Entre 2014 e 2020, o número de carteiras nacionais de habilitação (CNHs) emitidas com indicações de condutor que possui algum tipo de restrição visual aumentou 44%. O levantamento inédito, divulgado pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), mostrou que, atualmente, o grupo de pessoas com algum tipo de restrição de visão representa quase um terço da população habilitada para dirigir no Brasil, correspondendo a 20,7 milhões de motoristas e motociclistas.
O pais conta também com mais de 20 milhões de pessoas que não podem dirigir ou pilotar sem óculos ou lentes de contato.
São Paulo é o estado que habilitou o maior contingente de motoristas com problemas visuais no período. Foram mais de 6,7 milhões de pessoas. Minas Gerais aparece em segundo lugar, com 1,9 milhão de condutores, e Rio de Janeiro, em terceiro, com 1,8 milhão. O menor número é de Roraima, com pouco mais de 33 mil condutores com restrição.
O estudo também mostra os tipos de anotações que aparecem com maior frequência na CNH dos motoristas brasileiros. A necessidade do uso de lentes corretivas (restrição de código A) aparece em primeiro lugar, com mais de 20 milhões de condutores que não podem dirigir ou pilotar sem óculos ou lentes de contato.
Já as restrições associadas à visão monocular (código Z), ou seja, quando um dos olhos é diagnosticado com acuidade zero, aparecem em segundo lugar, com mais de 332 mil casos. Em terceiro lugar, estão aproximadamente 102 mil motoristas impedidos de dirigir após o pôr-do-sol (código U), seguido de outros 24 mil motociclistas que precisam usar capacete de segurança com viseira protetora sem limitação de campo visual (código V).
Os distúrbios mais prevalentes entre motoristas são, aponta o estudo, miopia, astigmatismo e hipermetropia. Mas doenças como catarata, glaucoma e retinopatia diabética também podem acusar um déficit visual no momento do exame, sendo posteriormente diagnosticadas nas consultas. Para José Beniz Neto, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), condutores devem buscar atendimento ao menor sinal, mesmo que não tenham restrições em suas habilitações:
— Pessoas que não têm a visão dentro daquela faixa que é exigida pelo Detran podem, sim, fazer com que tenham acidente de trânsito decorrente desse problema de visão. Uma vez que condutor detecta problema de visão, de diminuição da acuidade visual, deve procurar imediatamente o médico oftalmologista para que seja feito diagnóstico. Pode ser necessidade de óculos, inflamação dentro do olho, problemas de glaucoma, de catarata ou da retina. Tudo isso são possibilidade que um médico oftalmologista bem treinado irá diagnosticar.
Aumento proporcionalProporcionalmente, o Rio Grande do Norte é quem tem maior número de CNHs assinaladas com restrições em relação ao total de motoristas ou motociclista. No estado, 38% dos habilitados possuem algum problema de visão registrado na carteira de motorista. Na Paraíba, as anotações de restrição visual atingem 35% dos condutores do estado e, no Rio de Janeiro, 31%. Na sequência, aparecem Ceará e Alagoas, ambos com 30%. O estado com menor proporção de condutores com problemas na vista é o Acre: 17%.
Já o maior aumento proporcional no número de condutores com dificuldade para enxergar foi registrado, foi registrado em Goiás e Tocantins (73%), Roraima (71%), Mato Grosso (66%) e Acre (64%). Na última colocação está o Distrito Federal, com crescimento de 25%.
Segundo dados da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), aproximadamente 250 mil acidentes que ocorreram entre janeiro de 2014 e junho de 2019 resultaram de problemas na saúde dos condutores. Antonio Meira Júnior, presidente da Abramet, acredita que as dificuldades de visão estão entre essas causas mais comuns.
— Não há dúvidas de que muitas doenças oftalmológicas interferem numa direção veicular segura. O motorista deve perceber com precisão os elementos todos que estão na via, conseguir interpretar no cérebro essa imagem que ele vê e reagir com os comandos do veículo. O fator decisivo não é simplesmente o que se vê, mas, sim, como se reage com o que se vê — avaliou Meira Júnior, destacando os parâmetros numa avaliação oftalmológica:
— O médico do tráfego realiza quatro parâmetros: a acuidade visual, onde o condutor deve ter o mínimo de acuidade que propicie enxergar os elementos da via; o campo de visão; enxergar e reagir prontamente à luz; e reconhecer as luzes na posição dos semáforos padronizados no Brasil, que são vertical e horizontal.