A disseminação de notícias falsas sobre vacinas é um ato criminoso e irresponsável.
Direto e objetivo, o professor do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e membro da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Carlos Dias, defende a ciência dos ataques negacionistas e diz que a vacina contra o coronavírus não pode virar disputa política.
"O presidente não pode decidir se a vacina é boa ou não para a população. O governador de São Paulo não pode marcar data de início para vacinação", diz ele ao Gabinete de Crise de OVALE. Confira:
Cresce o movimento antivacina no Brasil. O que houve?
O movimento antivacinas é irresponsável e criminoso. No ano passado, nenhuma das vacinas básicas teve meta alcançada pela primeira vez. Quando você deixa de se vacinar, deixa de gerar imunidade coletiva, de rebanho, que é o que protege as pessoas vulneráveis.
O movimento antivacinas, o extremismo religioso, a instabilidade política, o populismo, as fake news e questões como segurança podem prejudicar as campanhas de vacinação em massa e a confiança nas vacinas em países com esses problemas.
O que a ciência deve fazer?
Precisamos ter informação científica de qualidade disponível, didática, acessível, com linguagem clara para combater o movimento antivacinas e negacionista crescente no país, principalmente neste momento de polarização política. Precisamos de pessoas que multipliquem as mensagens e informações corretas sobre a importância da vacinação contra a Covid-19.
Como combater essas fake news?
Precisamos iniciar uma campanha de engajamento e preparação da população brasileira e da infraestrutura dos SUS para combater este movimento antivacinas, não deixar crescer. É preciso incentivar e levar uma mensagem clara para a população brasileira sobre a necessidade e importância da vacinação em massa contra a Covid-19. Temos que agir em várias frentes. A tarefa será complexa, complicada e não podemos demorar para agir, se queremos evitar que os grupos antivacina comecem a espalhar mentiras e fake news nas redes sociais sobre as vacinas contra o novo coronavírus. A expansão das teorias de conspiração sobre a vacinação também se relaciona com problemas de comunicação entre pesquisadores, cientistas, médicos e outros profissionais da saúde com sociedade.
Com sua negação da ciência, Bolsonaro contribui para o aumento da epidemia no país?
Infelizmente sim. Nós já vimos isso acontecer com a defesa do uso dos medicamentos sem eficácia comprovada no combate à Covid-19 e com o negacionismo da pandemia, desde o início contra as medidas não farmacológicas como distanciamento físico, isolamento social e uso de máscaras. A politização das vacinas afronta a ciência e coloca vidas em risco. A eficácia em fase 3 deve ser baseada em decisões técnicas e independentes por parte da Anvisa, e não na origem da vacina ou em decisões e pressões políticas. O presidente não pode decidir se a vacina é boa ou não para a população, ele não entende de ciência, de eficácia das vacinas. O governador de São Paulo não pode marcar data de início para vacinação.
Como vê essa briga política em torno da vacina?
Opiniões pessoais e questões políticas e ideológicas não são mais importantes que a ciência. Este jogo político mesquinho sobre as vacinas só dá força e alimenta o irresponsável e criminoso movimento antivacinas. Esta briga política pode levar a desconfiança da população na vacinação e à queda na adesão à imunização e não teremos como alcançar a imunidade coletiva para a Covid-19. Para voltar para nossas vidas normais em segurança, precisaremos de vacinas. O mais importante é proteger a população deste vírus que já tirou mais de 160 mil vidas de brasileiros em quase 8 meses de pandemia. Precisamos confiar nos critérios científicos e na ciência. É inaceitável politizar a questão das vacinas.