“Mineira, seus cabelo é da hora / Seu corpão violão / Meu docinho de coco / Tá me deixando louco”. É praticamente impossível ler esses versos sem cantarolar o ritmo irreverente de Mamonas Assassinas. Em poucos meses, o quinteto de Guarulhos transformou o humor escrachado em fenômeno nacional e marcou definitivamente a história da música brasileira.
Formada por Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Sérgio Reoli e Júlio Rasec, a banda misturava pop rock com sertanejo, forró, vira português, pagode romântico e heavy metal, sempre com letras satíricas e performances cheias de energia. O único álbum do grupo, lançado em 23 de junho de 1995, vendeu milhões de cópias e quebrou recordes históricos. Em dezembro daquele ano, já havia ultrapassado a marca de 2 milhões de discos vendidos.
Durante o segundo semestre de 1995 e o início de 1996, os Mamonas dominaram rádios e programas de televisão. Em uma época em que a TV aberta era o principal meio de entretenimento, atrações como o Domingão do Faustão e o Domingo Legal disputavam a presença da banda, sinônimo de liderança na audiência.
Piracicaba no roteiro final
No dia 1º de março de 1996, uma sexta-feira, o grupo se apresentou na Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS). Na sequência, seguiu para Piracicaba, onde realizou, à noite, o penúltimo show da carreira, no Estádio Municipal Barão de Serra Negra. A apresentação integrou a turnê que antecederia uma pausa para descanso e, depois, a viagem para Portugal, onde começaria a fase internacional da banda.
Após pernoitarem na cidade, os integrantes embarcaram na manhã seguinte rumo a Guarulhos. À noite, depois de um show em Brasília, partiram às 21h58 no Learjet 25D, prefixo PT-LSD. Às 23h16 do dia 2 de março de 1996, a aeronave se chocou contra a Serra da Cantareira, causando a morte dos nove ocupantes.
O Brasil parou. A comoção foi nacional.
Documentos que revivem a história
Três décadas depois, documentos arquivados na Câmara Municipal de Piracicaba trazem à tona bastidores burocráticos do show realizado na cidade. O Processo nº 0524/1996 reúne requerimentos, ofícios e cópias de contratos relacionados à utilização do estádio municipal para o evento.
Entre os papéis, está o Decreto Municipal nº 7.208, publicado em 1º de março de 1996, que autorizava a cessão do espaço à promotora Alolocos Eventos e Promoções. O documento fixava os valores dos ingressos: R$ 7 na compra antecipada e R$ 10 no dia do show — cifras que hoje soam quase simbólicas.
Também consta no processo a informação de que 6% da renda, a partir de 15 mil ingressos vendidos, seria destinada à A.D. Unimep, além da doação de 2 mil ingressos a clubins e centros comunitários da cidade. Recibos assinados por representantes de bairros e entidades comprovam a distribuição.
Outro documento que chama atenção é o contrato firmado entre a promotora e os empresários musicais Samy Elia e Rick Bonadio. O valor da apresentação foi fixado em R$ 60 mil, além de custos de transporte e abertura do show pela banda Baba Cósmica. Cláusulas simples detalhavam as exigências do camarim: ventilador, refrigerantes, frutas da época, 30 toalhas e segurança no palco pedidos modestos para uma banda que vivia o auge do sucesso.
O eco que permanece
Reler esses documentos hoje é revisitar um capítulo que mistura euforia e melancolia. O show em Piracicaba foi apenas mais um na agenda intensa daqueles jovens músicos — mas se tornou histórico por ter sido o penúltimo.
Entre junho de 1995 e março de 1996, pouco mais de oito meses bastaram para eternizar os Mamonas Assassinas. O trágico acidente interrompeu uma trajetória meteórica, mas não apagou o legado.
As músicas continuam presentes em festas, churrascos e playlists. Gerações que viveram