Um vídeo produzido com inteligência artificial está sendo usado em uma campanha falsa para convencer fiéis a fazer doações via Pix. A história apresenta um suposto padre chamado Mateus, que teria perdido as duas pernas e precisaria de próteses com urgência.
A fraude foi identificada em Valinhos (SP) depois que um abrigo para idosos desconfiou do conteúdo publicado nas redes sociais. A gravação utiliza personagens e uma narrativa desenvolvidos para provocar comoção e estimular transferências financeiras.
A campanha ganhou milhares de visualizações e mais de mil compartilhamentos. Enquanto alguns usuários ofereceram ajuda financeira ou orações, outros passaram a questionar a autenticidade da história.
A publicação apresenta o chamado “padre Mateus”, descrito como um sacerdote de 38 anos que teria amputado as pernas e precisaria conseguir próteses dentro de um prazo de quatro meses.
A história ainda inclui outros personagens, como uma mulher chamada Lourdes, de 72 anos, e um suposto coroinha identificado como Enzo, de 14 anos. Os personagens aparecem como parte da rotina do falso sacerdote.
A narrativa também utiliza um argumento de urgência. Segundo o vídeo, seria necessário conseguir rapidamente o dinheiro para evitar que a musculatura das pernas do personagem sofresse consequências permanentes.
O conteúdo foi divulgado por uma página chamada “Caminhada Curta”, criada em agosto de 2026.
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O jornalista e teólogo Felipe Zangari percebeu que havia algo estranho no material e analisou a gravação.
Entre os indícios encontrados estava a falta de naturalidade na movimentação da boca do personagem durante a fala. A suspeita levou à realização de um teste com o Pix disponibilizado na campanha, permitindo identificar informações relacionadas ao destino das doações.
O caso chama atenção para uma dificuldade crescente: vídeos produzidos por inteligência artificial estão ficando cada vez mais convincentes, tornando mais difícil para o público distinguir conteúdos reais de materiais fabricados.
A campanha direciona os interessados para um site denominado “Ande com Padre Mateus”. Os registros analisados na apuração apontam que os pagamentos via Pix não seriam destinados a uma paróquia ou instituição religiosa.
O beneficiário identificado nas transações é uma empresa chamada Gestão Solidar Digital LTDA, com registro em Florianópolis.
Também foram encontradas associações com outras empresas e dados cadastrais que levantaram dúvidas durante a investigação.
A empresa responsável pela intermediação dos pagamentos seria a fintech Cartwave. Telefones relacionados às empresas citadas não foram atendidos durante as tentativas de contato, e pedidos de esclarecimento enviados por email não haviam sido respondidos até a publicação da reportagem.
Para o advogado Rafael Maciel, especialista em inteligência artificial, deixar a responsabilidade exclusivamente nas mãos do público para identificar conteúdos falsos pode ser insuficiente.
Segundo ele, até mesmo pessoas acostumadas a analisar materiais produzidos artificialmente podem ter dificuldades para reconhecer uma falsificação bem elaborada.
Por isso, uma das principais recomendações é não realizar doações imediatamente após assistir a vídeos emocionais nas redes sociais.
No caso de campanhas atribuídas a padres, paróquias ou instituições religiosas, a orientação é confirmar diretamente com a diocese ou arquidiocese se a arrecadação realmente existe.
O advogado criminalista André Fini Terçarolli explica que a utilização de inteligência artificial para enganar vítimas pode se enquadrar como fraude eletrônica, uma modalidade mais grave de estelionato.
A pena prevista para esse tipo de crime pode chegar a oito anos de prisão, além de multa, conforme as circunstâncias do caso.
O especialista também chama atenção para a utilização indevida de dados de terceiros. Uma pessoa cujo nome ou CPF aparece associado a uma conta usada para receber valores não necessariamente participa conscientemente do esquema.
Nesse tipo de situação, é importante registrar boletim de ocorrência, contestar movimentações suspeitas e buscar os canais oficiais das instituições financeiras.
Quem realizou uma transferência para uma campanha suspeita deve procurar imediatamente o banco e solicitar a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED), utilizado em casos de fraude envolvendo Pix.
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O MED, porém, não garante que o dinheiro será recuperado, especialmente se os valores já tiverem sido retirados ou transferidos da conta utilizada pelos golpistas.
O caso reforça a necessidade de verificar campanhas de arrecadação diretamente com a instituição ou pessoa supostamente beneficiada antes de fazer qualquer pagamento.