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Com chancela de Cassiano Ricardo, jornalista lança 'Entre o zero e o nada'

Por Paula Maria Prado@paulamariaprado |
| Tempo de leitura: 3 min
capa cultura
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"Os seus poemas, como já lhe disse, me agradaram bastante. Quando publicará seu primeiro livro?" questionou Cassiano Ricardo em uma carta de abril de 1966 endereçada ao jornalista Roberto Wagner de Almeida, de São José.

Os dois eram amigos desde a déc. de 1950. E se conheceram quando este, trabalhando como repórter, foi a São Paulo entrevistar o ilustre joseense. Tempos depois, criou coragem e levou alguns trabalhos para apreciação do "imortal". "Você é poeta!", cravou o literário.

"Continuo a espera do seu primeiro livro e estou certo de que você (...) terá o êxito que merece", cobrou o poeta em julho de 1967. Na ocasião, Almeida pensava se publicaria ou não "Plataforma Zero", que estava pronto dentro de sua gaveta.

"Pela sua carta, vejo que resolveu adiar a publicação do seu 1º livro. Não sei se fez bem, uma vez que um trabalho de estreia nunca é coisa que exija tanta perfeição", bronqueou Cassiano em sua última carta, sem data.

Mas Almeida é teimoso. Ou perfeccionista. Ou teimoso e perfeccionista! Fato é que o jornalista finalmente atendeu aos pedidos de seu ilustre amigo e, 51 anos depois da primeira carta, lançou no último final de semana na Flim (Festa Literomusical), em São José, "Entre o Zero e o Nada", pela Netbooks, seu primeiro livro de poesia.

Por que só agora? "Não sei. Tomara que não seja por demência senil", disse o poeta bem-humorado. "Que sentido faria eu acrescentar mais um livro aí, se há tanta coisa melhor para as pessoas lerem?", chegou a questionar nos tempos de outrora, quando ignorando as súplicas do poeta joseense, engavetou "Plataforma Zero", "Demolição" e até mesmo "Inquérito", obra que recebeu em 1969 Menção Honrosa no Prêmio Governador do Estado de S. Paulo com os originais.

PRÁXIS.

Almeida comprova sua teimosia em reconhecer seu próprio talento quando, participante do grupo de Poesia Praxis, liderado por Mário Chamie, teve um poema - "Porto" - publicado no 2º vol. de "Antologia dos Poetas Brasileiros - Poesia da Fase Moderna", com textos pós-Modernistas, selecionados por Manuel Bandeira e Walmir Ayala.

"Tenho plena consciência de que isso só ocorreu devido à importância que se atribuía, dentre as várias vertentes de poesia de vanguarda, à Poesia Praxis que eu integrava", comenta o escritor.

"Sirva como prova de sinceridade o fato de eu não gostar daquele poema, eu o ter deixado fora deste livro que agora publico", completa, definitivamente, perfeccionista.

ANTES AGORA...

"Entre o Zero e o Nada", traz poesias da época de Cassiano Ricardo e tantas outras produzidas ao longos de meio século, incluindo a sua fase Vanguardista, provocações satíricas e poemas atuais. O resultado: um belo livro para se ter em casa, daqueles para ler eventualmente, abrindo-o em qualquer página.

"Agora não me prendo a métodos, escolas ou estilos. Escrevo do jeito que me dê vontade, em cada momento".

"Valerá a pena eu estar publicando, antes tarde do que nunca, meus poemas em livro? Ou melhor seria se eu persistisse no antes nunca do que tarde?", questiona o poeta na introdução da obra. Bom, essa resposta só o tempo trará. Cassiano certamente diria: não há nada a temer.

"Um trabalho de estreia nunca é coisa que exija tanta perfeição. Mesmo os que lhe seguem são, como você sabe, marcos de uma escalada necessária, em que vamos discordamos de nós mesmos na permanente procura disso que se chama poesia. Já por si mesma uma procura atormentada".

"E larga de teimosia, homem", acrescentaria o imortal joseense, se lhe permitissem quebrar o decoro..

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