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'O Brasil perdeu timing da vacina', afirma médica pesquisadora da Fiocruz

Por Xandu Alves@xandualves10 |
| Tempo de leitura: 4 min
(São Paulo - SP, 15/12/2020) Visita técnica à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP)..Foto: Alan Santos/PR
(São Paulo - SP, 15/12/2020) Visita técnica à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP)..Foto: Alan Santos/PR

Médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Margareth Dalcolmo vê o país atrasado em ao menos seis meses no plano da vacina contra a Covid-19, a maior crise sanitária mundial em 100 anos.

E o principal problema é a falta de liderança do governo federal, que se perdeu em discussões e deixou de trabalhar em um plano nacional de vacinação desde o primeiro momento, mesmo o país sendo referência mundial nessa área. "País perdeu o timing da vacina", disse a pneumologista durante o programa Roda Viva, da TV Cultura.

Segundo ela, mesmo com vacina, a pandemia em 2021 pode ser tão ruim ou até pior no país do que foi em 2020.

"O que vai trazer a segunda onda para o Brasil são as festas de Natal e de fim de ano. Teremos o janeiro mais triste da nossa história porque nós falhamos em trazer uma consciência cívica da gravidade do que estamos vivendo", disse.

OVALE participou de seminários na internet com a participação de Margareth Dalcolmo sobre a Covid-19 e compila as principais posições dela sobre o assunto. Confira:

O governo brasileiro se preparou para vacinar a população em 2021?

O Brasil está atrasado há pelo menos seis meses com o plano para a vacina contra a Covid-19. Deixamos de tomar providências do ponto de vista logístico, que poderiam ter sido iniciadas antes. Se sabemos que as vacinas começaram no período recorde de 8 meses, há 6 meses nós já deveríamos estar pensando, considerando a grande experiência do Programa Nacional de Imunização brasileiro, deveríamos estar nos preocupando, quase um problema doméstico. Você se previne estocando agulhas, seringas, e mais uma rede de frios absolutamente pronta para receber qualquer vacina.

Há como reverter?

Nós precisamos de uma Revolta da Vacina ao contrário. Hoje, ao contrário do que aconteceu naquela época, precisamos que a população compareça. Não é possível que o Rio de Janeiro e as demais capitais brasileiras não vão ter vacina por não ter um freezer que a mantenha a -80 graus. Os empresários vão botar freezer. Tem que fazer a diferença.

E como será a vacinação em 2021 no país e no mundo?

Primeiro que o mundo não será capaz de produzir a quantidade de vacinas suficiente para imunizar toda a população em 2021. As vacinas nós já sabemos que não haverá para todo mundo, não é só no Brasil. Mesmo com as boas intenções e eficiência do sistema Covax [coalizão de 165 países para garantir vacina contra a Covid], que é o que asseguraria uma certa equidade em relação a isso. Mesmo assim, somando todas as vacinas que serão produzidas em 2021, independente do fabricante, todo o mundo teria 2,7 bilhões de imunizantes. A população mundial é de cerca de 8 bilhões de pessoas.

A cobertura vacinal está caindo no Brasil nos últimos anos. Isso pode prejudicar a imunização contra a Covid?

Acho que o momento é de recuperação da cobertura. Nos últimos 20 anos, nós nos orgulhamos muito das taxas de cobertura de vacinas fornecidas pelo SUS, que tem quase duas dezenas de vacinas gratuitas. O que houve foi essa queda na cobertura do sarampo, provocada por estes movimentos antivacinas, que não prosperaram muito no Brasil, mas tiveram algum impacto. Considero marginais e quase criminosos essas pessoas, é como eu as vejo. Uma vacina como a BCG é dada a todo recém-nascido, na maternidade, a cobertura era de 100% e foi assim durante muito tempo. Houve sucateamento num certo sentido de serviços do SUS e foi um pouco responsável por isso, além da desinformação e a falta de acesso. Mesmo as vacinas existindo e sendo gratuitas, o serviço de distribuição tem que funcionar.

A exigência das escolas de as crianças terem o cartão de vacinação preenchido é uma medida altamente defensável. Tudo isso vai ter que ser recuperado. A expectativa toda gerada pela esperança de ter vacina contra a Covid nos próximos meses pode recuperar essas taxas.

Caberá ao governo e aos órgãos de comunicação trabalhar nesse sentido de aumentar essa demanda e recuperar essas taxas que foram perdidas.

Há ataques contra a Coronavac, a vacina feita pelo Instituto Butantan em parceria com a China. Como a sra. vê?

Temos duas epidemias. A do vírus e a outra da quantidade de tolices que ouvimos.

As vacinas não vão causar nada disso do que dizem. Não vai ter implantação de chip no cérebro e nem em nenhum lugar do corpo. Cabe a nós esclarecermos isso com paciência. As vacinas serão seguras.

É um grande desserviço [as fake news]. Nada disso é verdade e não houve nenhuma morte atribuída, até o momento, a vacinas. Poderia haver.

Outra coisa é a segurança e o rigor com que o ensaio de fase três é conduzido. Em vacina, o rigor é ainda maior. Isso será acompanhado.

No Brasil, temos experiência muito boa de vacinas e há uma credibilidade enorme com relação a vacinas. 

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