OVALE Entrevista

‘Dom e Bruno são as mais recentes vítimas da guerra liderada por Bolsonaro’, diz Eliane Brum

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 5 min
Incêndio na Amazônia
Incêndio na Amazônia

Uma das mais premiadas jornalista e escritoras do Brasil, Eliane Brum, que nasceu no Rio Grande do Sul, se mudou para Altamira, no Pará, em 2017. Ela cobre a Floresta Amazônica desde a década de 1990 e queria ver de perto o que vem acontecendo com um dos maiores patrimônios ecológicos da humanidade. Viu a violência e a degradação.

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“Entender uma cidade amazônica é entender o que são as ruínas da floresta”, disse ele em evento pela internet, do qual OVALE acompanhou. Confira.

Como foi saber do desaparecimento de Dom Phillips e de Bruno Pereira?

Dom era um cara adorável, excelente jornalista, repórter experiente e responsável. Sabíamos que ele estava trabalhando num livro sobre a floresta. Quem viajava com Dom era Bruno Pereira, um dos mais importantes indigenistas de sua geração. Ele foi exonerado de seu cargo na Fundação Nacional do Índio em 2019, quando Sergio Moro era ministro da Justiça, após comandar uma operação de repressão ao garimpo ilegal.

Servidor de carreira da Funai, Bruno precisou pedir licença do órgão para seguir protegendo os indígenas: sob o governo de Bolsonaro, a Funai se tornou um órgão contra os indígenas.

Quando soubemos do desaparecimento dos dois, nos movemos muito rapidamente porque sabíamos que o governo Bolsonaro nada faria a não ser que houvesse muita pressão. A demora deliberada em mobilizar recursos humanos e materiais por parte do governo se tornou evidente desde o primeiro dia.

Como jornalistas que cobrem e vivem na Amazônia, sabemos que tempo é crucial na floresta. Cada segundo conta. E cada segundo contou

E quando a morte foi confirmada?

Dom e Bruno são as mais recentes vítimas da guerra liderada por Bolsonaro contra a floresta, seus povos e todos aqueles que lutam em defesa da Amazônia.

O desaparecimento deles é apenas a mais recente violência na Amazônia aprisionada neste país a que chamamos Brasil, governado por um defensor da ditadura, da execução e da tortura chamado Jair Bolsonaro. Estamos em guerra. E afirmar isso não é retórica. Ou seja, não é incompetência nem descaso, é método.

Você tem denunciado que há uma guerra em andamento na Amazônia. O que fazer?

É desesperador ficar gritando que estamos em guerra e não sermos entendidos. Porque entender não é concordar, retuitar ou dar likes, é algo mais duro. É agir como pessoas que vivem uma guerra.

Se no Brasil e no mundo as pessoas não compreenderem isso desta vez, as vidas de quem está no chão da floresta, com os corpos na linha de frente, valerão ainda menos do que valem agora.

E quando as lideranças dos povos-floresta, os ambientalistas, defensores e jornalistas da linha de frente estiverem mortos, a floresta também estará. Sem a floresta, o futuro será hostil para as crianças que já nasceram.

Quantas mortes ocorreram na Amazônia sem que houvesse a mesma comoção das de Dom e Bruno?

É inegável que a comoção nacional e internacional é maior porque Dom Phillips é branco e é um cidadão britânico. Este é um fato facilmente verificável se compararmos com os assassinatos que abriram a temporada de execuções deste ano na Amazônia, em São Félix do Xingu, município com o maior rebanho bovino do Brasil.

Protetores da floresta anônimos e sem amigos influentes, José Gomes, o Zé do Lago, sua mulher, Márcia Nunes Lisboa, e a filha Joane Nunes Lisboa, de 17 anos, pouco foram lamentados e o crime está impune até hoje. Do mesmo modo, em 2019, Maxciel Pereira dos Santos, colaborador da Funai por mais de uma década, foi executado com dois tiros na nuca sem que o mundo tenha se movido. Como a maioria dos crimes contra os invisibilizados, o dele também segue impune.

O que quero dizer é que esse movimento imenso, forte e potente que foi feito por Dom e Bruno, do qual fiz parte desde literalmente o primeiro minuto, precisa agora se ativar por todos. Ou sucumbiremos. Os que estão no chão da floresta, em sangue. Os que vivem nas grandes cidades do Brasil e do mundo, de impacto climático, cuja pandemia de covid-19 foi só um dos primeiros momentos de catástrofe.

Por que se mudou para o Pará?

Há cinco anos escolhi viver em Altamira, uma das regiões mais violentas do mundo, porque escolhi estar na linha de frente da guerra climática. Defendo, assim como outras pessoas, que os verdadeiros centros do mundo são os enclaves da natureza, os suportes naturais de vida, como as florestas tropicais e os oceanos, os demais biomas, como o Cerrado e o Pantanal. Nesses centros, as semanas começam e terminam com casas incendiadas, tiros desferidos por pistoleiros, pedidos de socorro de defensores da floresta e de comunidades inteiras, ameaças de morte.

Como descrever o que vem ocorrendo na Amazônia?

A violência de Estado, associada com a iniciativa privada, no conluio perverso que estruturou o Brasil, é avassaladora principalmente desde a ditadura empresarial-militar. Houve alguns períodos de menor violência durante a redemocratização, em especial quando Marina Silva era ministra do Meio Ambiente, mas a destruição nunca foi estancada.

As terras indígenas jamais foram demarcadas em sua totalidade, como a Constituição Federal determinou que acontecesse, num prazo de cinco anos após a promulgação em 1988. A Funai em nenhum momento foi suficientemente fortalecida para evitar ser desmantelada por governos inimigos da floresta e de seus povos.

O que deveria ter sido feito?

As unidades de conservação precisariam ter sido ampliadas e realmente protegidas, com efetivo humano e tecnológico que permitissem cuidado real, fortalecendo órgãos como Ibama e ICMBio, num nível muito maior do que aconteceu nos melhores momentos de democracia, e não foram. Também a reforma agrária deveria ter sido realizada para dar condições efetivas para o desenvolvimento da agroecologia por camponeses sem terra e assentados. Sem reforma agrária na floresta e em outros biomas, é importante deixar explícito, não haverá justiça climática.

E a violência?

Ascendeu a um nível ainda mais grave desde que Bolsonaro se tornou um candidato com chances de vencer. Quando o extremista de direita assumiu o poder, a escalada de destruição foi ainda mais acelerada. Neste ano eleitoral de tudo ou tudo para Bolsonaro e sua base de apoio na Amazônia, composta por grileiros, madeireiros e chefes de garimpo, a violência alcança níveis inéditos.

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