Um "gestor profissional". É assim que se define Arcione Viagi, o segundo entrevistado da série com os candidatos à reitoria da Unitau (Universidade de Taubaté). Confira abaixo a íntegra da entrevista.
Quais as principais propostas do senhor para a Unitau?
Nossas propostas foram elaboradas com base na transparência, tratamento com respeito a todos os servidores, professores e alunos, focando na principal atividade da Unitau, que é a formação dos estudantes que confiaram a nós a sua profissionalização e destino pessoal:
-Retomar o equilíbrio financeiro, sem o qual não podemos garantir a sustentabilidade da Universidade de Taubaté;
-Gerir com responsabilidade e zelo pelo patrimônio público;
-Implantar orçamento participativo;
-Fazer revisão de todos os contratos de prestação de serviços e concessionárias para identificar oportunidades de redução consciente de custos;
-Fazer um estudo de cargos e salários para comparar nossa situação com o mercado e tomar as providências para resolver as distorções;
-Implantar um plano de carreira docente, respeitando a meritocracia e valorizando aqueles que atuam diretamente com a formação nos diversos departamentos;
-Avaliar cada curso para identificar suas peculiaridades e necessidades, para dar tratamento às prioridades elencadas por cada realidade individual;
-Atuar para reduzir a dispersão física da Unitau de 20 para 3 locais, visando a redução de custos e a maior integração dos cursos;
-Melhorar a segurança física dos departamentos;
-Garantir a presença dos gestores nos locais e horários em que as atividades de ensino estiverem sendo desenvolvidas;
-Promover a integração da graduação, extensão e pós-graduação;
-Desenvolver convênios com órgãos públicos municipais, estaduais e federais para integrar atividades de extensão e fomentar a prática profissional dos alunos;
-Atuar no estímulo ao empreendedorismo e no ingresso dos formandos no mercado de trabalho por meio de parcerias com empresas privadas;
-Desenvolver parcerias com instituições internacionais para aumentar a presença da Unitau no mundo;
-Ampliar o canal de comunicação com os DAs, CAs e DCE, para receber reivindicações, dialogar, responder as demandas;
-Criar um sistema de financiamento estudantil sustentável;
-Criar um programa de atração de talentos esportivos para a Unitau;
Tudo isso tendo como pano de fundo que a Instituição deve ser forte e que os professores e servidores sintam a importância de seu trabalho para o futuro da Unitau, garantindo o tratamento de todos os envolvidos com igualdade, respeito, ética e transparência.
Por que se considera preparado para assumir o comando da universidade?
Além de ser o segundo candidato a reitor com mais tempo de serviço na Unitau, cerca de 29 anos, tive uma carreira paralela na iniciativa privada e, para estar preparado para atuar na gestão em altos cargos, constatei que precisaria ampliar minha formação.
Era engenheiro mecânico e vi que o caminho seria continuar estudando para preparar-me para novos desafios. Fiz duas pós-graduações, uma em gestão financeira e outra em gestão de produção e operações industriais. De imediato tive o reconhecimento e passei de engenheiro para encarregado e, em seguida, para chefe de seção.
Mais à frente, já atuando como gerente na Votorantim Celulose e Papel, iniciamos um projeto para transformar a empresa em uma World Class Company, ou seja, uma empresa com padrões competitivos internacionais, e passei a atuar em vários projetos, como: reengenharia, planejamento estratégico, ampliação da produção, modernização tecnológica, governança corporativa e marketing industrial.
Devido a isso, além de atuar diretamente na condução desses projetos, resolvi fazer mestrado em Comunicação e Mercado para obter formação adequada para atuar em marketing. Em 2008, já fora da iniciativa privada, fui indicado para fazer doutorado em Gestão de Produção no ITA, em São José dos Campos, e em 2014 fui indicado pelo meu orientador para fazer pós-doutorado na Itália, com fomento da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do governo federal.
Hoje é natural que um profissional se prepare para poder assumir cargos mais altos na hierarquia de empresas porque não existe tempo para aprender fazendo, a concorrência é muito profissional e preparada. Na Unitau temos cursos de Gestão de Negócios em nível de graduação e pós-graduação devido a essa característica do mercado e já chegamos a ter perto de 3000 alunos nessa área a não mais que oito anos atrás.
Tenho currículo, tanto na academia quanto na iniciativa privada, com resultados significativos que me habilitam a ser candidato a reitor do 11º orçamento do Vale do Paraíba, sendo maior que 29 das 39 cidades do Vale. Além disso, precisamos lembrar que a Unitau já teve o quarto maior orçamento do Vale, atingindo 50% do total da cidade de Taubaté.
Sou gestor profissional, tanto no que tange a formação quanto a prática.
Em 2014, o senhor fez parte do grupo que atualmente comanda a Unitau. Por que deixou o cargo de pró-reitor?
Em 2002, quando fui conselheiro do Consuni (Conselho Universitário) por dois mandados, fui convidado pelo Dr. Nivaldo Zöllner, reitor na época, para integrar uma equipe de planejamento ligada ao vice-reitor, professor Luciano Marcondes. Desde então, comecei a enxergar os problemas de gestão na Unitau e sempre procurei analisar os fatos e enxergar consequências. Tentei alertar a Lucila [Junqueira Barbosa], quando reitora, que estava indo pelo caminho errado na condução das ações. Também em mais de uma vez me expus e fui até o José Rui [Camargo, ex-reitor] para dar minhas contribuições. Em 2013, fui convidado para ser pró-reitor de Administração, cargo que tem a responsabilidade de ordenar as despesas da universidade. Assumi, no segundo semestre de 2014, já sem recursos financeiros e tendo que cortar os gastos para garantir os pagamentos dos contratos e da folha de salários.
Não tive apoio para atuar como gestor e zelar pelo patrimônio público e pela efetiva execução das atividades descritas em nossas responsabilidades. Todas as propostas elaboradas foram ignoradas, rejeitadas ou boicotadas. E meus pares se eximiram em relação a isso. Fui difamado publicamente porque queria fazer o certo e não fui sequer defendido pela administração superior da qual eu fazia parte. Eu sentia que não estava ali por decisão da administração, mas como uma forma de demonstrar ao prefeito que havia interesse em mudar a realidade da Unitau.
Por sorte, pude sair de cabeça erguida. Eu tinha recebido a carta da Capes, em outubro de 2014, dizendo que eu deveria decidir e providenciar a documentação para iniciar o pós-doutorado na Itália até junho de 2015. Eu nem divulguei porque eu não ia aceitar o convite, queria fazer as mudanças necessárias para nossa Unitau. Dado essa decisão, eu não poderia ceder às pressões para “deixar tudo como estava”. Eu estava fazendo um sacrifício e não poderia ser em vão.
No final do ano, enviei alguns pagamentos para avaliação da procuradoria jurídica para ter parecer quanto à possibilidade de executá-los. Somado a outras ações reguladoras, fui isolado, e deixei de ser chamado para algumas reuniões. Senti que seria desligado da função, quando em janeiro, apesar de trabalhando, não fui chamado para substituir outros pró-reitores que entraram em férias.
Em uma sexta-feira à tarde recebi uma ligação para uma reunião na segunda as 8h da manhã e, quando perguntei o assunto para preparar algum documento, obtive resposta de que seria particular. Naquele final de semana percebi que seria exonerado e tive que montar estratégia para não sair como incompetente. Decidi aceitar o convite e ir estudar na Itália, caso se confirmasse a expectativa de que seria exonerado, apesar de ter que ir sozinho porque não seria possível minha família me acompanhar, e ficando também longe da Unitau. Minha percepção se confirmou e apresentei a proposta de pós-doutorado, que foi aceita prontamente.
O senhor acha que a atual gestão obteve algum avanço? E o que teria feito diferente se já fosse o reitor?
Eu percebo que todos são bem-intencionados e, apesar de haver pessoas que têm dúvidas em relação a isso, eu parto do princípio de que as pessoas são honestas, mas gostam do poder. A crise leva à evolução e acredito que todos os envolvidos precisaram superar suas limitações para resolver problemas.
Eu acredito que a principal ação da administração atual, que tem sido responsável pela manutenção orçamentária, tenha sido o aumento da mensalidade de alguns cursos com grande procura, em especial o curso de Medicina, que também teve 50% de aumento de vaga. Ou seja, a mudança tem sido responsável pela entrada anual de cerca de R$ 5 milhões a mais na arrecadação, passando de R$ 17 [milhões] para R$ 50 milhões quando completar o ciclo. Uma arrecadação sem inadimplência e perene, que tem compensado perdas em outros setores.
Porém, faltam poucos semestres para completar os 720 alunos no curso e igualar as mensalidades no valor atual de cerca de R$ 6.000, e esse aumento de receita deixará de compensar as perdas.
Assim, se eu fosse reitor, teria aproveitado o aumento na arrecadação para promover mudanças significativas no sentido de equilibrar financeiramente a Unitau, alavancando a retomada do controle sobre nosso futuro. Foi uma mudança que teve início, meio e está chegando perto do fim em termos de aumento de arrecadação, e as ações precisam ser urgentes.
Temos uma gestão cara e precisamos repensar nossa missão e estrutura administrativa, solucionar o problema do achatamento salarial para motivar nossos colaboradores, enxugar pró-reitorias e atividades comissionadas, rever a estrutura operacional e administrativa de nossas pós-graduações, mudar as prioridades onde os recursos são utilizados.
Segundo Hammer, Champy e Prahalad, em sua pesquisa e obra publicada na década de 1990, as organizações com o passar dos anos vão acumulando gordura e perdendo o foco das suas atividades principais. Por isso, de tempos em tempos, devemos repensar nossa missão e focar nos processos que agregam valor, diminuindo a máquina administrativa para não ser um fardo a ser carregado pela produção.
Eu acredito que é o nosso caso e precisamos repensar toda a estrutura da Unitau, considerando sempre a valorização dos servidores em geral, por meritocracia.
A Unitau tem um orçamento superior a R$ 200 milhões por ano, e mesmo assim apresenta problemas estruturais em seus departamentos. Como solucionar isso?
Apesar do orçamento de R$ 200 milhões, cerca de R$ 50 milhões não são arrecadados pela Unitau e são específicos para custear o convênio firmado com a prefeitura para promover a educação integral do município. Do restante, cerca de R$ 100 milhões são utilizados para pagar pessoal e encargos, R$ 12 milhões amortização da dívida. Existem outras despesas correntes que somam R$ 37 milhões, que precisam ser trabalhadas para encontrar alternativas para reduzi-las. De forma a poder aumentar o atual valor previsto para investimentos, da ordem de R$ 1 milhão.
Nosso foco será detalhar cada despesa, em especial o montante de R$ 37 milhões descrito acima, e verificar quais podem ser otimizadas para gerar o superávit necessário para retomar o equilíbrio financeiro e nossa sustentabilidade. Dessa forma, poderemos atuar na solução dos problemas estruturais de cada departamento.
O senhor defende a proposta de um campus unificado?
Atualmente, pensamos ser mais fácil e rápido unificar por áreas: Exatas, Humanas e Biológicas, e por isso colocamos em nossa proposta. Mas, quando tivermos acesso às informações e avaliarmos as possibilidades, podemos identificar melhores alternativas e mudar a proposta para campus único. Hoje, temos alto custo operacional e de manutenção devido à dispersão e à idade de nossos prédios. Existem tecnologias disponíveis para construções sustentáveis e de menor custo. Nossos concorrentes têm a vantagem de ter quase a nossa quantidade de alunos e operar de forma mais eficiente e barata. Essa é uma necessidade para diminuir nossos custos e poder direcionar nossos recursos para as atividades fins que estão relacionadas à graduação, extensão e pós-graduação.
Nos últimos anos, a Unitau tem encontrado dificuldades para preencher as vagas disponíveis nos vestibulares. Como atrair mais estudantes?
Primeiro, precisamos elaborar uma estratégia de marketing perene e concreta. Ao longo do tempo, utilizamos pouco os meios de comunicação e abrimos espaço para concorrência. Não é fácil concorrer com instituições de atuação estadual ou em todo o Brasil e que têm arrecadação que permite fazer campanhas nacionais. Mas, sem fazermos nada, estaremos a mercê do acaso e dependendo somente do nome forte que a Unitau tem no mercado. Temos cursos mais estruturados e com maior reconhecimento e precisamos fazer isso chegar até aqueles que procuram opções para sua formação. Temos a vantagem de sermos vistos como uma instituição responsável e dedicada à formação de profissionais de qualidade para o mercado, porém precisamos fazer mais pessoas pensarem assim porque atuamos em uma atividade que não se faz comparações. Quem estuda na Unitau conhece a nossa realidade e tem expectativas em relação às outras, mas não as conhece efetivamente. O inverso também é verdade.
Por outro lado, temos que oferecer vagas em horários alternativos com redução no preço da mensalidade. Temos ociosidade em inúmeros prédios que só têm atividade à noite e limitamos a possibilidade de oferta de aulas para professores, porque em cursos que têm somente aulas à noite o professor tem menos possibilidade de dar aulas e tem sua atribuição limitada a 4 horas-aula nos 5 dias da semana, totalizando 20 de um total de 40 que poderia dar.
Também temos que investir para crescer mais ainda a nossa oferta de cursos na modalidade EAD, porque é uma tendência não só brasileira, mas universal.
Quais as propostas do senhor para o quadro de servidores administrativos e de professores?
Em primeiro lugar, tratar todos com dignidade e transparência. Tenho dado mostras de que não fugirei do debate em torno das questões polêmicas, como reposição salarial e incorporação do abono. Em gestão se diz que os problemas têm que ser resolvidos com estudo e tomada de decisão. Não podem ser adiados porque crescem, e esse é o caso, por exemplo, do abono. Foi criado para resolver um problema momentâneo e não tiveram coragem de encerrar sua utilização nem assumir que deveria ser incorporado, adiando a solução e criando um problema maior que é a desmotivação de todos os envolvidos, servidores e professores. Além disso, virou um problema também junto ao IPMT (Instituto de Previdência do Município de Taubaté), que questiona se o valor deva ser considerado em termos de aposentadoria.
Queremos acabar com o uso de tratamento diferenciado para quem é “amigo”. Ttodos devem ser tratados com igualdade e não precisam ser submissos ou fazerem favores. Devem se dedicar às suas atribuições.
Queremos entender o papel da Funcabes e as implicações relativas aos benefícios dos servidores e professores.
Vamos solicitar um estudo de cargos e salários logo que assumirmos a reitoria para termos o quadro geral da situação atual e podermos atuar rapidamente com um plano consistente para solucionar os problemas de forma transparente e participativa. Todos devem saber o que podemos e o que não podemos fazer.
Queremos ainda trabalhar para deixar claro que nossa administração é profissional e voltada para o bem de todos, não existe razão para temer em relação à nossa forma de gerir, como querem fazer acreditar meus opositores. Basta consultar o relato das pessoas que efetivamente trabalharam comigo e tiveram suas vidas mudadas com as minhas orientações e ajuda.
Estudei muito e coloquei em prática em situações de extrema complexidade e forte concorrência, tendo resolvido problemas e criado novas alternativas para todos a minha volta, de forma que na Unitau, que é minha casa nos últimos 40 anos, não será diferente.
Precisamos resgatar o orgulho de estudar e trabalhar na Unitau.