Abel Augusto Teixeira, de 65 anos, não gostava que se preocupassem com ele. Sempre dizia que estava tudo bem. Adalberto da Silva Clímaco, de 55, era professor e recordista em atletismo. Em seu currículo, orgulhava-se de ter corrido ao lado do campeão olímpico Joaquim Cruz. Já Karollyne Mendes Ramos da Silva, de 19 anos, tinha longas tranças azuis e foi a primeira da família a conseguir cursar uma faculdade. Yvonne Martins Teixeira era amante de pagode e fã de Roberto Carlos: ao longo de seus 103 anos, sempre foi muito feliz ao cantar. A última frase de Thiago Mendes Lobo, de 26 anos, foi "eu amo tudo que vivi".
Os nomes acima citados são apenas alguns dos mais de 56 mil brasileiros que perderam a vida para a Covid-19.
Em quatro meses desde o primeiro caso confirmado, fazem parte de mais de um milhão de pessoas no país que contraíram o vírus. Estes, infelizmente, não sobreviveram à maior crise sanitária dos últimos 100 anos no Brasil, um país que há mais de um mês não tem um especialista no comando do Ministério da Saúde e que tem estimativa de aumentar ainda mais o número de mortos e infectados.
Um estudo da Universidade de Washington mostra que ao menos ao menos 125 mil pessoas devem morrer vítimas da Covid-19 no Brasil até o começo de agosto. Um mês atrás, a mesma instituição estimava que o número seria de 90 mil.
A ciência é bem clara quando mostra que o Brasil não conseguiu acertar no combate ao vírus. Um estudo da Fiocruz, divulgado essa semana, apontou que nenhum estado brasileiro apresentou sinais de uma redução da transmissão da Covid. Segundo os cientistas, este cenário configura uma espécie de platô que pode ser prolongado por tempo indefinido.
Enquanto não há vacina ou medicamento de eficácia comprovada contra a Covid-19, o coronavírus segue avançando pelo Brasil em meio às iniciativas de flexibilização do distanciamento social em várias capitais do país. Uma pesquisa da Universidade de Oxford divulgada na última quinta-feira concluiu que oito delas conduziram reaberturas equivocadas. Na avaliação dos pesquisadores da instituição britânica, uma das mais renomadas do mundo, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Fortaleza, Goiânia, Manaus e Porto Alegre "não atenderam aos critérios da OMS, embora as políticas de resposta à Covid-19 tenham reduzido a mobilidade" dos habitantes.
Enquanto isso, o Brasil tem o Ministério da Saúde comandado interinamente pelo general do Exército Eduado Pazuello, um militar da ativa e que não apresenta formações técnicas na área. Antes dele, dois ministros diferentes, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, deixaram a pasta por discordâncias com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), negacionista da ciência ao não seguir orientações básicas da OMS (Organização Mundial da Saúde), criticar o isolamento social e defender o uso da hidroxocloroquina, medicamento que não tem eficácia comprovada contra o vírus e pode causar complicações cardíacas.
Não à toa, o Brasil segue atrás apenas dos dos Estados Unidos, que ainda têm mais casos e mortes. Enquanto nomes ainda são tratados como números frios e distantes.