ARTIGO

Solidariedade ou ilusão?

4 dias atrás | Tempo de leitura: 3 min

Foto: reprodução Freepick

A tragédia que assola o Rio Grande do Sul afetou todos nós brasileiros de uma forma que há tempos não víamos um país tão unido para uma só causa.

Majoritariamente, acredito, nós temos criado esforços conjuntos na tentativa de ajudar os acometidos pelas enchentes e temporais, seja fazendo algum tipo de doação ou participando de campanhas de envio de alimentos ou vestuário para as áreas atingidas.

Bonito isso, não é mesmo?

Mas você percebeu que ao mesmo tempo que isso acontece, assistimos a uma espécie de espetáculo amplificado dezenas de vezes com o massivo alcance da internet?

Começo falando das celebridades. Se por um lado existem aqueles que usam da visibilidade para informar o maior número de pessoas sobre o que está acontecendo na região, por outro, parece que o Rio Grande do Sul se tornou um pano de fundo diferente para seus posts.

Acho que nem é preciso citar nomes, mas na lista estão ex-participantes de reality shows, apresentadores de TV, além dos insuportáveis “influencers”, que miram suas câmeras no rosto de vítimas que acabaram de perder tudo para ganhar uns “likes”.

É quase uma “publi” da solidariedade, sabe?

Boa parte do público tem sentido o quão patético isso soa e que a ação social só é real se publicada nas redes sociais.

Na mesma frequência mesquinha estão os disseminadores de mentiras. Em um momento tão sensível da história do país, espalhar notícias falsas para assustar e revoltar a população deveria dar prisão perpétua.

Mas o noticiário tradicional, apesar de ser mais confiável e com checagem da veracidade das notícias, também tem decepcionado. Muitas vezes, mostrar apenas que o Brasil é solidário não basta. Afinal, onde está o jornalismo investigativo para descobrir quem são os verdadeiros culpados pela tragédia?

Onde estão as manchetes mostrando que a realidade no Rio Grande do Sul no presente poderá ser a realidade de muitos outros Estados brasileiros em um futuro próximo se nada for feito em relação à crise climática?

A conta vai chegar para as autoridades que ignoraram e ignoram os cientistas que preveem catástrofes há décadas mas nunca são ouvidos?

O Fantástico do último domingo mostrou que nem mesmo a maior revista eletrônica do país tem feito isso com seriedade. Que precisamos ajudar, não há dúvidas, mas repetir incansavelmente que somos um país solidário, mostrando cenas emotivas para fazer o telespectador chorar, é de um sensacionalismo piegas que só atrapalha.

O Brasil pode ser solidário, mas quando o assunto sair de pauta, a crise climática vai continuar, mas será mais uma vez esquecida por grande parte da população. Os políticos que criaram seu eleitorado na base do negacionismo serão, novamente, eleitos. E seguirão “passando a boiada” até que uma nova tragédia nos comova.

É claro que precisamos mostrar os voluntários sendo verdadeiros heróis, sejam aqueles que buscam por pessoas desaparecidas ou resgatam animais presos em casas e telhados alagados. Isso é inspirador, de fato, mas o dedo também precisa estar na ferida.

Enquanto nos iluminamos com altruísmo lindo e televisionado, as bolhas estão se inchando com desinformação e esculpindo o próximo “Mito” que esbraveja contra o sistema, mas sem ter na manga a solução para um problema que ele mesmo nega.

Pessimistas como eu devem concordar: é uma caminho sem volta. Estamos presenciando e assistindo um mundo começando a dar seus passos para um apocalipse que não está na Bíblia, mas nas entranhas da natureza que destruímos aos poucos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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