Há quase 16 anos fechada, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, um dos patrimônios históricos mais importantes de Taubaté, permanece no centro de um impasse que envolve preservação, uso futuro do espaço e a aprovação de um projeto de restauração.
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Enquanto a Diocese de Taubaté afirma que trabalha para recuperar o prédio, historiadores e especialistas em patrimônio defendem que qualquer intervenção preserve as características originais do templo, considerado um dos principais símbolos da formação histórica da cidade.
Construída entre 1700 e 1705 e tombada como patrimônio histórico desde 1995, a igreja está interditada desde setembro de 2010 por causa de problemas estruturais. Desde então, não recebe missas, casamentos ou qualquer celebração religiosa, deixando a população sem acesso a um espaço que faz parte da identidade cultural e religiosa de Taubaté.
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Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté, Unitau (Universidade de Taubaté), Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) e da empresa Milclean. Veja a apresentação do projeto nesse link.
Para a historiadora Rachel Duarte Abdala, professora e diretora do Departamento de Ciências Sociais e Educação da Unitau (Universidade de Taubaté), a situação se transformou em uma longa disputa que ultrapassa a simples recuperação de um prédio histórico.
Segundo ela, a Igreja do Rosário nasceu para atender a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, formada por pessoas escravizadas e libertas durante o período colonial. O templo representa um dos poucos espaços de preservação da memória da população negra na história da cidade.
Rachel explica que, enquanto a antiga Igreja Matriz era frequentada pela elite branca, a Igreja do Rosário tornou-se o local autorizado para manifestações religiosas da população escravizada convertida ao catolicismo. Ao longo dos séculos, o edifício passou por reconstruções, mantendo preservadas estruturas que remontam tanto ao século 18 quanto ao século 19.
Mais do que um prédio religioso, a professora afirma que a igreja representa um patrimônio histórico, arquitetônico, cultural e identitário.
Além do simbolismo, ela demonstra preocupação com o estado de conservação do imóvel. Nos últimos anos, segundo a historiadora, foram realizadas apenas medidas emergenciais para evitar um agravamento da situação. Entre elas, a instalação de cabos de aço para sustentação da estrutura.
Rachel também relata que placas do revestimento externo chegaram a cair sobre a calçada, aumentando a preocupação de parte dos integrantes do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico. Embora a Diocese sustente que não há risco de desabamento, ela afirma que o episódio reforça a necessidade de uma solução definitiva.
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O principal impasse atualmente envolve o projeto apresentado para a restauração da igreja.
De acordo com Rachel, a Diocese contratou uma empresa especializada para elaborar a proposta. O projeto, no entanto, chegou ao Conselho Municipal de Patrimônio Histórico com intervenções que receberam ressalvas técnicas.
Entre os pontos questionados estão a proposta de rebaixamento do teto para instalação de sistema de climatização e a criação de banheiros no interior do conjunto histórico.
Segundo a professora, arquitetos e especialistas que integram o conselho consideraram que essas alterações podem comprometer características originais do edifício, construído em taipa de pilão, além de representar riscos para a preservação do patrimônio.
O conselho, formado por profissionais das áreas de arquitetura, história, planejamento urbano e cultura, solicitou adequações antes de emitir qualquer aprovação.
Na avaliação de Rachel, o debate não representa uma tentativa de impedir a restauração, mas de garantir que ela ocorra respeitando os critérios de preservação exigidos para um bem tombado.
Ela também afirma que um grupo formado por moradores, pesquisadores e representantes de manifestações culturais organizou abaixo-assinado e buscou diálogo com a Diocese para defender uma solução que preserve a identidade histórica da igreja.
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O arquiteto Benedito Assagra Ribas de Mello, professor aposentado de História da Cultura e Patrimônio Cultural da Unitau, reforça que a Igreja do Rosário possui importância muito maior do que sua arquitetura.
Segundo ele, o conjunto representa a memória da população escravizada que participou da construção de Taubaté e marca um dos antigos limites do núcleo urbano da cidade.
O especialista lembra que, historicamente, o centro de Taubaté foi organizado em dois grandes eixos. Um deles era comercial, ligando o Mercado Municipal à estação ferroviária. O outro era religioso, passando pelo Convento Santa Clara, Igreja do Pilar, Igreja Matriz e Igreja do Rosário, formando um dos principais corredores históricos do município.
Para Benedito, preservar esse patrimônio significa manter viva uma parte essencial da história de Taubaté e das transformações urbanas da cidade ao longo dos últimos três séculos.
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Em nota enviada à reportagem, a Diocese de Taubaté informou que não existe risco de desabamento da Igreja do Rosário e que um projeto de restauração já foi elaborado por empresa especializada.
Segundo a Diocese, a proposta segue em análise pelos órgãos competentes e o objetivo é realizar todas as intervenções necessárias com acompanhamento técnico especializado.
A instituição também afirma que ainda não existe definição sobre eventual utilização futura do prédio após a conclusão das obras.
Veja a íntegra da entrevista com a Diocese de Taubaté:
A Igreja do Rosário está em risco de cair? Há algum comprometimento em alguma parte dela?
Não há nenhum comprometimento na estrutura física da Igreja do Rosário. Portanto não tem nenhum risco de desabamento.
A Diocese de Taubaté contratou uma empresa para fazer um projeto de restauração da Igreja do Rosário? Será restauração ou reforma?
Sim. O projeto de restauração foi feito por uma empresa contratada. Será feito o que for necessário, com acompanhamento técnico de profissionais especializados, visando a utilização do espaço.
Em que fase está esse projeto? O que já foi feito e o que ainda será feito?
O projeto está seguindo os trâmites necessários para sua aprovação junto ao órgão competente.
A Diocese de Taubaté pretende ter um uso comercial da Igreja do Rosário? Alguma iniciativa de explorar comercialmente o espaço? Se sim, qual a ideia?
Ainda não há uma definição sobre isso. A prioridade no momento é realizar o projeto de restauro. Só posteriormente será pensado e definido que uso será feito do prédio e como será feito.
A Diocese de Taubaté mantém a proposta de rebaixar o teto da Igreja do Rosário? Isso não descaracteriza o prédio e o patrimônio histórico?
Está sendo estudado o que melhor atende às necessidades e favoreça a climatização do espaço.
E a instalação de banheiro e ar-condicionado? Isso será feito? Também não traz problemas ao patrimônio histórico?
Para atendimento às normas atuais de uso para qualquer ambiente de uso comum, está sendo estudada também a instalação de banheiros, sem prejuízo ao patrimônio histórico.
Essas questões foram discutidas e aprovadas pelo Conselho do Patrimônio de Taubaté?
Todas essas questões estão sendo consideradas pelo órgão competente. O esforço da Diocese é o de encontrar o melhor caminho para realizar aquilo que precisa ser feito para a efetivação do projeto de restauro.