É mais comum do que se imagina pessoas negras se acharem feias. Chamam-se morenas, bronzeadas, queimadas... É latente a dificuldade em ver a beleza de sua própria história, do convívio com familiares e amigos.
Não se fala do papel do negro na história, na literatura, no teatro, nas artes... Quase não há paralelos. Situações que acabam por gerar mais questionamentos do que enfrentamentos. E é em meio a esses lugares de ausência que Edson Raphael encontrou o seu espaço.
O ator e bailarino é criador-intérprete da peça "Gbé ou Quando o Corpo Renasce Negro", que será apresentada gratuitamente neste domingo, às 20h, no teatro Metrópole, em Taubaté. No espetáculo, uma releitura corporal do processo étnico, social e pessoal de pessoas negras, para que se reconheçam como tal.
"O projeto começou a partir das minhas vivências. Lembro-me de quando eu estudava teatro, de 100 estudantes havia apenas quatro negros. E não tínhamos registros sobre teatro negro", afirmou ele.
"Mas, para que não ficássemos apenas na minha história, me propus a entrevistar dez pessoas de diferentes idades, classes sociais, gêneros e orientações sexuais para entender como elas lidavam consigo mesmas, com seu corpo e sua história. E encontramos muitos pontos em comum", continuou o artista.
União.
A convivência familiar em que a mulher desempenha um papel tão ou mais importante que o homem é uma das características comuns encontradas. Há ainda forte religiosidade - aliás, o sincretismo religioso se faz presente.
"Gostos pessoais, mudanças de cidade e região e questões com o próprio corpo também são comuns", ressaltou Edson. "E a partir desses elementos encontrados nos relatos, fomos criando esses corpos possíveis. Nossa meta é promover uma valorização pessoal".
O espetáculo mistura dança e teatro; no cenário, as artes plásticas; na trilha sonora, músicas exclusivas. Sob o palco, além de Edson, o ator Gilberto Costa. "Percebemos algumas respostas diferentes do público. Negros têm identificação direta. Outros se sentem provocados. Ao final, sempre fazemos um bate-papo e as pessoas têm sido muito generosas em colocar situações que viveram ao longo dos anos em seus cotidianos", afirmou o artista.
"É preciso que todos entendam que se pessoas têm dificuldade de olhar no espelho, foi a sociedade como um todo que a levou a esse lugar. É preciso que lutemos todos juntos para mudar o cenário", finalizou.
Serviço.
O teatro Metrópole fica na rua Duque de Caxias, 312, Centro. A entrada é gratuita e a classificação é livre..