Escrito em 1937, "Ratos e Homens", de John Steinbeck (1902-1968) tem sua narrativa ambientada na Grande Depressão de 1929, crise econômica que persistiu ao longo da década de 1930 e terminou apenas com a Segunda Guerra Mundial.
Vinte anos depois de seu lançamento, o espetáculo ganhou uma tradução brasileira de peso, em 1957, no Teatro Arena, com direção de Augusto Boal e a participação de dois jovens atores: Gianfrancesco Guarnieri e Milton Gonçalves.
Agora, 60 anos depois da peça de Boal e 80 depois do lançamento do texto original, o espetáculo ganha novo fôlego, com Ricardo Monastero, Ando Camargo e grande elenco em "Sobre Ratos e Homens", em cartaz nesse final de semana no teatro Colinas, de São José.
Na trama, dois amigos: George, astuto e determinado, e Lennie, dotado de enorme força física, mas com algum atraso intelectual e uma tremenda ingenuidade.
Bem diferentes no jeito de ser, eles têm um mesmo sonho: juntar dinheiro e comprar um pedaço de terra onde possam finalmente viver.
"Eu e Ando somos amigos há muitos anos. Conversávamos sobre fazer algo juntos e ele sugeriu esse texto. Fui em busca da obra, me apaixonei de imediato e decidi que iria produzir", contou Monastero, que além de atuar na peça, fez a sua tradução.
Ainda no enredo, a única mulher - vivida pela atriz Natália Rodrigues - é Mae, esposa de Curley, filho do patrão da dupla de amigos. Ardilosa, ela joga charme com o objetivo de persuadir e desestabilizar a ordem dos funcionários da fazenda. É sobre ela que está o conflito da trama.
"É uma história que fala de sonho, de amizade, da possibilidade de construirmos uma realidade melhor baseada na realização coletiva", afirmou o Monastero, que, para compor a peça, buscou conhecer as antigas adaptações.
"Sem dúvida busquei essa referência. Eu trabalhava na Cia. do Latão no início do projeto e estive bem próximo do Instituto Boal pela parceria com eles", contou. "Não tive acesso ao texto realizado pelo Teatro de Arena, mas consegui encontrar fotos e notícias. Foram efetivamente materiais de inspiração e que destacaram ainda mais a responsabilidade em realizar esta obra reconhecida mundialmente".
PÉ NA REALIDADE.
Para o ator, a peça volta aos palcos num oportuno momento, uma vez que seu texto dialoga com a situação atual do Brasil.
"Sem dúvida, nosso momento atual é bem deprimente. Acredito que quem estiver na plateia do teatro, identificará inúmeras semelhanças com esse quadro atual do nosso país. Mas não há uma tentativa de trazer a peça para a atualidade. Assim, é impressionante ver que o texto de 1937 é tão atual nos dias de hoje", disse.
"Num momento em que o poder público, que rege nosso país, zomba do poder de transformação da nossa coletividade com mandos e desmandos repletos de interesses pessoais, nada melhor que realizar uma obra conjunta para falar da possibilidade de uma realidade melhor", continuou.
Ainda segundo ele, "é preciso que saibamos que a cultura é coletiva, que o teatro só acontece junto ao público, antes disso temos só ensaios". "O teatro fortalece nossa coletividade, nosso pensamento de comunidade, nossas reflexões. Estou convencido de que só é possível realizar algo realmente transformador enquanto estivermos juntos"
SERVIÇO.
"Sobre Ratos e Homens", em cartaz neste sábado (5), às 21h, e domingo (6), às 19h. O teatro Colinas fica na av. São João, 2.200. R$ 60 (inteira).