24 de setembro de 2026
PÂNICO NAS ESCOLAS

Balas com cocaína em escolas viraram pânico nacional; ENTENDA

Por Alyson Rodrigues |
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução / Redes Sociais
Uma história que parecia saída de uma lenda urbana provocou medo entre famílias brasileiras no início dos anos 1990.

Uma história que parecia saída de uma lenda urbana provocou medo entre famílias brasileiras no início dos anos 1990. Balas e chicletes vendidos nas proximidades de escolas foram encontrados com vestígios de cocaína, dando início a uma investigação que rapidamente ultrapassou as fronteiras do Rio de Janeiro e chegou a diferentes estados.

O episódio começou em setembro de 1991, quando Maria Alice Natividade Pereira, diretora adjunta do Colégio Coelho de Almeida, na Tijuca, procurou a polícia após alunos apresentarem mal-estar depois de consumir doces comprados de um vendedor ambulante na porta da escola.

Segundo o relato feito à época, uma estudante entregou à direção um pacote de balas que apresentava pequenos furos e sinais de alteração nas embalagens. A suspeita levou o caso à 19ª Delegacia de Polícia, na Tijuca.

A denúncia desencadeou uma operação policial. O ambulante não foi encontrado, mas algumas balas da marca Van Melle foram recolhidas e encaminhadas para análise pericial.

O resultado surpreendeu os investigadores. Os exames não encontraram substâncias como cianeto, arsênio ou estricnina, mas identificaram traços de cocaína em parte dos doces.

O caso deixa o Rio e vira crise nacional

A notícia, publicada pelo jornal O GLOBO em 27 de setembro de 1991, rapidamente ganhou repercussão. Nos dias seguintes, surgiram relatos de apreensões e investigações em outras cidades.

São Paulo, Santos e Porto Alegre apareceram entre os locais relacionados às denúncias. Lotes de balas Van Melle também foram recolhidos em municípios como Juiz de Fora, Manaus e Salvador.

O volume das apreensões aumentou a preocupação das famílias. Escolas passaram a retirar produtos considerados suspeitos de suas cantinas, enquanto estabelecimentos comerciais eram orientados a entregar caixas de doces para perícia.

A repercussão também atingiu vendedores ambulantes. Baleiros que trabalhavam próximos às escolas passaram a enfrentar desconfiança de pais e estudantes, mesmo sem evidências de envolvimento com a adulteração.

O caso se transformou rapidamente em uma crise de grandes proporções, alimentada pela sucessão de notícias sobre novas apreensões.

Cocaína teria sido colocada nas balas com seringas

A investigação no Rio trouxe uma descoberta que aumentou ainda mais o impacto da história.

Peritos do Instituto de Criminalística identificaram sinais de que a cocaína havia sido introduzida diretamente nas balas e chicletes. Pequenas perfurações, semelhantes às marcas deixadas por agulhas, foram observadas nos produtos analisados.

A quantidade encontrada, segundo os especialistas citados nas reportagens da época, não seria suficiente para representar risco fatal às crianças.

Mesmo assim, um médico ouvido pelo O GLOBO levantou uma hipótese mais grave: a possibilidade de que a adulteração tivesse como objetivo aproximar crianças do consumo de drogas e criar futuros consumidores.

A interpretação, porém, foi apresentada como uma avaliação médica sobre a possível finalidade da ação, e não como uma conclusão definitiva da investigação sobre a motivação dos responsáveis.

Ambulante foi localizado e negou envolvimento

Um dos capítulos mais comentados ocorreu no dia seguinte à divulgação inicial do caso.

A polícia localizou o vendedor ambulante que havia comercializado doces para estudantes da escola da Tijuca. Ele tinha 63 anos, nove filhos e sete netos e afirmou que trabalhava havia duas décadas com a venda de balas.

À imprensa, o homem negou saber que os produtos estavam adulterados e afirmou que jamais imaginou que poderia ser acusado de envolvimento com tráfico de drogas.

Ele chegou a ser indiciado, mas foi liberado posteriormente. Segundo as informações divulgadas na época, o vendedor indicou aos policiais onde havia comprado os produtos que revendia.

A investigação, portanto, passou a tentar descobrir em que ponto da cadeia de distribuição os doces haviam sido modificados.


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Polícia Federal entra na investigação

Com relatos semelhantes surgindo em diferentes regiões, o caso deixou de ser tratado apenas como uma ocorrência local.

O então secretário de Justiça e Polícia Civil do Rio de Janeiro, Nilo Batista, procurou o diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, para solicitar a participação do governo federal na investigação.

Delegados de Santos e Juiz de Fora teriam comunicado às autoridades fluminenses a existência de apreensões semelhantes em suas cidades.

Tuma determinou a elaboração de um dossiê e acionou a Superintendência da Polícia Federal no Rio. A partir desse momento, o episódio passou a receber atenção nacional.

A preocupação aumentava conforme novos relatos eram divulgados. Famílias passaram a impedir que crianças comprassem doces de vendedores ambulantes, enquanto comerciantes e fabricantes enfrentavam os efeitos da desconfiança.

Fábrica é interditada em meio ao pânico

Em 7 de outubro de 1991, o Ministério da Saúde determinou preventivamente a interdição da Melbrás Indústria de Toffees e Caramelos, responsável pela fabricação das balas Van Melle.

A fábrica funcionava em Jundiaí, no interior de São Paulo, e empregava cerca de 350 trabalhadores. A suspensão da produção provocou preocupação entre os funcionários e reação dos representantes da empresa.

Os advogados da fabricante sustentavam que não havia indícios de que a adulteração tivesse ocorrido dentro da fábrica.

Ao mesmo tempo, o governo federal determinou a retirada das balas dos pontos de venda em todo o país. A empresa afirmava que a medida provocava prejuízos financeiros expressivos.

O episódio chegou a ameaçar a imagem da fabricante justamente em um momento em que consumidores passaram a associar a marca às notícias sobre cocaína.

Análises não encontram contaminação na fábrica

A investigação sobre a origem da droga levou as autoridades a examinar a própria linha de produção.

No entanto, as análises realizadas não identificaram problemas na fabricação dos doces. Registros da época mostram que a Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária liberou posteriormente a produção e a comercialização das balas depois de resultados negativos em amostras recolhidas em diferentes pontos.

Em 23 de outubro, a produção foi liberada após inspeções na linha de fabricação. Dias depois, em 28 de outubro, a distribuição e comercialização também foram autorizadas após a análise de 200 amostras, nas quais não foi identificada adulteração.

A interdição durou 22 dias, segundo registros publicados na imprensa da época.

Com isso, ganhou força a hipótese de que a adulteração teria acontecido depois que os produtos deixavam a indústria, em algum ponto da cadeia de distribuição ou venda.

O mistério nunca teve uma resposta definitiva

Uma das possibilidades investigadas foi a de sabotagem industrial contra a fabricante. A hipótese, entretanto, não foi comprovada.

Outra linha considerada pelas autoridades apontava para uma possível adulteração dos doces por criminosos antes que eles chegassem às crianças.

O que ficou registrado é que os produtos analisados na fábrica não apresentavam problemas na linha de produção, enquanto algumas unidades recolhidas fora dela tinham apresentado vestígios de cocaína.

O caso acabou entrando no imaginário popular brasileiro e, com o passar dos anos, ganhou características de lenda urbana. A história das “balas com cocaína” continuou sendo lembrada como um dos episódios mais assustadores associados à venda de doces perto de escolas.

Mais de três décadas depois, o episódio permanece cercado por perguntas sobre quem adulterou os produtos e qual teria sido a real motivação. A crise de 1991, no entanto, deixou uma consequência concreta: durante semanas, uma marca conhecida de balas foi retirada das prateleiras brasileiras enquanto autoridades tentavam descobrir como a droga havia chegado a alguns dos doces.