Há uma ideia perturbadora em “Preferência do Sistema”, a HQ do francês Ugo Bienvenu: talvez o futuro não tenha espaço suficiente para se lembrar de tudo. A história se passa em 2120, quando a humanidade produziu, registrou, filmou, fotografou e armazenou tanto que a memória se transformou em um recurso escasso. Não cabe tudo. E, quando não cabe tudo, alguém precisa decidir o que fica.
É aí que a ficção começa a se aproximar perigosamente da realidade. No universo criado por Bienvenu, os chamados “profetas” são responsáveis por decidir o que deve ser preservado e o que pode desaparecer. Filmes, livros, obras de arte e registros da humanidade passam por uma espécie de seleção. Yves, um arquivista, tenta salvar aquilo que considera importante e se recusa a aceitar que obras fundamentais possam simplesmente deixar de existir porque algum sistema concluiu que há coisas mais urgentes ocupando espaço.
A primeira reação é imaginar uma polícia do futuro apagando livros e filmes. Mas talvez essa não seja a parte mais assustadora da história. Mais inquietante é perceber que já estamos acostumados a permitir que máquinas decidam o que merece nossa atenção. Ainda não existe um sistema dizendo oficialmente o que deve ser apagado da memória humana. Existe algo mais sutil: sistemas que escolhem o que devemos ver.
Abrimos o celular e encontramos um mundo previamente organizado. O que interessa, o que é tendência e aquilo que tem mais chances de nos manter diante da tela. O algoritmo não precisa proibir ninguém de procurar outra coisa. Basta tornar o restante menos visível. E a invisibilidade, com o tempo, também pode ser uma forma eficiente de desaparecimento.
A história sempre foi injusta com a memória. Quantas pessoas, obras e ideias desapareceram porque ninguém as registrou ou porque, em determinado momento, alguém decidiu que não tinham valor suficiente para serem preservadas? Durante muito tempo, havia algo profundamente humano nesse processo. Alguém esquecia, alguém destruía, alguém censurava, alguém escolhia. Agora estamos construindo ferramentas capazes de fazer escolhas em uma escala que nenhum bibliotecário, censor ou burocrata do passado conseguiria imaginar.
É isso que torna “Preferência do Sistema” mais interessante do que uma simples história sobre tecnologia ou inteligência artificial. No fundo, a pergunta é antiga: quem decide o que merece ser lembrado? Não podemos guardar tudo, mas também é difícil aceitar que alguém tenha autoridade para estabelecer o que é importante e o que pode ser descartado. O que milhões de pessoas consomem tem mais valor do que aquilo que quase ninguém conhece? E se algo aparentemente irrelevante hoje for justamente o que ajudará uma geração futura a compreender quem fomos?
Existe uma certa arrogância em toda geração que acredita saber exatamente o que será importante para as próximas. A história está cheia de obras, pessoas e ideias consideradas irrelevantes em seu próprio tempo e que só ganharam valor depois. O problema é que, quando alguém erra essa escolha, talvez não exista uma segunda oportunidade para recuperá-la.
Um dos grandes desafios da inteligência artificial talvez nem seja a possibilidade de ela aprender demais sobre nós. Pode ser que o risco esteja em algo mais confortável: nos acostumarmos, pouco a pouco, a deixar que ela escolha por nós. O que ler, o que assistir, o que ouvir, em quem prestar atenção e, eventualmente, o que lembrar.
A grande pergunta levantada pela obra, portanto, não está em 2120. Ela está aqui, agora, dentro do bolso de quase todo mundo. Ainda não temos os “profetas” imaginados por Ugo Bienvenu, decidindo oficialmente o destino da memória humana. Mas já convivemos diariamente com sistemas que fazem escolhas sobre aquilo que aparece diante dos nossos olhos. E o detalhe mais inquietante é perceber que estamos nos acostumando tanto a essas escolhas que, muitas vezes, já começamos a chamá-las de nossas próprias preferências.