Um relatório produzido pela CBJP (Comissão Brasileira de Justiça e Paz), organismo ligado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), reúne um histórico de ataques contra a entidade e bispos católicos desde 2018.
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O levantamento aponta 58 episódios atribuídos a integrantes e apoiadores da direita bolsonarista, incluindo acusações, ofensas, ameaças e tentativas de associar a Igreja Católica ao PT e ao comunismo.
Divulgado pelo site Brasil de Fato e obtido por OVALE (clique aqui), o documento foi recebido por bispos e integrantes da CNBB na segunda-feira (28). O relatório ganhou repercussão em meio ao mais recente conflito envolvendo a entidade e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.
A disputa começou após a circulação de uma informação falsa segundo a qual Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A própria campanha do candidato negou a informação e afirmou que não existe proposta nesse sentido. A origem do boato está relacionada a um projeto apresentado em 2007 e arquivado em 2008.
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Segundo o levantamento da CBJP, a sequência de episódios começa em fevereiro de 2018, quando o blogueiro Bernardo Kuster publicou vídeo associando a CNBB à esquerda e ao PT. O relatório também registra uma declaração de Jair Bolsonaro, naquele ano, na qual o então candidato classificou a CNBB como a “parte podre” da Igreja Católica.
Em 2019, o então presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, passou a ser alvo de críticas e acusações de alinhamento político. No mesmo ano, Eduardo Bolsonaro afirmou nas redes sociais que a esquerda teria se infiltrado na Igreja Católica, especialmente por meio da CNBB.
O relatório também cita declarações do deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), que chamou a CNBB de “antro de comunistas”, e do ex-ministro Adolfo Sachsida, que atacou os bispos e afirmou que a entidade havia “apodrecido”. As falas são apresentadas pela CBJP como exemplos de uma sequência de ataques que, segundo a comissão, ultrapassaria a divergência política.
Outro episódio ocorreu em 2022, quando o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, foi alvo de críticas nas redes sociais por aparecer usando vermelho em uma imagem. O relatório registra que apoiadores de Bolsonaro interpretaram a cor da roupa como suposta demonstração de apoio ao PT.
O levantamento também menciona a chamada “Abin paralela”. Segundo o documento, 152 bispos teriam sido monitorados por uma estrutura instalada dentro da Agência Brasileira de Inteligência em 2020.
O episódio ocorreu depois de religiosos assinarem a “Carta ao povo de Deus”, documento no qual fizeram críticas à condução do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19. O relatório também registra ataques feitos nas redes sociais contra a CNBB após a divulgação da carta.
A CBJP afirma que a Campanha da Fraternidade esteve entre os principais alvos de campanhas de boicote. Segundo o documento, houve episódios de mobilização para que católicos deixassem de contribuir com a coleta promovida pela Igreja.
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A tensão entre política e religião também marcou a Festa de Nossa Senhora Aparecida em 2022. Na ocasião, a presença de Jair Bolsonaro no Santuário Nacional foi acompanhada por manifestações políticas de apoiadores.
Houve hostilidades contra profissionais de imprensa e confrontos verbais envolvendo religiosos. Uma equipe da TV Vanguarda, afiliada da TV Globo no Vale do Paraíba, foi hostilizada dentro do complexo religioso.
Na área externa da Basílica Velha, apoiadores de Bolsonaro também organizaram uma manifestação religiosa enquanto ocorria a tradicional celebração em homenagem à Padroeira do Brasil.
O padre Camilo Júnior, porta-voz do Santuário Nacional, chegou a explicar a manifestantes que os sinos da Basílica Velha faziam parte da tradição da celebração de Nossa Senhora Aparecida e não poderiam ser interrompidos por causa de um ato político.
O episódio mais recente citado no relatório envolve Flávio Bolsonaro. Nas últimas semanas, publicações nas redes sociais passaram a associar o candidato a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A informação é falsa. O projeto utilizado como base para a narrativa foi apresentado em 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli e acabou arquivado no ano seguinte. Flávio Bolsonaro não foi autor da proposta.
A campanha do senador negou a acusação e buscou medidas na Justiça Eleitoral contra as publicações. Posteriormente, Flávio passou a acusar integrantes da CNBB de terem participado da disseminação da informação falsa, sem apresentar provas.
A CNBB respondeu no domingo (27) e afirmou que não produziu, autorizou ou participou da divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. Na nota, a entidade declarou: “A mentira não se combate com outra mentira”.
Em seguida, Flávio afirmou que a nota da CNBB confirmava que a história sobre a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida era falsa. Durante ato de campanha em São Paulo, ele também agradeceu à entidade pela manifestação.
A controvérsia ocorre em um momento em que símbolos e discursos religiosos ganharam espaço na campanha eleitoral de 2026. Antes da polêmica, Flávio havia declarado que, caso fosse eleito presidente, decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Depois, afirmou que a declaração tinha caráter simbólico e religioso, sem representar uma medida oficial.
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida também provocou manifestações de outros candidatos e ampliou a presença da religião no debate eleitoral.
Fora do Brasil, o papa Leão 14 abordou tema semelhante na segunda-feira (28), ao comentar o avanço de partidos de extrema direita na Alemanha. O pontífice afirmou que a associação entre posições de extrema direita e determinadas correntes religiosas não representa uma expressão autêntica do cristianismo e defendeu valores do Evangelho ligados à compreensão e à compaixão.
O relatório da CBJP coloca em perspectiva uma sequência de episódios envolvendo a CNBB e integrantes da direita brasileira ao longo de oito anos. O caso mais recente, envolvendo a disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida, recolocou a relação entre política, religião e desinformação no centro da campanha eleitoral.
* Com informações do site Brasil de Fato e do jornal O Globo