João Carlos Martins chorou. Aliás, em vários momentos. Mas brincou: "arrumei um problema! Não sei mais ser eu sem imitar Alexandre Nero no filme!", ri. Um dos pianistas mais aclamados do mundo e maestro, cuja vida já foi retratada em livro, eventos e até desfile de escola de samba, ganha agora uma excepcional homenagem com o longa: "João, o Maestro", que estreia nesta quinta nos cinemas da região.
O longa traz a sua dramática trajetória de vida e sua luta para seguir se dedicando àquilo que mais ama: a música. E são inúmeros os percalços no meio desse caminho: a perda dos movimentos dos dedos da mão, distúrbios osteosmusculares até um problema neurológico após ser atingido por uma barra de ferro na cabeça em um assalto na Bulgária.
"No que diz respeito a parte musical, tudo o que está no filme é 100% fiel a minha vida. E, quando revi um dos melhores concertos em que já toquei, em Berlim, e lembrei do sangue sobre o teclado do piano chorei muito... Foi como 'Cine Paradiso', eu assistindo o meu passado", contou em entrevista a OVALE.
Já na parte da dramaturgia, ainda que as cenas sejam baseadas em fatos reais, o diretor Mauro Lima pôde usar a sua criatividade. "Não sou tão ligado ao álcool, por exemplo. E sempre fui um pai presente apesar das separações. Mas é preciso que haja um peso dramático, então não dava para desenvolver todos os personagens. Ao fim, fiquei muito feliz com o resultado".
MUSICAL.
O longa é visto por Martins como um musical, ainda que não tenha canto como ocorre normalmente. "Mais: traz em sua trilha Bach, Beethoven, Villa-Lobos e Tchaikovsky. Ou seja, é um marco no cinema nacional".
Aliás, todas as músicas presentes no filme são gravações reais do pianista. "E os atores fizeram um trabalho brilhante. Porque uma das minhas preocupações foi tornar o toque real, diferente do que acontece em novelas e outros filmes em que fica nítido que não é o personagem tocando. Então foi um trabalho de joalheiro mesmo".
E o resultado é impressionante. É difícil crer que não são os atores - Davi Campolongo (criança), Rodrigo Pandolfo (jovem) e Alexandre Nero (adulto) - que estão realmente tocando as peças.
CRÍTICA.
O filme transita entre cenas bem-humoradas e o mais completo drama. A palavra obsessão surge algumas vezes para explicar a relação de Martins com a música e vê-se os ônus e bônus de sua dedicação. Retratado por três atores, a personalidade do maestro não se perde entre as passagens do tempo. A edição rápida das cenas, com uma economia de diálogos, combinadas às músicas clássicas dão o tom do longa. O choro e o sentimento de orgulho por todas as lutas e conquistas de Martins, ao final, são inevitáveis.
Alerta "spoiler"! Martins revelou: as cenas do bordel e do detetive são reais. Mas a primeira aconteceu em Cartagena (Colômbia) na verdade. E no assalto, na Bulgária, ele estava, na verdade, sozinho.
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