Além do esquema usado pelos vereadores para 'inflar' as notas fiscais e garantir mais verba de ressarcimento da Câmara, a 'Farra das Viagens' mostra outro dado curioso: dos 89 processos de janeiro a maio de 2017 a que a reportagem teve acesso, em 30 deles a viagem durou entre 6h e 6h55. Em apenas um deles, durou menos de 6h.
A duração da viagem tem influência na diária paga aos servidores.
Antes de deixarem a Câmara, os funcionários - normalmente um motorista e um assessor de vereador - recebem uma diária de 1 UFMT (Unidade Fiscal do Município de Taubaté). Em 2017, isso representava R$ 183,82 para cada um. Em 2018, R$ 187,18.
Se a viagem demora 6h ou mais, esse valor pode ser usado para refeição e, em tese, para hospedagem (essa segunda opção só costuma ocorrer em jornadas para outro estado, o que é incomum). Se a viagem durar menos tempo, o dinheiro precisa ser devolvido.
Ou seja, nessas 30 viagens citadas, por questão de alguns minutos, o Legislativo teve um gasto de R$ 367,84 - soma das diárias do motorista e do assessor.
CRONÔMETRO.
O 'campeão' de viagens nessa faixa de duração foi o vereador Douglas Carbonne (PCdoB). Das 17 viagens feitas pelo comunista nos primeiros cinco meses do ano passado, 12 duraram entre 6h05 e 6h36.
Ao todo, seis viagens duraram 6h05: Campos do Jordão (duas vezes), São José dos Campos, Jacareí, Redenção da Serra e Lorena. Outras duas viagens do parlamentar do PCdoB duraram exatas 6h10: Pindamonhangaba e Campos do Jordão.
A lista de Carbonne ainda tem jornadas de 6h13 (São José dos Campos), 6h15 (Lorena), 6h20 (Cruzeiro) e 6h36 (Caçapava).
Outro vereador que se destaca nesse quesito é Jessé Silva (SD). O parlamentar fez oito viagens com duração entre 6h e 6h45. As duas que mais chamaram a atenção foram para São José dos Campos, e tiveram a duração exata de 6h. Ou seja, se tivessem demorado um minuto a menos, o motorista e o assessor teriam que devolver a diária.
Jessé também declarou viagens de 6h10 (Cruzeiro), 6h15 (Campos do Jordão), 6h20 (São Paulo), 6h40 (São José dos Campos e São Paulo) e 6h45 (São José dos Campos).
Desde terça-feira a reportagem cobra um posicionamento dos dois vereadores sobre a coincidência dos tempos de viagem, mas não houve resposta até essa quinta.
PSL pede à Câmara a cassação dos dez vereadores envolvidos
O PSL protocolou nessa quinta-feira uma denúncia na Câmara de Taubaté contra os dez vereadores citados na 'Farra das Viagens'. Com base nas reportagens, o partido diz que Alexandre Villela (PTB), Bilili de Angelis (PSDB), Bobi (PV), Dentinho (PV), Diego Fonseca (PSDB), Douglas Carbonne (PCdoB), Gorete Toledo (DEM), Graça (PSD), Jessé Silva (SD) e Vivi da Rádio (PSC) cometeram atos de improbidade administrativa e quebraram o decoro parlamentar.
Após o fim do recesso, a denúncia terá que ser votada em sessão extraordinária, sem a participação dos citados. Se dois terços dos vereadores votarem pelo recebimento da denúncia, será formada uma comissão processante que terá 90 dias para opinar pela cassação ou não dos mandatos. O parecer será votado em plenário e dependerá também de dois terços dos votos.
Taubaté gastou 775% mais que São José e 1.654% mais que Jacareí em diárias
Durante todo o ano de 2017, a Câmara de Taubaté pagou R$ 184.739,10 em diárias para servidores, entre motoristas, assessores de vereadores e funcionários do administrativo.
Isso representa um total de 1.005 diárias, já que o valor pago era de R$ 183,82 - esse ano, já passou para R$ 187,18. Para efeito de comparação, a Câmara de São José dos Campos gastou no mesmo período R$ 21.090 com viagens de servidores, pagando diárias que variam de R$ 15 (até 6h de duração) a R$ 30 (acima de 6h).
Já a Câmara de Jacareí gastou no ano passado R$ 10.527, com diárias que variam de R$ 33 (de 4h a 8h de viagem) a R$ 66 (acima desse período). Ou seja, Taubaté gastou 775% mais do que São José e 1.654% mais que Jacareí em diárias em 2017.