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Laerte é uma das convidadas da Festa Literomusical de São José

Por Paula Maria Prado@paulamariaprado |
| Tempo de leitura: 3 min
Trama. Nova série animada promete abordar temas atuais
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"Tenho aprendido que a gente não se 'livra' de preconceitos, mas aprende a reconhecê-los e neutralizar a sua influência", cravou Laerte Coutinho. Ela, uma das figuras mais aguardadas na Flim (Festa Literomusical), que acontece até domingo (17) em São José, viveu uma das mais curiosas experiências: reconhecida como uma das principais desenhistas do país, tornou-se de uma hora para outra "mais conhecida por ser uma cartunista trans do que pelos quase 40 anos como um homem cartunista", definiu.

Sim, rememoramos destaques: são anos de trabalho como cartunista no "Gazeta Mercantil", "Estado de S.Paulo" e "Folha de S.Paulo"; prêmio no 1º Salão Internacional de Humor de Piracicaba; scripts para os humorísticos "TV Pirata" (1988) e "Sai de Baixo" (1996) e "TV Colosso" (1993); o curta "Vestido de Laerte" (2012), vencedor do Festival de Cinema de Brasilia. E, recentemente, o documentário "Laerte-se", da Netflix.

Em meio a tantos feitos, em 2005 identificou-se como transgênero, em 2010 tornou-se público. "Quando decidi que não fazia mais sentido viver a transgeneridade de forma escondida (como 'crossdresser'), estava também decidindo que responderia às questões que fossem colocadas publicamente", afirmou. "Eu me sentia mais segura para dar essas respostas, pela convivência com pessoas trans que debatiam ativamente o assunto, do que para me apresentar de forma feminina".

"Meu movimento de gênero me trouxe muita surpresa, satisfação, alegria, descobertas gozosas e dolorosas - mas não me tornou outra pessoa", garante. Gosta de polêmica? "Não sei se gosto... Mas acho uma tentação, inclusive quando me dão um peteleco nas ideias", diz divertida.

ARTE.

Laerte começou a desenhar como toda criança, até que o desenho passou a significar uma possibilidade de expressão. "Isso tanto me satisfazia quanto me permitia perceber que satisfazia o olhar dos outros", contou. Tornou-se conhecida por desenhar, mas também gostava de escrever, tocar piano, teatro e cinema.

Laerte vem a Flim convidada para a mesa transformações. "Sempre embatuco quando me pedem opinião envolvendo 'arte'. Não sei bem precisar o que é arte, assim como também não tenho certeza de que seja sempre transformadora - ou transformadora num sentido positivo", disse lembrando de como Wagner foi utilizado como cenário estético para o nazismo, por exemplo.

Mas, para ela, o contato com produções artísticas de diversas naturezas é fundamental para que nosso olhar sobre o mundo e o tempo se abra. "Para mim, pelo menos, foi."

Descobrir-se transgênero mudou sua arte? "Essa mudança chocou certos olhares, levantou inquietações e gerou cobranças - não por novas linhas, mas pela retomada de velhas narrativas. De modo que, em 2011, quando me apresentei publicamente como trans, não havia mais tanta expectativa de novas formas de expressão nos quadrinhos".

TRANSFORMAÇÕES.

Tornar-se mais conhecida por ser trans do que por seus anos de profissão, segundo Laerte, pode ter a ver com o movimento de ideias por que passa o país. "Estamos em um momento de extremidades, mais do que polaridades. Um amigo disse, em 2013: 'o Brasil saiu do armário'. É verdade. É nesse fora-do-armário que falas como a de Jair Bolsonaro (PSC) ou João Doria (PSDB) se sentem à vontade e encontram ressonância".

"O que me preocupa mais é o modo como essa situação - que deve implicar em palavras, ações, projetos, movimentos -, vem sendo conduzida por agentes pouco confiáveis: uma mídia tendenciosa e manipuladora, um sistema político em crise, seja no executivo, no legislativo ou no judiciário; e sob influência e pressão de interesses estrangeiros cada vez mais claros", opinou.

"Há muitas urgências e o sentimento de que, de algum modo, pode não haver tempo para providenciar saídas. Eu acho que há".

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