Uma convergência de paixões. Assim pode ser definido "The Orixas", projeto de Hugo Canuto que mistura o legado das civilizações africanas, o conjunto de narrativas ligadas aos Orixás, arquétipos milenares de força, coragem e sabedoria; e a linguagem dos quadrinhos, especialmente no estilo do "rei" Jack Kirbs.
Com traços minimalistas e dinâmicos e ângulos inusitados, Iansã, Oxum, Oxóssi, Ògún, Xangô e Yemanjá, representantes de religiões de matriz afriana, ganharam pôsteres em que surgem ilustrados como super-heróis.
"Como baiano, nascido em Salvador, vejo que a cultura e a herança africanas são parte do modo de vida e expressão da cidade", afirmou Canuto. "O projeto nasceu da vontade de falar da cultura e da representatividade do povo brasileiro por meio do universo das HQs", continuou.
Para criar o projeto, o quadrinista reuniu estudiosos do tema e religiosos. "Tive o cuidado de não desrespeitar as crenças, embora o trabalho em si não tenha viés religioso, mas cultural", disse ele, que buscou visitar terreiros e conversar com estudiosos para entender até onde ele poderia ir com o projeto e se teria autorização para fazê-lo.
bastidores.
Com plena autorização, Canuto criou inicialmente uma coleção de 16 pôsteres. E, agora, lança sua revistinha "Conto dos Orixas", com 120 páginas, e que conta com o apoio de financiamento coletivo.
"Eu tentei representar algumas narrativas, embora o que eu escreva não tenha viés antropológico", afirmou Canuto, em vídeo promocional da campanha.
O trabalho criativo do artista foi em cima de pesquisas visuais. Antigo pesquisador da cultura Yorubá, o quadrinista leu inúmeras referências para entender questões estéticas.
"Procurei filmes de épicos históricos africanos, só encontrei um ou dois. É como se esse passado de milhares de anos que as civilizações africanas têm não existissem sob o ponto de vista da cultura de massa, do cinema e dos quadrinhos", afirmou o autor.
"Acho que o Brasil vive uma certa negação de identidade. O país vive de civilizações de empréstimo. É americano, é europeu, mas nunca processa o que ele é", criticou.
Preconceitos? "Jamais tive medo. O papel do artista na sociedade é produzir reflexões dentro do exercício pleno da liberdade de criar".
Revista.
"Contos de Orixas" conta a história de deuses e heróis que travavam batalhas com furor e ensinaram a curar e lidar com a terra, o ferro e o fogo. Amaram e reinaram na mesma intensidade.
"Alguns desceram do luminoso Orum para realizar seus destinos, enquanto outros nasceram no Aiyê e, pelos grandes feitos, foram elevados a Orixás, marcando para sempre a história de dois continentes", revelou o autor.
Serão 1.000 exemplares de tiragem num primeiro momento. E o projeto de financiamento ainda está em aberto no site Catarse (www.catarse.me/contos_dos_orixas_pre_venda)..