Quando criança, Janaína de Figueiredo percebeu que pouco se falava dos símbolos de sua fé, o Candomblé. Mas foi quando tornou-se adulta que viu que era ainda mais grave: o seu espaço de pertencimento religioso era alvo de inúmeros preconceitos.
Nascida em São Sebastião, município do Litoral Norte, a hoje doutora em antropologia dedica-se há anos ao estudo da vinda do povo africano ao Brasil, suas tradições, incluindo cultura e religiosidade. E entendeu a razão de tanto preconceito: desconhecimento.
Até que, ao tornar-se mãe, viu que era hora de mudar essa realidade, ao menos para as crianças de sua família.
Sua estreia na literatura infantojuvenil foi em 2015, com "O Fuxico de Janaína" (Aletria), obra produzida em parceria com seu pai, o sacerdote Tata Kajalacy, e a ilustradora Paulica Santos. A obra tem como mérito tocar num dos mais difíceis assuntos de forma leve: o universo afro-religioso.
A história, resgatada de relatos orais do povo angolano, traz Janaína, moça metade água, metade tempestade. Filha de Kaitumba, dona das águas salgadas, e Matamba, senhora dos ventos, ela representa o sincretismo e transita por tradições culturais.
"A leitura produz sentidos. No ato de ler, crianças e adolescentes constroem-se a si próprios. A leitura é fonte de afeto, conhecimento, criatividade e saber. Transita entre o imaginário e o real, entre aquela cultura tão distante e a sua", defende a autora, dona de uma narrativa delicada e poética.
"A obra foi muito bem recebida pela crítica, e foi selecionada para o catálogo da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), participante da feira de Bolonha, na Itália", contou ela.
LANÇAMENTOS.
Empolgada com o resultado do primeiro trabalho, Janaína acaba de lançar o seu segundo livro: "Nós de Axé", também pela editora Aletria.
"O texto é uma homenagem à Bahia. Trabalhei no título, um tema clássico da literatura infantil: objetos mágicos. Mas, em vez de capa mágica ou varinha de condão, trouxe a fitinha do Senhor do Bonfim. A história entrelaça a protagonista com a sua fitinha", contou.
E tem mais, daqui 15 dias haverá nova obra da autora nas livrarias: "Meu avô é um tata" (Pallas). Mas afinal, o que é um tata? "É esse o mistério que envolve a narrativa. O livro mostra um vovô muito diferente e intrigante", adiantou Janaína.
DIVERSIDADE.
Ainda que toque em temas do universo afro-religioso, não se trata de livros religiosos. "Eu entro nos temas sempre pelo viés da cultura. Trato de tradições, mas estou sempre focada na literatura infantojuvenil", disse.
Preconceitos? "É natural que, infelizmente, esbarremos nele. Mas, como antropóloga, parto do pressuposto de que textos abrem janelas. Então ele é para ser lido por todos, principalmente por aqueles que nunca viram sua fé representados, como eu na infância, e pessoas que transiram pelo universo afro-brasileiro", disse.
"Os livros são a minha forma de contribuir para a construção de um mundo melhor, diverso, de respeito e paz", concluiu.
Livraria.
Os livros da autora estão disponíveis nas livrarias e custam R$ 41 ("O Fuxico de Janaína") e R$ 42 ("Nós de Axé"), segundo o site da editora Aletria. O "Meu avô é um Tata" ainda não teve seu valor divulgado..