O ano de 2021 foi estupendo em diversos sentidos: continuidade de pandemia, processo de flexibilização de distanciamento e, na vida da Cia Teatro da Cidade, a efeméride de seus 31 anos coincidindo com os 35 anos do Festivale, realizado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo. Na edição, denominada Documentos Poéticos em Cena, foi focalizada a produção teatral de São José dos Campos, com trinta espetáculos considerados pela curadoria (composta por Eva Sielawa, Fernando Rodrigues, Simone Carleto e Wangy Alves, que coordena o Festivale) como Documentos Poéticos Híbridos, Documentos Poéticos Lúdicos e Lúdico-Populares, Documentos Poeticômicos. Constituiu-se assim, uma “dramaturgia" da programação, imbricando essas camadas aos dias e horários do festival.
A apresentação de peças do repertório da Cia Teatro da Cidade foram também "pontos que costuraram” os doze dias de festival: O coração nas sombras, documento poético que registra o histórico de pessoas que foram confinadas em sanatórios, remetendo a um tema contemporâneo que é a luta antimanicomial; Um dia ouvi a Lua, documento poético-lírico-popular, lidando com as memórias afetivas na construção de imaginários, lidando também com os pontos de vista femininos; e Maria Peregrina, documento poético que suscita, a partir da personagem Maria do Saco, presente em São José dos Campos, conteúdos e formas populares de cultura, estabelecendo múltiplas camadas de sentido. Todas épicas, as obras formam um tríptico em face do qual a Cia Teatro da Cidade constrói parte significativa de sua própria trajetória, definindo um modo particular de atuação e encenação, fundamentalmente pelas mãos de Andréia Barros e Claudio Mendel, que fundaram e permaneceram na companhia estabelecendo as parcerias coletivizadas que marcam as passagens de tantas e tantos artistas que se formaram também com eles. Companhia peregrina que abriga peregrinos.
No dia 31 de outubro de 2021 foi apresentada a obra prima Maria Peregrina, presencialmente no Teatro Municipal com 50% de lotação da casa. Até o momento de construção da agenda do festival não havia a previsão de ações presenciais, mas felizmente algumas ações foram possíveis nesse sentido. Foi um momento de emoção culminante a noite de encerramento. Tom Freitas, presidente da Fundação Cultural, fez um belo discurso homenageando pessoas sem as quais não seria possível tamanho sucesso do Festivale, assim como Wangy Alvez, coordenador do Festivale, louvou a participação dos grupos. E ambos enfatizaram a relevância da Cia Teatro da Cidade e seu simbolismo na história do teatro na cidade e que a projeta para outros tantos lugares. Três histórias formam os quadros que ambientam o universo de Maria Peregrina: uma grande paixão e que termina de forma trágica, um divertido julgamento de um caipira e o drama de uma mãe que perdeu seu filho.
A dramaturgia de Luís Alberto de Abreu teve direção de Claudio Mendel e Atul Trivedi como diretor assistente. O elenco contou com Andréia Barros, André Ravasco, Caren Ruaro, Carol Grignoli, Laura Ramalho e Rômulo Scarinni em sua formação. Os impactos emocionais da obra foram tão profundos que ainda não foi possível recuperar totalmente o fôlego. Após a apresentação, enquanto Alexandre Mate descrevia a montagem como “totêmica”, eu mirava para todo o acontecimento e as lágrimas lavavam o rosto: de espanto, de tamanha beleza, e profundas visões que se apresentam a partir desses “lugares de onde se vê” que são o teatro. E os trago plurais porque percebo, lembrando das emoções que senti no ano 2000 ao ver a peça e a elas somando os afetos dessa noite de domingo em São José dos Campos.
Naquela ocasião, os elementos épicos do texto coerentemente dirigidos por Claudio Mendel no que tange à narração-interpretação-representação, emocionaram-me pela compreensão que traziam do teatro épico. Com relação aos temas, recordo do choro sentido pela perda do filho de Peregrina, que remete a tantas perdas vividas. A sensação de desamparo e a cisão que este provoca, revelam-se na “loucura devaneante” que resta à Maria para que sobreviva. A partir da busca que termina, ela ainda escuta “é preciso buscar”. E assim é, na vida, na arte. Dessa vez, conforme as cenas iam se desenvolvendo, aquelas emoções de outrora voltavam. E sobre elas vinham pairando novas emoções paridas naquele momento, e sobre elas foram se assentando. O filho perdido se verteu também sobre outras perdas, outras buscas que se encerraram pela finitude que as realidades impõem. Mas, “é preciso buscar”… E vem um segundo sentido, da busca de si mesmo em processo, mas como lembra o mestre Alexandre Mate, sempre em relação com o mundo, a história, as pessoas e contextos. E em seguida vem a metáfora maior que é Maria Peregrina representar a busca humana, ancestral e incessante, processo histórico que se faz em camadas espirais.
As interpretações do elenco são primorosas. O barco conduzido pelas mãos de Rômulo Scarini enquanto entoa um doce canto definitivamente nos embala na viagem de Peregrina. Cena de um belo estonteante. As três atrizes Caren, Carol e Laura fazem um trio masculino divertidíssimo, com tratamento crítico ao comportamento masculino bastante contemporaneamente necessário. André Ravasco dialoga com o público em sua inteireza cênica. E Andreia Barros eterniza nas retinas a imagem que traduz o olhar presente das Marias Peregrinas e todos os peregrinos do mundo, quando transpõem as dores cotidianas e enxergam suas buscas como se fossem “encontradas" em outros tantos lugares, pessoas, coisas, sonhos…Reencontrando sentidos para as (sobre)vivências, criando belezas co-moventes, e possibilitando que o peregrinar continue, como forma de aprendizagem e permanência pulsante.
Esse olhar, perpetuado na capa do livro que conta a história da Cia Teatro da Cidade: Um canto de teatralidade às luas peregrinas renascidas no Vale do Paraíba (por Alexandre Mate e Simone Carleto), mostra o domínio técnico-expressivo de uma atriz que soube olhar para si em fricção com os outros e outras e dessa “deambulação" entre tantos mundos pariu o melhor de si e de tudo que apreendeu do mundo, tal e qual a Maria que vive na sua história, inspirando outras e outros tantos. Espetáculo, artistas e registros tornam também imortal as histórias coletivas que residem indefinidamente na história dessa companhia das mais importantes do Brasil: Cia Teatro da Cidade.