11 de setembro de 2026
SAÚDE DA MULHER

Entre dores e diagnósticos tardios, endometriose é um desafio

Por Vitória Duarte | JP1 |
| Tempo de leitura: 4 min
Imagem gerada por IA
A endometriose pode causar dores intensas e levar anos até ser diagnosticada. Informação e acompanhamento adequado são importantes para melhorar a qualidade de vida das pacientes.

Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, a endometriose ainda representa um grande desafio para a medicina. A doença inflamatória crônica atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e pode comprometer a qualidade de vida, a fertilidade, o trabalho, os estudos e os relacionamentos.

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A condição ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio se desenvolve fora do útero, provocando inflamação, aderências e alterações na anatomia da região pélvica. Os sintomas podem variar de uma mulher para outra, o que também dificulta o reconhecimento da doença.

Entre os sinais mais comuns estão cólicas menstruais intensas e progressivas, dor pélvica persistente, inclusive fora do período menstrual, dor durante as relações sexuais, sintomas intestinais e urinários que pioram durante a menstruação e dificuldade para engravidar. Nos casos mais profundos, a doença pode atingir órgãos como intestino e bexiga.

Diagnóstico ainda demora

Um dos principais problemas relacionados à endometriose é o tempo entre o aparecimento dos primeiros sintomas e a confirmação do diagnóstico. Segundo o especialista Sérgio Podgaec, autor do artigo publicado pela Veja Saúde, muitas mulheres ainda passam anos convivendo com dores que são tratadas como algo normal.

O avanço dos exames de imagem, porém, mudou esse cenário. Atualmente, a ressonância magnética e o ultrassom transvaginal com preparo, quando realizados por profissionais capacitados, podem identificar a doença e ajudar no planejamento do tratamento, inclusive em casos que anteriormente poderiam exigir uma cirurgia apenas para confirmar o diagnóstico.

O problema é que esses recursos ainda não estão disponíveis de maneira uniforme em todas as regiões, o que mantém a diferença no acesso ao diagnóstico especializado.

Tratamento depende de cada paciente

Não existe uma única estratégia para todas as mulheres com endometriose. A escolha do tratamento deve considerar fatores como os sintomas, a extensão da doença, o desejo de engravidar e o impacto da condição na qualidade de vida.

O tratamento clínico e hormonal pode controlar os sintomas em muitos casos. Quando há indicação cirúrgica, a recomendação é que o procedimento seja minimamente invasivo e preserve, sempre que possível, as funções dos órgãos e a fertilidade.

Técnicas como a videolaparoscopia e a cirurgia robótica ampliaram as possibilidades de tratamento, especialmente em casos complexos. A preservação dos nervos pélvicos também contribuiu para melhorar resultados relacionados às funções urinária, intestinal e sexual.

No entanto, o especialista ressalta que nem sempre utilizar uma tecnologia mais avançada significa oferecer o melhor tratamento. Saber quando operar e quando acompanhar clinicamente também faz parte da decisão médica.

Cuidado vai além da cirurgia

Outro ponto destacado é a importância de uma abordagem multidisciplinar. A endometriose pode provocar consequências que vão além da região afetada pela doença e da dor física.

Por isso, o acompanhamento pode envolver ginecologista, fisioterapeuta pélvico, nutricionista e profissionais especializados no manejo da dor e na saúde mental.

A dor crônica pode afetar o estado emocional e interferir diretamente na vida profissional, acadêmica, social e afetiva. Dessa forma, tratar somente a lesão ou o sintoma físico pode não ser suficiente para recuperar a qualidade de vida da paciente.

Tecnologia pode ajudar no futuro

O futuro do tratamento da endometriose também passa pela tecnologia. Entre as possibilidades estudadas estão novos métodos de diagnóstico, biomarcadores capazes de ajudar na identificação da doença e tratamentos cada vez mais individualizados.

A inteligência artificial também começa a ser discutida na área, com potencial para auxiliar desde o diagnóstico até a definição de condutas e o acompanhamento após procedimentos. O objetivo, porém, não é substituir o médico, mas ampliar sua capacidade de avaliação.

Para o especialista, outro ponto fundamental é investir na formação de profissionais capazes de identificar a doença, principalmente em suas formas mais sutis. Mesmo os exames mais modernos dependem de profissionais preparados para interpretar corretamente os resultados.

Dor não deve ser considerada normal

Embora a medicina tenha avançado, o diagnóstico precoce ainda depende de uma mudança na forma como a dor feminina é encarada.

Cólicas intensas, progressivas ou incapacitantes não devem ser simplesmente naturalizadas. A investigação médica é importante para identificar possíveis causas e iniciar o tratamento adequado.

O desafio, agora, é fazer com que o conhecimento e as tecnologias já disponíveis cheguem a um número maior de mulheres. O objetivo é reduzir o tempo até o diagnóstico e garantir tratamento adequado, preservando a saúde e a qualidade de vida das pacientes.