Imagine que as quase 200 mil pessoas que passam os quatro dias de Carnaval em São Luiz do Paraitinga acordassem na manhã de Quarta-feira de Cinzas com rabo e chifre?
Pode parecer piada, mas essa era a 'pena' de quem pulava a folia na cidade, de acordo com o padre que comandava a paróquia luizense no início do século passado, nos anos 1920.
O padre italiano Monsenhor Ignácio Gióia logo mostrou seu desapreço pelas festividades. Aos poucos, conta a história que foi fazendo pregações contando que nasceriam rabo e chifre em quem pulasse o Carnaval e até que a cidade sofreria com uma grande enchente se a festa continuasse.
Graças a ele, São Luiz do Paraitinga passou mais de 60 anos sem festa.
FOLIA.
A coisa só foi mudar nos anos 1980, quando os luizenses se organizaram para começar a montagem da festa como conhecemos atualmente.
E isso só aconteceu após reportagens da imprensa que não entendiam como uma cidade, àquela altura, ainda não pulava Carnaval. Alguns moradores se sentiram 'ridicularizados', e resolveram retomar a folia. Mesmo com a penitência de Gióia.
Surgiram os festivais, o envolvimento cultural foi ficando cada vez maior, e a cidade de Elpídio dos Santos passou a cada vez mais produzir suas próprias marchinhas. Já são centenas, entoadas durante todo o ano -- não só durante os quatro dias de folia.
Hoje, para o que certamente seria um desespero para o padre italiano, São Luiz tem um dos Carnavais de rua mais famosos do Brasil, e que já foi destaque até na imprensa internacional. O rabo e chifre foram substituídos pela roupa de chita e pela decoração de flor. Com muita música e festa durante o ano inteiro.
Mesmo após a forte enchente de 2010 (como previu o padre?), a cidade não parou de respirar o Carnaval, tendo ano após ano a festa mais genuína e esperada de toda a RMVale.
O Juca Teles, o Barbosa e tantos outros personagens são disputados pelos foliões, que até a próxima terça poderão curtir mais de 50 blocos e shows pela cidade que hoje respira Carnaval.
Neste ano, graças a novos problemas estruturais, os tradicionais blocos terão trechos somente com banda no chão e também vão voltar a sair na rua atrás da Igreja Matriz. Curiosamente, uma rua chamada Monsenhor Ignácio Gióia..