Um avião de papel.
Não há brincadeira melhor para um garoto sentir o desejo de voar. Sem esquecer de pipas e papagaios.
Nas ruas de Bauru, em 1943, ao lado do amigo Zico, o estudante Ozires Silva, de 12 anos, imaginava aviões e os fazia de papel e de sonhos. Os dois voavam num avião imaginário construído no Brasil.
Para eles, o país deveria se inspirar no legado de Santos Dumont (1873-1932), o ousado brasileiro que deslumbrou Paris com suas façanhas aéreas.
A vida segue e o jovem Ozires vê na carreira militar a melhor maneira de se aproximar dos aviões -- país não formava engenheiros aeronáuticos no final dos anos 1940. Ele ingressa na FAB (Força Aérea Brasileira) e torna-se piloto. O sonho de construir aviões repousa por 15 anos. Mas quis o destino que, em 1958, acordado por um major às 3h da madrugada na base do Galeão, no Rio de Janeiro, Ozires encara uma missão que mudaria sua vida.
Instrutor do Correio Aéreo Nacional, ele soube por esse major, durante o voo, da existência do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), em São José dos Campos, e que lá se formavam engenheiros aeronáuticos.
"Ele era aluno do ITA e perguntei o que era o ITA. Ele me falou que poderia fazer o curso. Entrei no avião como oficial da FAB e desci como engenheiro", conta Ozires.
Após o diploma de engenheiro aeronáutico, em 1962, Ozires ingressou no Departamento de Aeronaves do IPD (Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento), vinculado ao então CTA (Centro Técnico de Aeronáutica) --hoje DCTA--, em São José.
Trabalhando com manutenção de aviões da FAB, Ozires notou a falta de uma aeronave de transporte moderna, robusta e que pudesse voar rotas regionais de baixa demanda.
"Fora da concorrência, ele deveria ser um avião que outros não acreditassem que fosse viável para ser feito. Um avião diferente, que ninguém quisesse fazer. De menor porte, forte e que restabelecesse o tráfego aéreo nas pequenas cidades", diz Ozires sobre o que depois viria a se tornar o projeto IPD 6504.
Entre 1965 e 1966, Ozires estudou na Caltech (California Institute of Technology), nos Estados Unidos. Voltou disposto a projetar um avião no Brasil, meta que esbarrava em interesses contrários.
Cercou-se de profissionais no CTA e superando o pouco dinheiro e sem apoio oficial, Ozires e sua turma projetaram e construíram o Bandeirante, que voou em 22 de outubro de 1968. No ano seguinte surgiu a Embraer para construir o avião em escala industrial.
"O avião decolou às 6h15 da manhã e foi uma emoção enorme. Nossa equipe deveria ter umas 50 pessoas. E o pessoal todo gritando, pulando e se abraçando. O nosso avião tinha saído do chão", conta.
Ozires presidiu a Embraer até 1986, quando saiu para ser presidente da Petrobras, até 1989. Em 1990, assumiu o Ministério da Infraestrutura e, em 1991, retornou à Embraer, conduzindo a empresa no processo de privatização, concluído em 1994. Também dirigiu a Varig entre 2000 e 2002. A partir daí, focou sua carreira na educação.n