatos semelhantes surgindo em diferentes regiões, o caso deixou de ser tratado apenas como uma ocorrência local.
O então secretário de Justiça e Polícia Civil do Rio de Janeiro, Nilo Batista, procurou o diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, para solicitar a participação do governo federal na investigação.
Delegados de Santos e Juiz de Fora teriam comunicado às autoridades fluminenses a existência de apreensões semelhantes em suas cidades.
Tuma determinou a elaboração de um dossiê e acionou a Superintendência da Polícia Federal no Rio. A partir desse momento, o episódio passou a receber atenção nacional.
A preocupação aumentava conforme novos relatos eram divulgados. Famílias passaram a impedir que crianças comprassem doces de vendedores ambulantes, enquanto comerciantes e fabricantes enfrentavam os efeitos da desconfiança.
Em 7 de outubro de 1991, o Ministério da Saúde determinou preventivamente a interdição da Melbrás Indústria de Toffees e Caramelos, responsável pela fabricação das balas Van Melle.
A fábrica funcionava em Jundiaí, no interior de São Paulo, e empregava cerca de 350 trabalhadores. A suspensão da produção provocou preocupação entre os funcionários e reação dos representantes da empresa.
Os advogados da fabricante sustentavam que não havia indícios de que a adulteração tivesse ocorrido dentro da fábrica.
Ao mesmo tempo, o governo federal determinou a retirada das balas dos pontos de venda em todo o país. A empresa afirmava que a medida provocava prejuízos financeiros expressivos.
O episódio chegou a ameaçar a imagem da fabricante justamente em um momento em que consumidores passaram a associar a marca às notícias sobre cocaína.
A investigação sobre a origem da droga levou as autoridades a examinar a própria linha de produção.
No entanto, as análises realizadas não identificaram problemas na fabricação dos doces. Registros da época mostram que a Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária liberou posteriormente a produção e a comercialização das balas depois de resultados negativos em amostras recolhidas em diferentes pontos.
Em 23 de outubro, a produção foi liberada após inspeções na linha de fabricação. Dias depois, em 28 de outubro, a distribuição e comercialização também foram autorizadas após a análise de 200 amostras, nas quais não foi identificada adulteração.
A interdição durou 22 dias, segundo registros publicados na imprensa da época.
Com isso, ganhou força a hipótese de que a adulteração teria acontecido depois que os produtos deixavam a indústria, em algum ponto da cadeia de distribuição ou venda.
Uma das possibilidades investigadas foi a de sabotagem industrial contra a fabricante. A hipótese, entretanto, não foi comprovada.
Outra linha considerada pelas autoridades apontava para uma possível adulteração dos doces por criminosos antes que eles chegassem às crianças.
O que ficou registrado é que os produtos analisados na fábrica não apresentavam problemas na linha de produção, enquanto algumas unidades recolhidas fora dela tinham apresentado vestígios de cocaína.
O caso acabou entrando no imaginário popular brasileiro e, com o passar dos anos, ganhou características de lenda urbana. A história das “balas com cocaína” continuou sendo lembrada como um dos episódios mais assustadores associados à venda de doces perto de escolas.
Mais de três décadas depois, o episódio permanece cercado por perguntas sobre quem adulterou os produtos e qual teria sido a real motivação. A crise de 1991, no entanto, deixou uma consequência concreta: durante semanas, uma marca conhecida de balas foi retirada das prateleiras brasileiras enquanto autoridades tentavam descobrir como a droga havia chegado a alguns dos doces.