Muitos acham que o principal papel da polícia é ir prendendo quantos bandidos puder, custe o que custar, como fez a polícia de Goiás com um aparato de 300 policiais para caçar o bandido Lázaro que acabou morrendo na operação. Foram 20 dias à caça de um criminoso, com a mídia irradiando como se fosse algum tipo de gincana à busca de um prêmio, com direito a revoada de helicópteros e até a secretário da segurança com blusa camuflada dando uma entrevista coletiva no grande final do evento. Policiais comemoraram a prisão/morte e fizeram um desfile barulhento pela estrada com sirenes ligadas.
A morte desse bandido foi positiva para a segurança de Goiás? Não. Criminoso vivo é importante fonte de informações, principalmente quando há suspeita de ligações relevantes com comparsas. Nos 20 dias que duraram a operação devem ter ocorrido mais de 70 assassinatos no Estado e, pelo menos, 50 assassinos continuam à solta e deveriam estar no alvo desses policiais. O principal papel da polícia não é caçar ou prender criminosos, ainda que isso aconteça. Seu trabalho é de proteção das pessoas para que esses bandidos não atuem ou atuem o mínimo possível, até porque sempre teremos bandidos, desde que Caim matou Abel.
A intensa cobertura da televisão pode sugerir duas conclusões: 1) as tropas especiais com suas roupas e veículos de combate são essenciais para a segurança, 2) comemorar morte de criminosos cruéis é uma decorrência natural do trabalho policial. Está tudo errado: tropas especiais como unidades de choque ou de operações especiais têm papel irrelevante na contenção dos crimes, apesar de sua utilidade para cuidar de alguns problemas pontuais da segurança como uma rebelião no presidio ou num ataque de uma quadrilha a caixas eletrônicos. A maior responsabilidade na contenção e prevenção criminal é daquelas modestas patrulhas da PM que atuam nas cidades e nos bairros, onde seus policiais conhecem a dinâmica social, as características dos crimes e até as pessoas desses locais.
E tem sentido comemorar qualquer tipo de morte? Se os policiais têm compromisso com a proteção da vida, devem ser extremamente sóbrios e austeros quando ocorre um evento com morte, mesmo de um criminoso cruel e numa ação em legitima defesa do policial ou de terceiros. Nem tem sentido se dizer que o criminoso Lázaro foi mais uma das tantas vítimas da sociedade injusta que acaba produzindo pessoas com desvios como ele; Lázaro era um psicopata incorrigível, assim como o bem-nascido e bem-criado vereador Jairinho do Rio de Janeiro, envolvido na morte do enteado. Mas outro compromisso da polícia verdadeiramente profissional e competente é levar esses criminosos para o castigo da maneira correta e no lugar correto, na Justiça. E, convenhamos, matar com 38 tiros um bandido cercado por dezenas de policiais é, no mínimo, pura incompetência..