15 de março de 2026
DÍVIDA BILIONÁRIA

Justiça aceita recuperação extrajudicial da Raízen

Por Da Redação |
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
A decisão ocorre em meio a um cenário de deterioração financeira enfrentado pela empresa.

A Justiça aceitou o pedido de recuperação extrajudicial apresentado pela Raízen, uma das maiores companhias do setor de energia e biocombustíveis do país.

A decisão ocorre em meio a um cenário de deterioração financeira enfrentado pela empresa, marcado por aumento expressivo do endividamento, perdas bilionárias e revisão negativa da avaliação de crédito por agências internacionais.

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Nos últimos três trimestres, a companhia acumulou prejuízo de R$ 19,8 bilhões. O resultado negativo veio acompanhado de queda relevante na receita líquida, que recuou de R$ 197,5 bilhões para R$ 174,5 bilhões no período.

Empresa aponta juros altos e cenário externo

Na petição apresentada à Justiça, a empresa afirma que o atual quadro financeiro está ligado a uma combinação de fatores macroeconômicos. Entre eles, a escalada das taxas de juros no Brasil e no exterior, além da deterioração do ambiente econômico em países onde a companhia atua, com destaque para a Argentina.

Segundo a companhia, o plano de crescimento foi estruturado em um momento econômico mais favorável, o que possibilitou investimentos robustos em novos projetos de energia renovável. Com a mudança nas condições macroeconômicas, porém, o custo do capital aumentou e o fluxo de caixa passou a sofrer maior pressão.

O documento também menciona o avanço da taxa básica de juros no Brasil, a Selic, como um dos fatores que elevaram o peso do endividamento e reduziram a capacidade de financiamento das operações.

Investimentos bilionários pressionaram o caixa

Nos últimos anos, a empresa direcionou recursos significativos para a expansão no segmento de energia limpa. Somente em projetos ligados ao etanol de segunda geração, o grupo investiu mais de R$ 11 bilhões em novas unidades industriais voltadas à produção de biocombustíveis avançados.

Paralelamente, a controladora da empresa, a Cosan, também ampliou seu nível de endividamento após adquirir participação relevante na mineradora Vale. A operação custou aproximadamente R$ 20 bilhões e garantiu cerca de 6,5% das ações da companhia.

Esse movimento reduziu a margem financeira da holding para apoiar eventuais dificuldades enfrentadas pela subsidiária.

Dívida cresce e pressiona balanço

O nível de endividamento da Raízen também apresentou forte avanço. No último balanço divulgado, a dívida líquida alcançou R$ 55,3 bilhões, valor 43,5% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior, quando somava R$ 38,6 bilhões.

Em termos operacionais, a relação entre dívida líquida e Ebitda — indicador que mede o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização — chegou a 5,3 vezes. Esse patamar é considerado elevado para empresas do setor e indica pressão sobre a capacidade de geração de caixa.

Agências retiram grau de investimento

A deterioração financeira também levou a revisões negativas nas avaliações de risco da companhia. As principais agências internacionais de classificação de crédito — Fitch, S&P Global e Moody's Global — rebaixaram a nota da empresa, retirando o chamado grau de investimento.

Entre os fatores citados pelas instituições estão a frustração em relação ao esperado reforço de capital por parte dos acionistas, além de um ambiente menos favorável para os mercados de açúcar e etanol.

Outro ponto destacado foi a pressão sobre a liquidez da empresa, causada por consumo recorrente de caixa e por compromissos relevantes de amortização de dívidas no curto prazo.

Negociação entre acionistas não avançou

Durante as discussões para reforçar o capital da companhia, a multinacional Shell, sócia da Raízen, chegou a manifestar disposição para realizar um aporte de R$ 3,5 bilhões na joint venture.

No entanto, a empresa condicionou o investimento a uma participação equivalente da outra acionista, a Cosan. A companhia brasileira não conseguiu acompanhar o valor proposto, o que impediu a concretização do acordo de capitalização.

Crise começou a se intensificar em 2024

Os primeiros sinais mais claros da crise surgiram em 2024, período em que o então presidente da empresa deixou o cargo. Na mesma época, a companhia iniciou negociações para venda de alguns ativos considerados não estratégicos.

Entre eles estavam unidades ligadas à produção de açúcar e etanol, além de operações no segmento de geração de energia distribuída. A estratégia buscava reforçar o caixa e reduzir o peso da dívida.

Expansão global exigiu grandes investimentos

Ao longo dos últimos anos, a Raízen buscou consolidar sua posição como um dos principais produtores globais de combustíveis renováveis. Para isso, realizou aquisições estratégicas e ampliou sua presença no mercado internacional.

O plano envolveu investimentos expressivos em infraestrutura, tecnologia e novas plantas industriais. Embora esses projetos tenham ampliado a capacidade produtiva da empresa, também elevaram significativamente o nível de alavancagem financeira.

Com a recuperação extrajudicial agora aceita pela Justiça, a expectativa é que a companhia consiga reorganizar sua estrutura de dívidas e preservar a continuidade das operações enquanto negocia com credores e investidores.