Tragédia e comédia, dois extremos que, na verdade, estão separados por uma tênue linha. Fazer rir e chorar em uma mesma peça teatral era um desafio há muito sonhado por Domingos Montagner. Era 2016.
Chamou o amigo de longa data, Fernando Sampaio, seu parceiro no grupo La Mínima, e mirou na ópera "I Pagliacci", do italiano Ruggero Leoncavallo, um drama: a história de uma trupe de palhaços que decide abandonar o circo e encarar suas origens.
No entanto, a morte repentina do ator, durante as filmagens de "Velho Chico" (Globo), naquele ano, fez com que seu sonho permanecesse guardado em breves rabiscos num caderno. Até que Sampaio chegou a conclusão: era hora de dar vazão a essa história.
Convidou Luís Alberto de Abreu, responsável pela adaptação do texto. O mote original, tão sério e pesado, serviu de fonte. O desafio foi juntá-lo a linguagem teatral circense. Números cômicos, elementos líricos e melodramáticos misturaram-se. E é o resultado desse projeto que o público do Vale do Paraíba poderá conferir no Sesi de São José neste final de semana, em sessões gratuitas.
"Não pensamos em fazer uma homenagem a Montagner. Nossa ideia desde o início é celebrar os 20 anos da La Mínima. Por outro lado, quem conhece o nosso trabalho nos palcos, percebe a mão dele na linguagem estabelecida", afirmou Sampaio.
"'Pagliacci' é uma história trágica, que fala de amor e morte. Tentamos ser fieis à obra. Abreu não se conformava de nós levarmos ao palco uma peça tão trágica. Mas desafios são sempre bacanas!", riu.
Palhaços.
"(...) uma arte exigente, que pede vocabulário e apuro técnico dos seus intérpretes, anos de prática, um profundo conhecimento da alma humana e acima de tudo, generosidade", descrevia Montagner sobre o trabalho do palhaço.
Ele era Agenor. Sampaio era Padoca. Com o acidente, a dupla de palhaços nascida do encontro dos atores no final dos anos 1980, no circo escola Picadeiro, deixou de existir. Como legado, Montagner deixou 14 projetos e o retrato de um artista exemplar.
"Nunca pensei em desistir da comemoração dos 20 anos do grupo. Não foi uma escolha racional (prosseguir), porque é uma forma de termos, continuamente, a 'presença' do Domingos, ponderando a todo momento como ele agiria nas situações - das grandes decisões até aos mínimos detalhes", afirmou no site do Sesi-SP, Luciana Lima, atriz e produtora da companhia, viúva de Montagner.
Falar sobre tragédia foi mais difícil após a morte do ator? "Não tenho certeza disso. Sei que foi um momento delicado. Passamos por um processo muito sensível, até que reunimos amigos e atores próximos e seguimos em frente. Era a hora", finalizou Sampaio.
SERVIÇO.
O Sesi fica na av. Cidade Jardim, 4389, Bosque dos Eucalíptos. As sessões ocorrem nos dias 20, 21 e 22; sexta e sábado às 20h e domingo às 19h. A entrada é gratuita. Reservas: www.sesisp.org.br/meu-sesi..