Minutos depois do anúncio de que Joe Biden havia sido eleito o 46º presidente dos EUA, o atual ocupante do cargo, Donald Trump, se negou a aceitar o resultado e afirmou que vai dar início a uma série de casos para tentar contestar a vitória do democrata, mesmo sem indícios de irregularidades na votação e na apuração.
Em comunicado, afirmou que Biden está "falsamente posando como o vencedor", e que contaria com o apoio da imprensa nos EUA — o resultado foi projetado por todos os grandes veículos de comunicação dos EUA, inclusive pela Fox News, vista como alinhada ao republicano mas alvo de críticas nos últimos dias.
Ele ainda alegou que Joe Biden não foi oficialmente declarado vencedor em nenhum estado, apenas pelas projeções da imprensa, um processo que é natural nas eleições dos EUA e que não foi contestado por Trump em 2016. Indo além, o presidente afirmou que seus observadores tiveram o acesso aos locais de apuração negado, o que foi levado por ele à Justiça nos últimos dias, e anunciou que, a partir de segunda-feira, vai entrar com contestações ao resultado nos tribunais.
No texto, Trump repete o discurso de "votos legais" e "votos ilegais", se referindo a cédulas recebidas depois do fim da votação, uma prática aceita por muitos estados, inclusive a Pensilvânia. Ele termina com ataques ao Partido Democrata, a Joe Biden, e afirmando que não vai desistir até que "o povo americano tenha a contagem que ele merece".
Mais cedo, Trump havia alegado, no Twitter, que a votação foi marcada por fraudes, em postagens que foram sinalizadas pela rede social por terem informações enganosas:
"Dezenas de milhares de votos foram ilegalmente recebidos após as 20 horas de terça-feira, data da eleição, mudando total e facilmente o resultado na Pensilvânia e em outros estados onde a disputa é acirrada", disse o presidente, sem apresentar quaisquer evidencias. Em outro tuíte, um pouco mais tarde, afirmou que "ganhou a eleição por uma grande diferença".
Pela lei do estado, votos por correio enviados dentro do prazo poderiam ser recebidos por três dias após a eleição, entre quarta e sexta-feira. Diante da pandemia de Covid-19, um número recorde de 65 milhões de americanos optaram pela modalidade. A data limite para sua entrega foi prorrogada justamente para evitar que atrasos no serviço postal impedissem que votos legais não fossem aferidos por atrasos dos correios.
Sem embasamento
Trump também fez acusações sem provas sobre a transparência do processo, alegando que observadores republicanos não puderam acompanhar a aferição. Uma decisão da Justiça da Pensilvânia determinou que integrantes do partido pudessem estar presentes para o processo e, segundo o tribunal, a ordem vem sendo cumprida.
"Centenas de milhares de votos, ilegalmente, não tiveram sua observação permitida. Isto também mudaria o resultado da eleição em muitos estados, incluindo na Pensilvânia, que todos achavam que teríamos uma vitória fácil na noite da eleição, apenas para ver nossa grande vantagem desaparecer sem que ninguém pudesse ver o que estava acontecendo por longos intervalos de tempo", disse o presidente.
Segundo autoridades da Pensilvânia, os votos nesta categoria estão na casa dos milhares, e não das dezenas de milhares, e provavelmente não farão quaisquer diferenças no resultado final. Em uma entrevista à CNN, a presidente da Comissão Federal de Eleições, Ellen Weintraub, disse, assim como a OEA e uma série de organizações independentes.
"Coisas ruins aconteceram nestas horas em que a transparência legal, cruel e maliciosamente, não foi permitida. Tratores bloquearam as portas e janelas foram cobertas com papelões para que os observadores não pudessem ver as salas de contagem. Coisas ruins aconteceram lá dentro. Grandes mudanças aconteceram", alegou falsamente.
A razão pela qual Trump começou a apuração na frente também e evidente e já era esperada. Votos postais, cuja adesão é maciça entre democratas, levam mais tempo para serem computados que os presenciais, com maior participação republicana. Logo, as primeiras parciais mostravam o presidente ilusoriamente na frente, em uma "miragem vermelha".
Republicanos se dividem
A campanha republicana entrou com ações judiciais para suspender a contagem em Michigan, Geórgia, Nevada e Pensilvânia, além de recontagem em Wisconsin, mas dois de seus pedidos já foram rejeitados pela Justiça. À noite, se somou mais um processo, na Filadélfia, também derrotado.
A maior vitória até o momento veio das mãos do juiz Samuel Alito, da Suprema Corte, ao determinar que os votos na Pensilvânia recebidos após 3 de novembro sejam contados separadamente. Segundo a CNN, isto não deve ser determinante no resultado. A ação é majoritariamente simbólica, pois o estado já contava estes votos separadamente e não os somava às parciais divulgadas.
As alegações sem embasamento do presidente dividem seus partidários, mas alguns dos republicanos mais influentes endossam seu comportamento. O senador Mitch McConnell, líder republicano no Senado, após alguns dias de sliêncio sobre o assunto, disse que "todos os votos legais devem ser contados" e que "todas as cédulas enviadas ilegalmente não devem. Todos os lados devem observar o processo. E os tribunais existem para aplicar as leis e resolver disputas".
Outro republicano que não fez nenhuma ressalva ao comportamento anti-democrático do presidente foi o deputado Kevin McCarthy, que defendeu Trump durante uma entrevista ao canal Fox News. Já o senador Tom Cotton, outro aliado, afirmou em seu Twitter que "os democratas vão tentar roubar esta eleição". O governador da Flórida, Ron DeSantis, por sua vez, disse enganosamente que uma contagem justa está sendo negada ao partido.
As vozes dissonantes, no entanto, chamam atenção. Em uma entrevista ao canal CBS, o senador estadual da Pensilvânia, Patrick Toomey, afirmou que o presidente faz "alegações muito, muito sérias" sem quaisquer evidências. O senador e ex-candidato à Presidência, Mitt Romney, foi contundente, afirmando que apesar do presidente ter o direito de pedir recontagem se houver evidências de fraude, este não é o caso.
"É errado dizer que esta eleição foi fraudada, roubada ou que há corrupção — fazer isso enfraquece a causa da liberdade aqui e pelo mundo, enfraquece as instituições que são o fundamento da República e irresponsavelmente inflama paixões perigosas e destrutivas", afirmou em comunicado.