19 de junho de 2026
TEMPERATURAS

Chances de novo El Niño superam 90% para os próximos meses

Por Ariadne Scarabello Mariano |
| Tempo de leitura: 7 min
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O fenômeno faz parte do ciclo conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS), responsável por influenciar padrões climáticos em diversas partes do planeta.

A possibilidade de formação de um novo episódio do El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027 ultrapassa 90%, segundo projeções da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), uma das principais referências mundiais em monitoramento climático.

Apesar da alta probabilidade de ocorrência do fenômeno, especialistas alertam que ainda é cedo para determinar sua intensidade e os impactos que poderá causar no Brasil.

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NOAA aponta alta probabilidade de formação do El Niño

De acordo com os modelos climáticos mais recentes, a chance de desenvolvimento do El Niño é de cerca de 60% no trimestre entre maio, junho e julho. A partir da primavera, em setembro, a probabilidade supera 90%, tornando praticamente certa a atuação do fenômeno na segunda metade do ano.

Nos últimos meses, diferentes publicações têm apontado a possibilidade de um El Niño forte ou até muito forte. No entanto, meteorologistas destacam que previsões de intensidade feitas com tanta antecedência ainda carregam elevado grau de incerteza.

O que é o fenômeno El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, especialmente na região centro-leste do oceano.

Ele faz parte do ciclo conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS), responsável por influenciar padrões climáticos em diversas partes do planeta.

O fenômeno oposto é a La Niña, marcada pelo resfriamento das águas do Pacífico tropical. Ambos afetam o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões da América do Sul.

Intensidade ainda não pode ser prevista com precisão

Embora os modelos climáticos atuais consigam indicar a formação do fenômeno com vários meses de antecedência, a definição da intensidade ainda é considerada incerta.

Segundo estimativas atuais, existe cerca de 25% de probabilidade de ocorrência de um El Niño forte e outros 25% de chance de um evento muito forte, cenário em que a temperatura das águas do Pacífico Central supera em mais de 2°C a média histórica.

Especialistas ressaltam que previsões mais confiáveis sobre os impactos do fenômeno costumam ser feitas com antecedência de um a três meses.

El Niño pode aumentar risco de eventos extremos

O El Niño não provoca desastres climáticos diretamente, mas altera padrões atmosféricos que podem aumentar ou reduzir a ocorrência de eventos extremos, como secas, ondas de calor, tempestades e chuvas intensas.

Essas mudanças permitem que órgãos meteorológicos e autoridades adotem medidas preventivas para minimizar impactos em setores como agricultura, abastecimento de água, energia e defesa civil.

Meteorologista comenta cenário para 2026

A equipe de reportagem do Jornal de Piracicaba conversou com o meteorologista Bruno Brainy, do Centro de Estudos e Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Unicamp (Cepagri/Unicamp), para analisar as projeções e possíveis reflexos do fenômeno nos próximos meses.

Qual a diferença do El Niño e Super El Niño?

"O El Niño é uma variabilidade climática que altera temporariamente as condições climáticas ao longo de alguns meses em várias partes do planeta. Dependendo da forma como esse fenômeno se apresenta, existem forma de classificar sua intensidade, quanto mais quente acima do limiar mínimo de 0,5º de anomalia do desvio padrão, mais intenso é esse fenômeno. O Super El Niño não é uma classificação, mas sim uma forma popular de se falar para expressar um acontecimento extremo. Quanto sua classificação técnica, o fenômeno se classifica em fraco, forte, moderado e muito forte. Dessa forma, o Super El Niño se caracterizaria como “muito forte”. E quando se comparado a outros períodos, é um ponto de destaque.”

Quais das condições tem atingido o Brasil?

“No Brasil o El Niño afeta principalmente a região Sul do país, com chuvas acima da média, tipicamente. As porções de partes do Norte e Nordeste, próximas a faixa equatorial, são afetadas com estiagem e seca. No Sudeste e Centro-Oeste e algumas partes do Nordeste são afetadas com temperaturas mais elevadas, acima da média. Isso estamos falando do longo prazo. Essas são condições típicas de como o Brasil é impactado. Atualmente, mesmo que os órgãos já tenham o detectado, leva-se um tempo para que as mudanças dos oceanos cheguem de forma sistemática até a atmosfera. Essas são condições típicas de como o Brasil tem sido impactado e esses fenômenos já são esperados. Se espera que tenham chuvas mais intensas no Sul e secas na parte Norte do país, e calor no restante, ao longo do 2º semestre de 2026.”

Na região Sudeste como tem sido o impacto? E para cidade de Piracicaba, o que podemos esperar?

“No Sudeste as condições são as questões das temperaturas mais altas. Menos recorrência de tempo frio e uma maior recorrência de eventos quentes. Dias consecutivos com temperaturas elevadas e muitas vezes essas temperaturas acima da média se manifestam como onda de calor.”

Como as mudanças climáticas atuais tem impactado a vida cotidiana? E quais setores tem sido impactados?

“O fenômeno afeta a questão de temperatura e impacta diversos setores. A saúde, o bem estar e o conforto humano. Os setores da agricultura e da energia elétrica, principalmente na gestão de gerenciamento de recursos hídricos, porque os cultivos agrícolas são dependentes da temperatura, e a depender das suas fases, por exemplo, de floração ou germinação, temperaturas mais elevadas podem impactar ou até abortar alguns desses processos causando prejuízos e também quando se tem temperaturas mais elevadas a evacotranspiração, que é a perda de umidade do solo e das plantas, acontece de forma mais intensa e tomam proporções maiores. Quando se pensa em energia elétrica, mesmo que não se entre na questão de geração de energia, o consumo da mesma é elevado, pois temos períodos e dias muito quentes, tendenciona a ter um gasto maior por parte da população, principalmente com ar condicionado, o que gera uma demanda maior, tornando necessária uma programação desse consumo, do abastecimento por parte da companhia de energia elétrica, com estimativas adequadas, o quanto será possível produzir de energia em larga escada em todo Brasil para atender essas demandas da população.”

No caso das doenças, existem muitas que são agravadas e podem surgir por conta do calor. Existe a questão de ocorrer partos prematuros, exigindo maior cuidado médico e alto grau de risco, demandando mais leitos em hospitais para atender essas crianças que nascem prematuramente. O especialista salienta que como todos estão inseridos na atmosfera, tudo e todos acabam sendo impactados em maior ou menor grau. “A economia também sofre impactos devido a produção que fica mais escassa, transformando a configuração de oferta e demanda, impactando no preço que pagamos dos produtos, racionamento de energia termoelétrica devido ao aumento do consumo e baixa oferta disponível, encarecendo seu preço final.”

O nevoeiro que tem atingido as manhãs deixando elas geladas, tardes quentes e noites frias, tem haver com o fenômeno? 

Não existe relação do nevoeiro observado com o fenômeno El Niño ou Super El Niño e não se pode atribuir as condições atualmente observadas na cidade e na nossa região a ele. Ele foi detectado, pois o oceano já atingiu uma certa temperatura que pode estar associada ao fenômeno, mas é preciso que essas condições persistam por um tempo para que a atmosfera sofra essas alterações.

Quais as previsões para os próximos 6 meses de 2026? 

“Quanto mais longo se faz uma previsão, menos detalhes se tem e a aplicabilidade fica restrita. As previsões do tempo são mais instantâneas, de 3 a 5 e alguma tendência que vai de 7 até 10 dias, mencionado eventos como chuva, nebulosidade, temperatura, mudança brusca no tempo. Temos uma previsão sub-sazonal feita em escala sazonal para 4 até 6 semanas, feita em termos gerais para cada semana. Para os próximos meses o que podemos considerar: até a entrada da primavera chuvas acima da média. Por ser uma época mais seca do ano, chuvas acima da média não significa volumes muito elevados, mas sim em uma regularidade de chuvas, podendo ter alguns eventos de chuvas mais expressivas."

"Nessa época do ano, os próximos meses, a média de chuva fica em torno de 40mm junho e julho, agosto em torno de 30mm, e para setembro a volta das chuvas com mais volume na casa dos 60 a 70mm e um pouco acima. E com relação as temperaturas a expectativa é que elas fiquem um pouco acima da média, especialmente quando se vai adentrando o final do inverno começo da primavera. Já é um período que se costuma ter um pico de calor, mas a expectativa é que as temperaturas fiquem um pouco acima. Para esses meses que vamos adentrar o inverno, as temperaturas serão um pouco mais amenas e haverá menor recorrência de eventos de frio mais intenso, ou que se ocorrer com maior intensidade, será de curta duração. Pensando agora na primavera e verão, essas estações sofrem alterações com o desenvolvimento do El Niño, quando se tem chances de ondas de calor, de dias muito quentes, e períodos prolongados de dias quentes."