Surfista profissional há 16 anos, Thiago Camarão deveria agora estar treinando para competir na etapa do QS (a divisão de acesso) de Arica, no Chile. Com o cancelamento dos eventos do circuito mundial, o paulista de 32 anos, que está sem patrocinador, se viu em meio a uma nova realidade. Sem o dinheiro dos campeonatos, tem vendido pranchas, roupas e óculos, além de apelar para as economias guardadas ao longo da carreira para se manter.
Foi pensando em surfistas como Camarão, apenas um entre as centenas de competidores brasileiros afetados pela crise econômica pré e pós-coronavírus, que um grupo de atletas do Championship Tour (CT, a elite do surfe mundial) resolveu criar o "Bico Branco", um torneio virtual, mas com um componente importante: premiação real. A final será entre Thiago Camarão e o também paulista Felipe Oliveira e o público pode ajudar a escolher o vencedor até as 18h desta segunda-feira votando no Instagram da competição (confira o vídeo com as ondas no fim da matéria).
Participam da iniciativa Adriano de Souza, Filipe Toledo, Yago Dora, Jadson André, Miguel Pupo, Peterson Crisanto e Leandro Dora, o Grilo, pai de Yago e treinador responsável pela AprimoreSurf. "Eu estava conversando com o Adriano ele falou que a gente tinha que fazer alguma coisa para ajudar a galera sem patrocínio, que depende dos campeonatos para sobreviver. Assim surgiu a ideia. A resposta foi muito legal. Tivemos mais de 100 inscrições, e selecionamos 32 atletas entre competidores do QS, do circuito brasileiro e também da categoria pro júnior", explicou Leandro Grilo, que já planeja o lançamento de um torneio feminino.
O formato do campeonato era simples. Os surfistas foram sorteados em baterias inicialmente de quatro competidores e de apenas dois na reta final. Para cada disputa, precisavam enviar um vídeo com uma onda sua. A única condição era que ela tivesse sido surfada no Brasil. Os juízes foram os atletas do CT, valendo também o voto dos internautas.
Os atletas do CT contribuíram para proporcionar uma premiação total de R$ 15 mil. O vencedor do "Bico Branco" - nome que faz alusão ao bico da prancha, que fica branco quando o surfista não tem o logo de um patrocinador - embolsa R$ 5 mil. Um dinheiro que vem a calhar para quem está praticamente sem fonte de renda no momento.
"Acho muito difícil você tirar do seu bolso em um momento tão difícil e dar para um surfista. É uma atitude muito nobre da parte dos surfistas do CT. Essa verba vai ajudar e muito. Este ano fui para a Austrália competir contando com o dinheiro das premiações para pagar o cartão de crédito. Um dos eventos foi adiado e alguns dos meus apoiadores cancelaram os salários", diz Camarão, que ainda conseguiu pagar algumas contas com um adiantamento salarial de uma marca catarinense de cervejas que o apoia.