Um estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena-USP) acendeu um alerta ambiental ao identificar a presença de 12 tipos de antibióticos em níveis elevados nas águas do Rio Piracicaba. A pesquisa também aponta uma alternativa natural promissora: o uso de uma planta aquática capaz de reduzir parte desses contaminantes e minimizar impactos à fauna aquática.
Entre as substâncias encontradas, o cloranfenicol chama atenção por seu alto potencial tóxico. Proibido na produção animal no Brasil, o antibiótico foi detectado na água e também em peixes, indicando risco indireto à saúde humana.
Segundo os pesquisadores, a exposição contínua a esses compostos pode causar danos ao DNA dos peixes e favorecer o surgimento de superbactérias — microrganismos resistentes a medicamentos, o que representa uma ameaça crescente à saúde pública.
Apesar do cenário preocupante, o estudo revelou que a presença da planta Salvinia auriculata pode reduzir significativamente os danos causados pelos antibióticos. Mesmo sendo considerada invasora em alguns ambientes, ela demonstrou capacidade de absorver substâncias nocivas da água.
Em testes laboratoriais, a planta conseguiu remover mais de 95% da enrofloxacina em poucos dias. Já no caso do cloranfenicol, a eficiência foi menor, variando entre 30% e 45%, indicando maior persistência dessa substância no ambiente.
Para entender o comportamento dos antibióticos no ecossistema, os cientistas utilizaram moléculas radiomarcadas com carbono-14. A técnica permitiu rastrear com precisão o destino dos compostos, identificando se eram absorvidos pelos peixes ou pelas plantas.
Com isso, foi possível observar que a maior concentração dos antibióticos se acumula nas raízes da planta, principal responsável pelo processo de “filtragem” natural da água.
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As análises foram realizadas na região da barragem de Santa Maria da Serra, onde há influência de esgoto urbano, atividades agrícolas, criação de animais e aquicultura.
Durante o período de estiagem, a concentração dos antibióticos foi maior devido à redução do volume de água, enquanto na época de chuvas os níveis ficaram mais diluídos.
Os testes com lambaris mostraram que o cloranfenicol apresenta alta capacidade de bioacumulação, permanecendo por mais de 90 dias nos tecidos dos peixes. Esse fator aumenta o risco de contaminação ao longo da cadeia alimentar.
Já a enrofloxacina apresentou eliminação mais rápida, com menor acúmulo no organismo. Ainda assim, os pesquisadores alertam que a presença contínua dessas substâncias pode comprometer o equilíbrio ambiental.
Embora a utilização de plantas aquáticas represente uma alternativa de baixo custo para tratamento da água, os cientistas destacam que a técnica exige manejo adequado. Caso a vegetação contaminada não seja retirada, pode haver reintrodução dos poluentes no ambiente.
Além disso, o crescimento descontrolado da espécie pode afetar o ecossistema ao bloquear a entrada de luz na água.
Os pesquisadores consideram os resultados promissores para o desenvolvimento de soluções sustentáveis no tratamento de água, especialmente em locais onde tecnologias avançadas não são viáveis.
A expectativa é que novas pesquisas ampliem o uso de métodos naturais para reduzir a poluição e proteger tanto o meio ambiente quanto a saúde da população.