Domingo, 8 de junho de 1985. São 4h30.
Após se perder na mata, o grupo retorna ao acampamento e não encontra o escoteiro. "Onde está o Marco Aurélio?". Na área, eles encontram a barraca revirada e a mochila do garoto aberta, do lado de fora.
Chefe do Grupo Escoteiro Olivetano, Juan Bernabéu Céspedes volta a 8 de junho de 1985, um dia que já dura 41 anos. Uma história que tem luzes misteriosas, vozes na escuridão e sinais deixados na mata. Quais foram as providências adotadas após o desaparecimento?
Em um manuscrito inédito de 107 páginas, obtido com exclusividade por OVALE, Juan reconstrói passo a passo a expedição ao Pico dos Marins, em Piquete, que terminou com o desaparecimento de Marco Aurélio Simon, de 15 anos.
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O documento, que OVALE revela em uma série especial, é uma "caixa-preta" do caso que há mais de quatro décadas intriga a polícia, tortura a família Simon e comove o Brasil.
"Nunca eu (...) fui verdadeira e sinceramente consultado pelos diversos escritores sobre o ocorrido", escreveu Juan no livro. "Creio que é hora de dar um fim às especulações e relatar fielmente o ocorrido naquela ocasião", completou o chefe dos escoteiros, chamado de "assassino" pelo pai de Marco Aurélio.
Além de Marco Aurélio e Juan, este com 36 anos à época, o Grupo Olivetano contava ainda com os escoteiros Ricardo Ferraz Salvioni, Oswaldo Lobeiro Machado e Ramathis Rhom, também adolescentes.
Após os três primeiros capítulos -- que mostraram o início da expedição, a véspera do desaparecimento (quando a barraca dos escoteiros sofreu um "ataque" e Marco Aurélio fez uma oração emocionante) e o momento em que o escoteiro é visto pela última vez — a série chega a outro ponto decisivo: após se perderem na mata, Juan e os outros escoteiros retornam ao acampamento e não encontram Marco Aurélio.
Leia o 1º capítulo da série: Chefe dos escoteiros abre 'caixa-preta' do caso Marco Aurélio
Leia o 2º capítulo da série: Oração e ataque à barraca: as horas antes do sumiço do escoteiro
Leia o 3º capítulo da série: 'Vimos Marco Aurélio pela última vez', diz chefe dos escoteiros
Domingo, 8 de junho de 1985.
Entre 14h30 e 14h45, Marco Aurélio inicia a descida sozinho. Ele é visto pela última vez. Acompanhe o relato do chefe Juan. É exclusivo.
Com dificuldade, conseguimos descer a pedra. Oswaldo, amarrado e ladeado pelos companheiros, desceu, reiniciando a caminhada. Somente havia uma seta do Marco Aurélio, bem no início, depois mais nada.
Como a trilha não tivesse tantos incidentes de rochas altas, era mais fácil caminhar e, ao mesmo tempo, mais difícil localizar os sinais deixados por Marco Aurélio por causa do capim. Poucos metros adiante, tivemos que desviar por causa de uma pedra grande e não encontramos mais a trilha. Decidimos prosseguir pelo meio da mata.
O capim, da altura de um homem, dificultava tremendamente a visão e a orientação. Em certos trechos, a vegetação fechava completamente o caminho.
É frequente, ao caminhar por trilhas, fazer alguns desvios e reencontrá-las logo adiante. Porém, às vezes a trilha sofre mudanças inesperadas e, quando a perdemos de vista, entramos na vegetação e nos perdemos.
Prosseguimos a caminhada quase em linha reta. Em certo momento, ouvimos um apito.
Como Marco Aurélio levava um e já havia apitado durante a subida, respondi ao sinal, sem obter resposta. Ventava bastante e o som era carregado para longe.
Por isso, a falta de retorno foi considerada normal, já que havíamos nos afastado da trilha.
Às 17h, já conscientes do desvio e da dificuldade de reencontrar o caminho correto, resolvemos seguir pelo meio do mato, em direção a algumas casas, tentando encontrar uma rota que nos levasse de volta ao acampamento.
A caminhada pela mata fechada, sem facões, exigia abrir passagem com as próprias pernas, derrubando a vegetação e pisando sobre ela. Isso tornava o deslocamento extremamente lento e provocava constantes desvios de direção, especialmente diante de árvores grossas, pedras e outros obstáculos.
Tudo isso se somava à preocupação com o transporte do ferido.
Escureceu e continuamos a caminhada orientando-nos pelas estrelas, rumo ao oeste, até encontrarmos uma cerca de arame farpado.
Seguimos a cerca por algum tempo, acreditando que ela nos levaria a uma porteira ou trilha. Em determinado momento nos aproximamos de uma cachoeira. Como a cerca fazia uma curva de 90 graus e havia risco de acidentes, optamos por não ultrapassá-la.
Atravessamos o rio com grande dificuldade e prosseguimos sem qualquer visibilidade, descendo o morro e acompanhando o curso d'água à distância.
Imaginávamos que o rio pudesse nos conduzir até algum local de saída. Finalmente encontramos outra cerca e, logo depois, uma clareira.
Pulamos a cerca, avistamos algumas casas e seguimos em sua direção. Após atravessar novamente o rio, chamamos pelos moradores, mas ninguém respondeu.
Como havia uma trilha, decidimos segui-la pelo meio do pasto.
DIA 9 — DOMINGO
À 1h da manhã surgiu uma lua cheia, ladeada por dois anéis de gelo formados por luzes coloridas, iluminando o ambiente de forma intensa. Vestimos os abrigos que estavam nas mochilas e iniciamos a caminhada em direção a uma estrada que os seniores diziam enxergar.
Como não era possível atravessar o rio devido à forte correnteza e às pedras, seguimos acompanhando seu curso até avistar uma casa distante. Os cães soltos ameaçavam atacar. Apitei para chamar a atenção do morador, apresentei-me e ele recolheu os animais.
Da janela, informou o caminho para retornar ao acampamento, que ficava a cerca de 5 quilômetros dali.
Às 4h30, chegamos ao acampamento já preocupados com Marco Aurélio.
Os cachorros latiram. Encontramos a barraca coberta de gelo, com a parte frontal arriada.
Os calços colocados para reforçar os espeques por causa do vento não estavam mais na mesma posição. Haviam sido mexidos.
A mochila de Marco Aurélio, a única que permanecera do lado de fora da barraca, estava aberta e coberta de gelo.
Como não conhecíamos os pertences pessoais de cada integrante, não foi possível saber se faltava algo. Aparentemente, não.
Marco Aurélio não estava no acampamento. Pensamos inicialmente que talvez estivesse dormindo na casa do Sr. Afonso, mas a hipótese foi descartada, pois ele já teria aparecido ao ouvir nossa chegada.
Devido ao horário avançado, comemos apenas uma colherada de leite condensado e nos deitamos por volta das 5h. Oswaldo, apesar das dores no joelho, já conseguia caminhar.
Às 6h30 acordei e orientei Salvioni a comunicar o desaparecimento ao Sr. Afonso para que fossem tomadas as providências necessárias. Em seguida, refiz os passos do dia anterior na tentativa de localizar Marco Aurélio.
Percorri o caminho apitando. A barraca bangalô não estava mais no local. Voltei até o último ponto onde Marco Aurélio havia sido visto e procurei por pistas, sem sucesso.
Marco Aurélio havia deixado mais quatro ou cinco sinais com o número 240 antes de descer a pedra. Depois disso, os sinais feitos com giz se confundiam com outras marcações já existentes, tornando impossível identificar a trilha correta.
Às 9h, o chefe Anadir, responsável por levar o grupo de volta a Piquete, ao tomar conhecimento do desaparecimento retornou para fazer contatos. Não telefonou para a polícia, mas para integrantes do grupo escoteiro que já haviam retornado do acampamento.
Ao meio-dia, os escoteiros compareceram em peso para ajudar nas buscas. Sob forte chuva e intensa neblina, subiam e desciam a montanha. Em alguns momentos, a visibilidade não ultrapassava três metros.
Mesmo diante das condições extremas, escoteiros de apenas 11 anos caminhavam sozinhos pela mata em busca de Marco Aurélio. A chuva e a neblina impediram que a equipe alcançasse o local do acidente. Foram realizadas buscas nas proximidades do Morro do Careca, sem qualquer resultado.
Enquanto alguns integrantes procuravam ajuda em Piquete, a Tropa Olivetano permanecia na residência do Sr. Afonso, reunida próxima ao fogo da cozinha.
Por volta das 20h, sob forte chuva, ouvimos gritos. Parecia ser a voz de Marco Aurélio. Também ouvimos apitos que lembravam um pedido de socorro em código SOS.
Ao abrir a janela, vimos uma luz forte, semelhante a um holofote utilizado por embarcações. A luz tinha tonalidade azulada e oscilava, como se estivesse sendo carregada por alguém que caminhava pela mata.
Respondi imediatamente e, juntamente com o chefe Fernando, do Grupo Escoteiro Guaipacaré, saí ao encontro do sinal.
A trilha fazia uma pequena curva. A luz parecia vir de antes dela. Corremos em direção ao local, gritando o nome de Marco Aurélio, na esperança de encontrá-lo. Nada mais ouvimos. A luz piscou bem ao meu lado, na altura de uma pessoa.
Ao chegarmos ao local, uma vizinha abriu a porta de casa com uma lamparina de querosene e afirmou não ter ouvido qualquer grito ou apito.
Embora procurássemos algum indício, nada encontramos. Retornamos frustrados para a residência do Sr. Afonso.
Mais tarde retornamos a Lorena, para a residência do chefe Toninho, que nos ofereceu alojamento.
Às 22h30, ele telefonou para o comissário regional Antonio Augusto e para Ivo, pai de Marco Aurélio, comunicando o desaparecimento e pedindo que os demais pais fossem avisados. Oswaldo foi levado ao médico, que solicitou radiografias.
Dormimos na residência.
No dia seguinte, às 8h, Ivo e Neuma aguardavam, ao lado do comissário distrital, a chegada das viaturas que levariam todos novamente ao acampamento.
Como consequência do desaparecimento e em gesto de solidariedade à família, o prefeito de Piquete decidiu suspender as festividades de aniversário da cidade, previstas para ocorrer poucos dias depois.
Nos dois próximos capítulos, os últimos da série, as buscas pelo escoteiro desaparecido e as contradições no relato de Juan.