Em 1981, o jornalista, romancista e imortal das Letras Ignácio de Loyola Brandão descreveu em seu livro "Não verás país nenhum" um futuro distópico, muito quente, seco e desolado, onde a natureza não mais existia. Uma nação loteada, em que o governo nega a ciência e maquia dos dados, enquanto milícias armadas fazem as vezes da polícia.
Em uma das passagens mais intrigantes do livro, Loyola anuncia a derrubada da última árvore da Amazônia.
O governo estava orgulhoso com a grande conquista. Era um feito digno dos governantes que pensam no futuro, assinalou o romancista na obra.
O governo dava ao nosso país uma das grandes maravilhas deste mundo: um deserto "centenas de vezes maior do que o Saara, mais belo (...) magnificente". Possuíamos o maior e mais bonito deserto do mundo, propagandeava o governo.
Loyola recusa o título de "profeta", mas a realidade descrita por ele neste romance de 1981 tem tantas similaridades com o Brasil de Bolsonaro que é difícil não referenciar.
E a boiada tem passado depressa.
Nesta semana, com o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) nas mãos, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, aprovou a extinção de normas importantes que regulavam a proteção de manguezais e restingas no país.
A revogação dessas regras abre espaço para especulação imobiliária nas faixas de vegetação das praias, áreas que deveriam ser alvo de mais medidas protetivas, devido ao cenário das mudanças climáticas e projeção de aumento do nível do mar.
Venceu o interesse privado e a falta de interesse do ministro em cumprir com as prerrogativas da pasta que coordena.
A deliberação do Conama chegou a ser suspensa pela Justiça, mas a União entrou com recurso e a revogação das normas protetivas voltou a ter efeito.
Daria para preencher muitas folhas a lista de medidas adotadas pela administração Federal para acabar com a política ambiental brasileira e seus sistemas de salvaguarda de proteção de nossos biomas. No entanto, a destruição no Pantanal e na Amazônia, com seus milhares de animais mortos e a vegetação devastada nos incêndios florestais criminosos, fala por si.
Desnecessário também comentar as falas recentes do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), que, como no romance de Loyola, tenta transformar uma realidade aterradora no mais belo dos quadros.
"Somos líderes em conservação das florestas tropicais", "a Amazônia não está sendo devastada", "grandes queimadas são consequências das altas temperaturas" são algumas das ideias fantasiosas proferidas pelo presidente e que, infelizmente, nos aproximam cada vez mais da realidade distópica descrita por Ignácio de Loyola Brandão.
De uma coisa nós não podemos reclamar. Estamos bem avisados..