Brasil

Brasil está no mapa de risco para próxima pandemia, dizem cientistas

Por Agência O Globo |
| Tempo de leitura: 3 min
Pandemia no Chile
Pandemia no Chile

Meio ano após o espalhamento da Covid-19 começar, ainda não se sabe quando ele vai acabar, mas a comunidade científica já discute intensamente como deter a próxima pandemia. É difícil prever onde outro patógeno ameaçador pode emergir, dizem especialistas, mas há vários lugares que reúnem condições para isso ocorrer, incluindo o Brasil.

A África e a Ásia foram palco da maior parte dos eventos preocupantes antes do novo coronavírus com (Ebola e SARS liderando o ranking do medo). Mas as condições sanitárias precárias que, aliadas à degradação ambiental, permitiram novos vírus saltarem de animais para humanos, existem também na América Latina.

Ainda não se elucidou completamente a origem do novo coronavírus, mas a hipótese mais provável é que a intrusão humana no habitat de morcegos silvestres levou o patógeno da natureza para um mercado de animais vivos em Wuhan, na China. Possivelmente, o vírus pegou carona antes em um pangolim, animal asiático parente do tamanduá, ou algum outro mamífero.

A situação descrita ali encontra paralelos no Brasil. E quem procura novos patógenos aqui, acha, afirma Antônio Charlys da Costa, cientista do Instituto de Medicina Tropical da USP. Há muitos lugares do Brasil que, como o mercado de animais de Wuhan, são o paraíso para patógenos emergentes.

"No Ceasa, por exemplo, aqui em São Paulo, existe uma infinidade de rato. Em Santarém, no Pará, onde o esgoto corre a céu aberto, você vai na beira do rio e vê urubus do lado do mercado municipal de peixe. Em Maceió, não sei como a Vigilância Sanitária não se importa com aquela carne sendo vendida ao ar livre", afirma.

Charlys trabalha viajando para diversos lugares do país buscando amostras de pacientes com sintomas de viroses, procurando encontrar patógenos que sejam de relevância. Em seu último trabalho, publicado em março na revista "PLoS One", relatou a descoberta de dois vírus da família dos parvovírus infectando pacientes no Amapá e no Tocantins.

Em povoados próximos a florestas, diz o pesquisador, uma preocupação especial é a prática da caça, que nas fronteiras do desmatamento pode expor pessoas a vírus que o sistema imune humano nunca viu. "É comum ouvir o argumento de que na China eles comem muita coisa exótica e por isso muitos vírus emergem lá", diz Charlys. "Mas na China existe uma vigilância muito forte para patógenos. A vigilância que existe no Brasil é fraca e é basicamente ancorada em pesquisa".

Sem os cientistas e médicos colaborando de forma independente diz, seria difícil detectar problemas como o que foi a zica em 2015.

Justiça seja feita, porém, o Brasil possui alguns sistemas de vigilância que tem sido eficientes. Se o novo coronavírus tivesse surgido aqui, por exemplo, ele provavelmente seria detectado em algum momento com ajudado Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe, o Sivep-Gripe.

Agregando dados de pacientes que são hospitalizados com síndrome respiratória aguda grave (a SRAG, um conjunto de sintomas), o alerta vermelho seria levantado caso um aumento dessas ocorrências surgisse sem que se pudesse atribuir a culpa ao vírus influenza.

Quando o InfoGripe, projeto da Fiocruz que monitora esses dados, detectou uma explosão nos casos de SRAG em março, já se sabia que a Covid-19 estava por aqui. Se tivéssemos de esperar até a alta de internações para saber da pandemia, a resposta ao surto brasileiro provavelmente teria sido muito pior.

Segundo o epidemiologista Marcelo Gomes, coordenador do InfoGripe, já está nos planos aprimorar o sistema. "Estamos conversando com o Ministério da Saúde para reestruturar a vigilância e cobrir também casos leves para auxiliar no processo", conta o pesquisador.

"A ideia é capturar esses casos batendo nas unidades básicas de saúde, quando as pessoas estão com sintomas ainda leves. Já existe, até, uma vigilância sentinela para síndrome gripal, mas ela ainda não consegue dar essa reposta com a estrutura que ela tem agora", explica.

Comentários

Comentários