Uma campanha que incentiva a demissão de trabalhadores que votaram no PT ganhou repercussão nas redes sociais após o resultado da eleição presidencial de 2026, com a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
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Com publicações que pregam a dispensa de funcionários e o boicote a empresas por posicionamento político, o movimento “Demita um petista” também chegou ao Vale do Paraíba, com manifestações em várias cidades, como em São José dos Campos, Jacareí, Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Caraguatatuba e Ubatuba.
As mensagens começaram a circular após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, realizado no domingo (25). Em diferentes plataformas, usuários passaram a defender que empresários demitam trabalhadores de esquerda, deixem de contratar apoiadores do PT e evitem consumir em estabelecimentos associados ao campo político adversário.
A mobilização provocou reação de entidades e ampliou a preocupação com possíveis casos de assédio eleitoral no ambiente de trabalho. A legislação brasileira proíbe a discriminação de trabalhadores por convicções políticas, e o MPT (Ministério Público do Trabalho) recebe denúncias relacionadas a ameaças, perseguições e retaliações motivadas pelo voto.
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Em São José dos Campos, o proprietário do Garagem do Espeto, bar localizado no Jardim Morumbi, voltou a provocar polêmica nas redes sociais ao defender que empresários demitam funcionários de esquerda e deixem de contratar pessoas que apoiam o PT.
Em um vídeo, o comerciante conhecido como Dersão convoca empresários de diferentes regiões do país a aderirem ao movimento.
“Você, empresário, você que tem comércio, não contrate petista. Se você tiver petista na sua operação, manda embora”, afirma na gravação.
A declaração recebeu críticas e motivou o anúncio de uma denúncia ao Ministério Público do Trabalho por parte do PSOL de São José dos Campos.
Outro empresário com atuação em São José dos Campos e Jacareí também publicou mensagens defendendo a paralisação de atividades comerciais e a demissão de funcionários. Fernando Gomes, que disputou uma vaga de deputado estadual e recebeu 1.184 votos, divulgou um apelo nas redes sociais após o resultado eleitoral.
“Fecha a porra do comércio. Para a empresa. Manda todo mundo embora”, disse Gomes em um vídeo. Na gravação, ele questiona a reação dos eleitores diante do resultado das urnas e defende medidas contra o funcionamento de empresas como forma de protesto.
As declarações se somam a outras publicações que incentivam empregadores a tomar decisões profissionais com base na posição política de seus funcionários.
O Ministério Público do Trabalho considera que o assédio eleitoral não se limita ao período de campanha. A prática também pode ocorrer depois da votação, quando um trabalhador sofre ameaças, perseguição, pressão ou retaliação por sua preferência política real ou presumida.
Em manifestação sobre o tema, o procurador do Trabalho Igor Sousa Gonçalves, coordenador nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho, afirmou que o órgão recebeu um volume expressivo de denúncias após a divulgação do resultado eleitoral.
Segundo o procurador, o voto não pode ser utilizado como critério para contratar, manter ou dispensar um funcionário. Ele também ressaltou que a discriminação política prejudica não apenas os trabalhadores diretamente atingidos, mas a própria democracia.
Um balanço citado na repercussão do caso apontava 1.937 registros até as 23h59 de domingo (25). Após a divulgação do resultado eleitoral, mais de 400 novas denúncias teriam sido apresentadas entre segunda-feira (26) e a tarde de terça-feira (27), elevando o total informado para 2.364.
Os registros incluem publicações que incentivam demissões, relatos de dispensas motivadas por divergências políticas e campanhas de boicote a estabelecimentos comerciais.
O MPT orienta trabalhadores que sofreram ou presenciaram situações desse tipo a reunir provas, como capturas de tela, áudios, mensagens e informações sobre testemunhas. As denúncias podem ser encaminhadas pelo site do órgão, inclusive de forma remota e sigilosa.
A Constituição Federal protege a liberdade de consciência e de convicção política. A Lei nº 9.029/1995, por sua vez, proíbe práticas discriminatórias para efeitos de acesso ou manutenção da relação de trabalho.
Uma dispensa motivada por discriminação política pode levar a questionamentos na Justiça do Trabalho e à responsabilização do empregador. Conforme as circunstâncias e o reconhecimento judicial da irregularidade, podem ser determinadas medidas como reintegração ao emprego ou pagamento em dobro da remuneração do período de afastamento, além de eventual indenização por danos morais.
A análise de cada caso depende das provas e das circunstâncias envolvidas. A simples divergência política, por si só, não autoriza a imposição de punições profissionais discriminatórias.
A repercussão também chegou ao Litoral Norte. O Aquário de Ubatuba divulgou, na quarta-feira (28), uma nota de repúdio à discriminação política após a circulação de conteúdos que associavam a instituição a determinadas posições ideológicas e incentivavam boicotes.
No comunicado, a instituição afirmou que atribuir rótulos políticos ao estabelecimento e estimular campanhas contra sua atividade desconsidera sua trajetória de três décadas nas áreas de educação ambiental, pesquisa científica e conservação da vida aquática.
O Aquário também destacou sua contribuição para a geração de empregos e para o desenvolvimento econômico de Ubatuba. Segundo a nota, a instituição recebe pessoas com diferentes origens e opiniões e mantém seu compromisso com a educação, a ciência e a conservação ambiental sem discriminação por posicionamento político, religião ou outra convicção pessoal.
O comunicado alertou ainda para os riscos de listas e publicações que incentivam a exclusão econômica por motivos ideológicos.
“Não devemos naturalizar práticas que incentivem intolerância, perseguição ou restrição da liberdade”, afirmou a instituição.
O Aquário declarou que avaliará possíveis medidas judiciais diante de situações que possam configurar difamação, disseminação de informações falsas, perseguição ou outras condutas ilícitas contra sua honra e imagem.
Trabalhadores que receberem ameaças de demissão, sofrerem pressão para revelar o voto ou forem alvo de retaliação por suas convicções políticas podem procurar o Ministério Público do Trabalho.
Mensagens, gravações, publicações em redes sociais e relatos de testemunhas podem contribuir para a apuração. A orientação é preservar o material e registrar os fatos com o máximo de detalhes possível.
A liberdade de voto e a proteção contra a discriminação no trabalho continuam válidas após o encerramento das eleições. Divergências políticas não devem servir de justificativa para ameaças, perseguições ou punições profissionais.