Cristiane Prizibisczki*
Quem já comeu pequi sabe que ele é um fruto que não agrada a todo mundo. Seu sabor e cheiro característicos dividem opiniões, mas não há divergências quanto à sua importância para a economia, cultura, culinária e para a ecologia do centro-oeste brasileiro.
O pequi, cujo nome científico é Caryocar brasiliense, também é conhecido por outras alcunhas - assim como um certo governante que tem ganhado cada vez mais apelidos. Piqui, piquiá, amêndoa-de-espinho, grão-de-cavalo e suari são outras formas de chamar o fruto.
Típico do Cerrado, o pequi é altamente nutritivo. Sua polpa é fonte de vitamina A e E, além de beta-caroteno, e a castanha, extraída depois de a fruta ser roída, é rica em zinco, iodo, cálcio, ferro e manganês. Ele tem propriedades anti-inflamatórias e pode ser 100% aproveitado, da casca à semente.
Além de seu uso na alimentação, ainda é possível extrair do pequi óleo e azeite, fazer licores e até sabão. Ele também é utilizado na indústria cosmética e na medicina popular, para combater bronquites e resfriados. Isso sem falar nos seus efeitos afrodisíacos. O pequi é considerado o viagra do sertão.
O fruto do pequizeiro também está muito presente na cultura indígena e do sertanejo. Segundo etnólogos, ao menos duas lendas indígenas dão conta de sua origem.
Mas, apesar de todo esse vigor, um alerta: o ato de saborear o fruto é envolto em suspense. Isso porque você pode sentir, tocar, lamber, apertar, chupar, sorver, se lambuzar. Só não pode morder. Nunca. Parte da emoção de comer pequi está no perigo de encontrar os minúsculos espinhos que separam a polpa amarelo-ouro da branca semente.
A triste notícia é que bioma em que o pequi ocorre está sendo dizimado. O Cerrado é o segundo maior bioma do país, cuja extensão percorre 11 estados e o Distrito Federal. Ele é responsável pela manutenção dos mananciais que alimentam grande parte dos maiores rios do continente e local onde 30% da biodiversidade nacional está localizada.
Infelizmente, é também no Cerrado onde se encontra a chamada fronteira agrícola brasileira, responsável pela destruição de mais de 47% do bioma. Se nos últimos anos o desmatamento no Cerrado estava caindo, entre 2019 e 2020 ele voltou a crescer, com aumento de 13%, consequência da política anti-ambiental daquele que não gosta de ser comparado ao pequi.
Ainda assim, de novembro a fevereiro, período da frutificação, a fragrância do pequi toma conta do ambiente e por grande parte do centro-oeste é possível sentir o aroma forte da fruta. Em Brasília, inclusive, há pequizeiros nas vizinhanças do Palácio do Alvorada, mas não acredito que seu atual morador sê de conta disso.
Aliás, acho que este senhor nem sabe o que é o pequi e todos os seus benefícios. Se soubesse, entenderia que ser chamado de pequi-roído, para ele, é um elogio.
* Jornalista formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), alumni da Universidade de Cambridge