A Lua pode se tornar um novo laboratório para uma das perguntas mais antigas da humanidade: estamos sozinhos no Universo? Um estudo liderado pelo cientista planetário Lewis Pinault, afiliado ao SETI Institute, propõe procurar no solo lunar partículas microscópicas que poderiam ter sido produzidas por antigas civilizações tecnológicas. A pesquisa não encontrou nenhum vestígio extraterrestre, mas apresenta um método considerado cientificamente testável para procurar esse tipo de evidência.
A ideia parte de uma característica peculiar do ambiente lunar. Sem atmosfera, água corrente ou atividade geológica semelhante à da Terra, a superfície da Lua consegue preservar materiais que chegam do espaço por períodos extremamente longos. Segundo os pesquisadores, partículas vindas de outras regiões da galáxia poderiam ter alcançado o Sistema Solar e ficado incorporadas ao regolito ao longo de bilhões de anos.
O estudo, disponibilizado como preprint em junho e atualmente submetido ao International Journal of Astrobiology, amplia o conceito de tecnossinal. Em vez de procurar somente transmissões de rádio, lasers ou outros sinais produzidos por uma civilização que ainda esteja ativa, os pesquisadores consideram a possibilidade de encontrar restos físicos de tecnologias muito antigas.
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Os modelos desenvolvidos pela equipe indicam que partículas resistentes, com dimensões na escala de micrômetros, poderiam sobreviver à viagem pelo espaço interestelar durante centenas de milhões de anos. Depois de chegar às proximidades do Sistema Solar, uma pequena parcela poderia atingir a região da Terra e da Lua em condições que permitissem sua preservação. O trabalho considera ainda fatores como transporte pelo meio interestelar, erosão das partículas e efeitos da radiação.
Para tentar encontrar esses materiais, os pesquisadores propõem combinar diferentes técnicas de análise. Microscopia e caracterização de materiais poderiam ajudar a identificar partículas com propriedades incomuns, enquanto sistemas de inteligência artificial seriam usados para auxiliar na triagem de imagens e na localização de possíveis candidatos. A proposta transforma o regolito lunar em uma espécie de amostra arqueológica em escala cósmica.
A estimativa apresentada no estudo é que a análise cuidadosa de aproximadamente 1 metro cúbico de regolito poderia começar a impor limites relevantes sobre a quantidade de material tecnológico artificial que antigas civilizações poderiam ter produzido e espalhado pelo espaço. Um resultado negativo também teria valor científico, já que ajudaria a restringir os cenários previstos pelos modelos.
A hipótese poderá ser testada com novas amostras lunares obtidas por missões futuras. Programas como o Artemis, dos Estados Unidos, e as missões Chang’e, da China, devem ampliar a quantidade e a qualidade do material lunar estudado pela comunidade científica. A pesquisa aponta que análises feitas diretamente na superfície da Lua também poderiam se tornar uma alternativa conforme a exploração lunar avance.
O interesse está justamente em procurar uma categoria de evidência que poderia sobreviver mesmo quando a civilização responsável por produzi-la já não existisse. Nesse cenário, a ausência de uma transmissão de rádio não significaria necessariamente ausência de tecnologia extraterrestre no passado. A busca proposta tenta, portanto, investigar a história tecnológica da galáxia a partir de partículas que eventualmente chegaram até a Lua.
Por enquanto, porém, a conclusão é bem mais modesta do que a ideia de encontrar alienígenas na Lua pode sugerir. O trabalho estabelece uma estratégia de investigação, e não uma descoberta. O próprio SETI Institute ressalta que nenhum tecnossinal extraterrestre foi identificado pela pesquisa; o próximo passo será transformar o modelo em uma busca experimental capaz de confirmar ou descartar a presença dessas partículas no regolito lunar.